Vídeos gravados por vizinhos e divulgados nesta quarta-feira (2) mostram o interior da casa de madeira onde Mauricio Ricardo de Lima Junior e Jessica Réus Fernandes, os dois de 22 anos e naturais de Criciúma, viviam com os filhos: um berço encostado em uma cama de casal sem lençol, roupas amontoadas sobre o colchão, sacolas e lixo espalhados pelo chão, um gato filhote circulando entre as peças e um banheiro com o vaso sanitário sem tampa e papel higiênico jogado no piso. O casal está preso desde a manhã de segunda-feira (31), quando levou o filho de cinco meses já sem vida à UPA do bairro Rio Maina, e a Justiça decretou na terça-feira (1º) prisão temporária de 30 dias para os dois.
As imagens circularam junto com relatos de moradores da vizinhança que dizem ter ouvido com frequência o choro dos bebês durante a madrugada. Em um áudio gravado por um dos vizinhos e obtido pelo Jornal Razão, o morador descreve a rotina da casa: “Frequentemente o menino ficava chorando assim de madrugada, sabe? Ele levantava bem cedo, o cara, e o que que fazia com esse menino, me fala, sabe?”. No mesmo áudio, ele relata o dia em que o choro parou de repente: “Esse dia ele tava chorando desse jeito, daqui a pouco ele cessou, ele ficou quieto”. A conclusão, dita na hora a outra pessoa, foi uma só: “Acho que mataram o guri”.
Os mesmos vizinhos afirmam que a situação da família não era desconhecida das autoridades. Segundo os relatos, denúncias já teriam sido feitas ao Conselho Tutelar antes da morte do segundo bebê, sem que as crianças fossem afastadas do casal. Nos comentários das publicações sobre o caso, moradores de Criciúma repetem a versão: uma internauta contou ter lido o relato de uma mulher que já havia denunciado o casal e recebido do órgão a resposta de que “não pode fazer nada”; outra escreveu que “já tinha sido feita denúncia e não foi só uma”; uma terceira marcou uma moradora que, segundo ela, “chamou o conselho e nada fizeram”. Na segunda-feira, o Conselho Tutelar relatou à Polícia Militar que só identificou a primeira morte, ocorrida em 2025, ao apurar a situação da família dentro da UPA. Até a publicação desta reportagem, o Jornal Razão não localizou manifestação do órgão sobre as denúncias anteriores.
Assista ao vídeo
O que os vídeos mostram
O primeiro vídeo percorre o quarto. As paredes e as janelas são de madeira, e há roupas penduradas na janela. A cama de casal está com o colchão à mostra, sem lençol, coberto por peças de roupa, uma manta amarela e almofadas. Encostado na cabeceira, um berço de madeira guarda cobertas e travesseiros amontoados. No chão, um gato filhote anda entre sacolas, pedaços de pano e plásticos espalhados sobre o assoalho. O guarda-roupa aparece com as gavetas abertas e roupas escorrendo para fora, ao lado de uma cadeira de escritório e de um travesseiro jogado no piso.

O segundo vídeo mostra o banheiro. O vaso sanitário está sem tampa e sem assento, e no chão de azulejo há um tapete azul, rolos de papel higiênico, embalagens e panos sujos. Um armário com as portas abertas guarda sacolas e roupas empilhadas, e o teto deixa à mostra as vigas de madeira. O terceiro cômodo filmado tem uma cama coberta com um lençol branco, cobertores enrolados e uma caixa sobre o colchão; ao lado, uma mesa com garrafas e latas, e roupas amontoadas no chão junto a um armário. Não há indicação de quando as imagens foram gravadas.
Segundo os moradores, existem ainda áudios gravados pela vizinhança em que os bebês aparecem chorando aos berros, material que, na avaliação deles, mostra a rotina da casa nos meses que antecederam as duas mortes.
Relembre o caso
Mauricio e Jessica chegaram à UPA do Rio Maina na manhã de segunda-feira com o bebê de cinco meses já morto. A médica que atendeu o caso constatou rigidez corporal, sinal de que o óbito havia ocorrido horas antes, não encontrou os sinais de vômito que os pais descreviam e identificou uma laceração na região anal da criança. Os dois deram versões que não se encaixam: Jessica disse que amamentou o filho por volta das 3h40, que ele se engasgou e se recuperou, e que só soube da morte por volta das 9h; Mauricio contou que chegou do trabalho às 6h30, viu o filho bem, dormiu duas horas e o encontrou sem vida. Foi a médica quem acionou a Polícia Militar. Os detalhes da ocorrência estão nesta reportagem do Jornal Razão.
Enquanto o casal estava dentro da unidade, enfermeiras e o Conselho Tutelar descobriram o outro filho da família, um menino de quatro anos, trancado sozinho no carro havia cerca de duas horas. Na revista, a PM encontrou com Mauricio uma porção de maconha e R$ 2.999 em espécie escondidos na blusa. Os dois foram presos em flagrante por abandono de incapaz e levados à Central de Plantão Policial.
Na audiência de custódia de terça-feira, a Vara Regional de Garantias homologou o flagrante e decretou a prisão temporária de 30 dias, a pedido da Polícia Civil e do Ministério Público, que querem apurar as suspeitas de homicídio e estupro. A prisão garante as perícias no corpo do bebê e na casa da família e a oitiva de testemunhas. O caso se enquadra na Lei Henry Borel e está com a Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente e ao Idoso (DPCAI) de Criciúma. A decisão da Justiça está detalhada nesta reportagem.
A morte de 2025 seguiu roteiro parecido. Um bebê do casal, de sete meses segundo o Conselho Tutelar, chegou à UBS do bairro Mina do Mato no colo de Jessica, que entrou gritando que a criança estava afogada. O médico da unidade constatou que não era engasgo: o bebê estava flácido, sem pulso e roxo. A equipe fez cerca de 45 minutos de reanimação sem sucesso e ninguém soube dizer havia quanto tempo a criança estava naquele estado. Mauricio disse que a mulher estava em casa quando encontrou o filho mole; Jessica afirmou que já estava no mercado. A Polícia Científica não foi ao local por se tratar de morte registrada como acidental, e não houve perícia na casa onde o bebê foi encontrado.
O que vem agora
O menino de quatro anos, que em 2025 tinha três e ficou em casa durante a primeira morte, está em uma família acolhedora sob medida de proteção. O resultado da necropsia do bebê de cinco meses, a cargo da Polícia Científica, é o que deve definir se a morte será tratada como homicídio e se a laceração tem origem em violência sexual. A decisão judicial também determina que a morte de 2025 seja apurada. Mauricio, servente de pedreiro, e Jessica, dona de casa, seguem recolhidos na Central de Audiência de Custódia de Criciúma; ao fim dos 30 dias, só continuam presos se a Justiça prorrogar a temporária ou decretar a preventiva. Nenhum dos dois foi condenado.















