Esquerda e direita caminharam juntas em Itajaí no fim de 2025 para aprovar, quase sem resistência, um pacote de medidas que amplia benefícios, estrutura e custos do Poder Legislativo municipal. Em sequência, a Câmara de Vereadores aprovou o reajuste expressivo do auxílio saúde, agora estendido aos próprios parlamentares, o aumento do número de cadeiras no plenário de 17 para 21 a partir de 2029 e também a ampliação da estrutura dos gabinetes, com mais cargos de assessoria.
O movimento ocorreu de forma coordenada e com apoio praticamente unânime. O Projeto de Lei Complementar nº 49/2025, que altera a Lei Complementar nº 387/2021, foi aprovado com votos favoráveis de praticamente todo o plenário. Apenas Victor Nascimento (PL) não participou da votação. O texto reorganiza o auxílio saúde em três faixas etárias e eleva de forma significativa os valores máximos do benefício.
Mais do que o reajuste, a principal mudança é política. O auxílio, criado originalmente para servidores da Câmara, passa a ser estendido aos vereadores, que poderão contratar plano de saúde privado e receber reembolso integral da mensalidade diretamente na folha de pagamento, a partir de janeiro de 2026. A despesa será custeada pelo orçamento do próprio Legislativo.
A justificativa formal cita pedido da Associação dos Servidores do Legislativo de Itajaí e respaldo jurídico do Tribunal de Contas de Santa Catarina, que em prejulgado recente considerou legal o pagamento de auxílio saúde indenizatório a vereadores. Ainda assim, o efeito concreto é a criação de um novo benefício direto para quem vota a própria regra.
Paralelamente, a Câmara aprovou o Projeto de Emenda à Lei Orgânica do Município nº 2/2025, que fixa em 21 o número de vereadores. A mudança passa a valer apenas na legislatura subsequente, com mandato a partir de 2029, mas redefine desde já a futura composição e os custos do Legislativo. O projeto foi conduzido pela Mesa Diretora e contou com ampla adesão de vereadores de partidos de esquerda, centro e direita.
No mesmo período, a Câmara também aumentou a estrutura dos gabinetes parlamentares, ampliando de três para cinco o número de assessores por vereador. Na prática, isso significa mais cargos comissionados, mais salários pagos mensalmente e um crescimento permanente da folha de pagamento do Legislativo, independentemente do aumento no número de cadeiras.
Na justificativa do aumento de vereadores, a Câmara argumenta que Itajaí cresceu. Segundo dados citados no próprio texto, o município teria atingido 294.850 habitantes em 2025, crescimento superior a 40% em relação a 2016. O orçamento municipal também é usado como argumento, saltando de cerca de R$ 1,2 bilhão em 2016 para uma previsão superior a R$ 3,8 bilhões em 2026. Para os autores, esse cenário exigiria mais vereadores para fiscalizar, legislar e atender a população.
O que o texto não detalha, mas é consequência direta, é o impacto administrativo. Mais quatro vereadores, somados a gabinetes maiores, significam mais estruturas, mais cargos comissionados e mais despesas permanentes. Cada novo vereador traz consigo uma equipe completa de assessores, além de reflexos automáticos em benefícios como auxílio alimentação, auxílio saúde e demais verbas vinculadas ao mandato.
Nos bastidores, a coincidência temporal chama atenção. Em um curto espaço de tempo, o Legislativo aprovou mais vereadores, mais assessores e benefícios ampliados, com votação quase unânime e sem embates ideológicos visíveis. Parlamentares que costumam divergir em discursos públicos atuaram de forma alinhada quando o tema envolveu a própria estrutura, conforto e remuneração indireta da Casa.
Outro ponto relevante é o calendário. As medidas foram aprovadas no apagar das luzes de 2025. O auxílio saúde ampliado entra em vigor já em 2026, enquanto o aumento de vereadores passa a valer apenas em 2029, após as eleições de 2028, diluindo o impacto político imediato, mas consolidando as regras para o futuro.
O contraste com a realidade externa também pesa. Enquanto a Câmara reorganiza benefícios internos, amplia gabinetes e projeta um Legislativo maior, Itajaí enfrenta demandas recorrentes em áreas como saúde pública, infraestrutura e serviços essenciais, frequentemente apontadas pela população como insuficientes ou sobrecarregadas.
O conjunto das decisões revela um retrato claro. Em Itajaí, quando o assunto é ampliar poder, estrutura e benefícios do Legislativo, esquerda e direita deixam as diferenças de lado e votam juntas. O discurso oficial fala em modernização, representatividade e eficiência. O resultado prático é um Legislativo maior, com mais assessores, mais custos e benefícios reforçados para quem ocupa o plenário.





































