A deputada federal Carol De Toni (PL-SC), candidata ao Senado por Santa Catarina, gravou um vídeo minutos depois de o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, determinar o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, nesta terça-feira (8). Na gravação, a parlamentar catarinense afirma que o episódio expõe “um estado paralelo dentro do estado brasileiro” e defende que o ministro Alexandre de Moraes também seja afastado.
“Isso mostra que nós temos um estado paralelo dentro do estado brasileiro, em que integrantes da Polícia Federal, o diretor-geral Andrei, estava usando delegados, a mando do Alexandre Moraes e dele mesmo, dos dois que estão envolvidos no caso Vorcaro, para produzir documentos apócrifos, relatórios paralelos, não requisitados de forma legal para se autoblindar”, disse a deputada.
Para De Toni, a decisão de Mendonça não pode parar no comando da corporação. “Isso mostra que não só o diretor deve ser afastado, mas também o ministro Alexandre Moraes, que usou esse relatório para tentar impedir Mendonça de exercer o seu papel legal”, afirmou. As acusações são da parlamentar e não constam da decisão do Supremo.
A deputada cobrou ainda uma reação do presidente do Supremo. “Agora, ministro Fachin tem o papel imediato de botar ordem na casa e afastar todos esses envolvidos que estão usando e fazendo das instituições um estado paralelo para fins e interesses pessoais”, declarou no vídeo, gravado dentro de um carro e publicado nas redes sociais.
O que Mendonça decidiu
Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Augusto Passos Rodrigues do cargo de diretor-geral da Polícia Federal e do delegado Leandro Almada da Costa da Diretoria de Inteligência Policial. Segundo a decisão, a medida é necessária para que integrantes da Corte, o advogado-geral da União, Jorge Messias, e os servidores da própria PF exerçam suas atribuições sem constrangimentos ilegais.
O ponto central da decisão é a denúncia de que o próprio relator estava sendo acompanhado pela corporação. Mendonça escreveu que foi submetido a monitoramento sistemático pela inteligência da Polícia Federal e citou ofício assinado pelo diretor-geral que registra ao menos seis relatórios de inteligência produzidos entre 3 e 31 de agosto de 2026. “Ao menos há mais de 30 dias este relator tem sido monitorado pela Polícia Federal”, afirmou. O ministro classificou o acompanhamento como monitoramento ilícito de ministro da Suprema Corte.
Além dos afastamentos, a decisão suspende a produção, a elaboração e o compartilhamento, mesmo interno, de qualquer relatório de inteligência destinado a analisar atos praticados no exercício das funções de prestação jurisdicional, advocacia pública e polícia judiciária. Mendonça também mandou a Corregedoria da PF instaurar procedimentos de natureza penal e administrativo-disciplinar para apurar quem determinou a elaboração dos documentos, quem os produziu, quando foram feitos e se existem outros com a mesma finalidade.
A crise que levou ao afastamento
O estopim foi uma sequência de decisões na primeira semana de setembro. Em 1º de setembro, Mendonça retirou o sigilo de peças da investigação do Banco Master que mostravam uma relação entre o banqueiro Daniel Vorcaro e Alexandre de Moraes. No mesmo dia, Moraes determinou que a Polícia Federal entregasse ao seu gabinete os relatórios de inteligência que citassem integrantes do Supremo.
Em 3 de setembro, Moraes usou esses relatórios para sustentar uma decisão em que apontou fortes indícios de improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade por parte de Mendonça na condução das operações Compliance Zero, do caso Master, e Sem Desconto, das fraudes no INSS. Moraes pediu providências ao presidente do STF, Edson Fachin, que abriu procedimento e deu cinco dias úteis para que Moraes, Mendonça, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e Andrei Rodrigues prestem informações.
Os documentos usados por Moraes não trazem timbre, assinatura nem data, são classificados como análise de cenário e trazem a ressalva de não terem valor probatório. Na decisão desta terça, Mendonça se refere ao material entre aspas e o descreve como apócrifo, sem qualquer símbolo gráfico capaz de lhe dar o mínimo grau de legitimidade e confiabilidade.
O afastamento foi decidido dentro da análise de um pedido do partido Novo, que havia solicitado providências para preservar a independência das investigações depois que um relatório de 200 páginas apontou menções a Andrei Rodrigues no celular de Vorcaro. A legenda chegou a pedir a prisão preventiva do diretor-geral, mas Mendonça optou pela medida cautelar de afastamento.
A decisão foi submetida ao referendo da Segunda Turma do Supremo, em sessão virtual extraordinária convocada para esta terça-feira. O colegiado é formado por Luiz Fux, Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Nunes Marques e o próprio Mendonça. O ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, foi intimado para cumprir a ordem, já que o cargo de diretor-geral da PF é de provimento do presidente da República.
Andrei Rodrigues e Leandro Almada da Costa não se manifestaram publicamente até a publicação desta reportagem. Em conversas com aliados nos últimos dias, o diretor-geral afirmou ver indícios de ilegalidade, abuso de poder e desvio de finalidade na condução do caso, negou qualquer conversa com Moraes sobre Vorcaro e disse que nem ele sabia quando o mandado de prisão contra o ex-banqueiro seria expedido, porque a decisão era sigilosa.






















