O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cumpre agenda em Florianópolis no domingo, 13 de setembro. O Diretório Estadual do PT de Santa Catarina divulgou o aviso de pauta nesta segunda-feira (31) e informou que a data já está fechada com a coordenação nacional da campanha à reeleição. Local, horário e formato da atividade ainda não foram definidos e serão anunciados em novo comunicado, com antecedência mínima de 72 horas.
Será a quarta vez que Lula pisa em solo catarinense em todo o terceiro mandato, e a primeira desde 26 de junho, quando um discurso em Itajaí abriu a maior crise entre o Palácio do Planalto e o governo estadual desde o início da gestão. Passaram-se pouco menos de três meses sem que o presidente voltasse ao estado. Em 21 de julho, durante a convenção do PT em Florianópolis, o presidente nacional do partido, Edinho Silva, ainda tratava o retorno como intenção: garantiu à imprensa que Lula viria durante a campanha, sem data.
A agenda agora confirmada coloca Santa Catarina no calendário nacional da disputa presidencial a três semanas do primeiro turno, marcado para 4 de outubro. E muda o registro das passagens anteriores: as três primeiras foram institucionais, com entrega de obra e cerimônia militar. Esta é campanha declarada.
O que Lula disse em Itajaí
Naquela sexta-feira, durante agenda em um estaleiro do Litoral Norte, Lula afirmou que não se pode “permitir que prevaleça em Santa Catarina o racismo”. O presidente disse ainda que o estado não pode deixar que “as pessoas sejam tomadas do senso de grandeza” por ser rico, e defendeu que todo brasileiro precisa ser tratado igualmente. Na sequência, ao criticar o que chamou de hegemonia branca, recorreu ao exemplo histórico do nazismo: “Hitler tentou fazer isso e acabou do jeito que acabou”.
O trecho que mais azedou o ambiente veio logo depois. Lula sustentou que não se pode aceitar a ideia de uma hegemonia branca sobre o restante do país e completou dizendo que aquilo, na verdade, seria hegemonia da ignorância. O alvo declarado do discurso era o governador Jorginho Mello (PL), ausente do evento. O presidente questionou publicamente “o tamanho da cabeça desse cidadão” e a qualidade de sua massa encefálica, além de cobrar a ausência do governador em agendas federais no estado.
O pano de fundo do discurso era a política de cotas raciais. A gestão Jorginho Mello havia promulgado lei que proibia cotas com base em raça nas universidades públicas do estado, justificada pela composição demográfica catarinense, e a norma foi derrubada pelo Supremo Tribunal Federal em abril. Pelo Censo de 2022, 76,28% dos catarinenses se autodeclaram brancos; em Itajaí, onde Lula falava, o índice chega a 93%.
Governo do estado levou o caso à PGR
A reação do governo estadual veio no dia seguinte. Jorginho Mello classificou a declaração como discriminatória e traçou a linha entre crítica política e ofensa coletiva: uma coisa seria o presidente criticá-lo ou contestar dados do estado, outra seria chamar o povo catarinense de racista, o que, segundo ele, é “criminoso, preconceituoso” e precisa ser respondido.
Na segunda-feira seguinte, a Procuradoria-Geral do Estado protocolou representação criminal na PGR, assinada pelo procurador-geral Marcelo Mendes e pelo próprio governador, pedindo investigação por incitação à discriminação ou preconceito de procedência nacional e o oferecimento de denúncia perante o STF, com base na Lei do Racismo. No documento, a PGE sustentou que o discurso tratou a população do estado como bloco homogêneo, ao qual teriam sido atribuídos coletivamente racismo, adesão ao ideário nazista, arrogância e ignorância. A representação não abre investigação automaticamente.
O PL também levou o caso ao TSE, argumentando que a associação configuraria discurso de ódio por procedência regional, enquadrado no artigo 20 da Lei do Racismo, e pediu o envio do processo à PGR e ao Ministério Público Eleitoral. Deputadas federais catarinenses do partido e o pré-candidato ao Senado Carlos Bolsonaro rebateram o discurso nas redes sociais, e Júlia Zanatta devolveu a acusação afirmando que a mania de grandeza estaria no poder central de Brasília, não no catarinense.
A esquerda catarinense reagiu na direção oposta. Décio Lima (PT), candidato ao Senado, publicou vídeo nas redes acusando Jorginho Mello de criar fake news e de ter inventado que Lula teria chamado os catarinenses de racistas. Em julho, durante a convenção do partido em Florianópolis, o presidente nacional do PT, Edinho Silva, foi na mesma tecla: disse que tirar a fala do presidente de contexto é ruim e lembrou o histórico de compromisso de Lula com o estado. Foi na mesma ocasião que ele antecipou a viagem agora confirmada: “Ele virá com certeza”.
O argumento das obras
O que o PT quer colocar na mesa em 13 de setembro é o balanço de investimentos. Segundo dados do governo federal, dos R$ 18,1 bilhões do Novo PAC previstos para Santa Catarina até o fim de 2026, R$ 16,3 bilhões já foram executados, o equivalente a 90% do total, percentual à frente de Goiás, com 76,3%, e do Rio Grande do Norte, com 74,8%. São 589 empreendimentos listados no estado, 93 deles concluídos e entregues até o fim de 2024, outros 122 em execução, 41 em licitação e 333 em ações preparatórias, além de 39.598 unidades do Minha Casa, Minha Vida destinadas ao estado. O Contorno Viário da Grande Florianópolis, entregue em agosto de 2024, é classificado pelo governo federal como a maior obra de infraestrutura terrestre do país.
Para o presidente estadual do PT, o deputado estadual Fabiano da Luz, o dado é a mensagem. “Santa Catarina é o estado que mais executou obras do Novo PAC no Brasil inteiro. Casa, creche, posto de saúde, estrada, saneamento. Isso não é discurso, é obra entregue, com endereço, que o catarinense pode ir lá e ver. O presidente vem a Florianópolis para olhar no olho de quem recebeu e para ouvir quem ainda precisa”, afirma.
O dirigente admite que o terreno é hostil e diz que o partido vai tratar Santa Catarina como disputa aberta. “Nós sabemos o tamanho do desafio em Santa Catarina e não temos nenhuma ilusão sobre ele. Mas quem constrói campanha na rua, conversando de vizinho para vizinho, não tem medo de terreno difícil. Vamos disputar cada município, cada bairro e cada conversa. No dia 13, quem quiser ver de perto está convidado”, completa.
Flávio Bolsonaro lidera com folga no estado
Os números explicam o tamanho do desafio. Pesquisa Quaest divulgada em 24 de agosto aponta Flávio Bolsonaro (PL) com 45% das intenções de voto entre os catarinenses no primeiro turno, contra 20% de Lula. O levantamento ouviu 804 pessoas entre 20 e 23 de agosto, tem margem de erro de 3 pontos percentuais e está registrado no TSE sob os números SC-00517/2026 e BR-07160/2026. Entre os entrevistados, 70% consideram a escolha definitiva e 30% admitem que ainda podem mudar de voto até outubro.
No palanque estadual, Lula deve encontrar a chapa costurada pelo campo da esquerda em julho: Gelson Merisio (PSB) na disputa pelo governo e Décio Lima (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) nas duas vagas do Senado. As passagens recentes do presidente pelo estado foram concentradas em agendas institucionais, como a inauguração do Contorno Viário e a reabertura do Porto de Itajaí. Desta vez o formato é outro: campanha declarada, em pleno período eleitoral, no estado onde a fala mais desgastada do mandato ainda está viva e sob análise da PGR.
O PT informou que divulgará local, horário e o desenho final da atividade em novo aviso de pauta, com pelo menos 72 horas de antecedência.






















