O bode que aparece bebendo cerveja e mastigando um cigarro em um vídeo gravado durante uma festa em um clube do bairro Adhemar Garcia, em Joinville, no Norte de Santa Catarina, não estava mais vivo quando os protetores chegaram ao local. Segundo uma mulher que se apresentou como responsável pelo espaço, o animal foi abatido e servido como refeição no mesmo dia em que as imagens foram feitas.
A informação surgiu quando a equipe da Frente de Ação pelos Direitos dos Animais (Frada) foi até o endereço para checar as condições do bode, depois que o vídeo se espalhou nas redes sociais e gerou uma onda de cobranças por resposta.
“Só vim ver se ele tava vivo, como é que ele tava, porque estão perguntando”, disse a integrante da entidade à mulher, logo na chegada.
“Ele foi abatido e a gente comeu”
A resposta veio direta. “Ele foi abatido e a gente comeu”, afirmou a mulher, confirmando em seguida que tudo ocorreu “naquele mesmo dia”.
Questionada sobre por que serviram cerveja e cigarro ao animal antes disso, ela minimizou a cena. Disse que o bode comia qualquer coisa que aparecesse pela frente e sustentou que ninguém obrigou o animal a nada. “Ele come tudo. Ele não foi lá pedir cerveja”, declarou, acrescentando que, se o bode não quisesse, teria bastado fechar a boca.
Na mesma conversa, a mulher explicou o motivo do abate. Segundo ela, o grupo se reuniu para marcar os sete dias da morte de um amigo, vítima de um acidente, e decidiu preparar o animal em homenagem a ele. “Ele gostava muito do bode. Ele vivia lá, beijando o bode. E ele sempre falava: esse bode, vamos comer quando?”, relatou.
Ela também afirmou que o animal tinha outra destinação prevista antes disso. De acordo com a mulher, que disse frequentar a umbanda, o bode seria usado em um ritual religioso, mas o plano teria mudado com a morte do amigo.
Ritual, abate e o que está sob investigação
O sacrifício de animais em cultos de religiões de matriz africana é reconhecido como prática constitucional pelo Supremo Tribunal Federal, desde que não haja crueldade. A discussão no caso de Joinville, no entanto, é outra: o que aparece no vídeo é o animal preso por uma corda recebendo bebida alcoólica e cigarro em meio a risos, cena que não tem relação com liturgia nenhuma.
Foi exatamente esse o ponto levantado pela equipe da Frada durante a conversa. Os protetores disseram à mulher que não estavam discutindo o abate em si, mas o tratamento dado ao animal antes dele. “Não tem necessidade da cerveja, do cigarro”, pontuou a integrante da entidade.
A mulher afirmou que já foi procurada pela delegacia, que já respondeu às mensagens e que o grupo vai comparecer para prestar depoimento. Também questionou se as imagens da cerveja seriam suficientes como prova e ouviu que o material foi publicado pelos próprios envolvidos.
A Frada registrou boletim de ocorrência por maus-tratos e o caso está sob apuração da Polícia Civil, que analisa o vídeo para identificar cada pessoa que aparece nas imagens. Desde julho deste ano, a Lei Orelha alterou o Código Estadual de Proteção aos Animais e endureceu as sanções administrativas em Santa Catarina, com multas dobradas quando há lesão grave ao animal e triplicadas quando ocorre a morte, além de agravantes para método cruel ou sofrimento intenso e prolongado.
Não há, até o momento, manifestação oficial da Polícia Civil sobre o número de identificados nem sobre o enquadramento que será aplicado. A entidade afirma que vai acompanhar o inquérito até o fim.















