Matheus Cordeiro Figueiro, de 10 anos, perdeu a primeira luta de jiu-jitsu que disputou na vida, em março do ano passado. Ao sair do tatame, fez uma promessa para a mãe: “Mãe, eu vou voltar e eu vou trazer o ouro.” Um ano e três meses depois de estrear como competidor, ele soma 26 campeonatos e apenas três derrotas, e agora prepara a primeira viagem internacional da família, rumo ao Mundial de Abu Dhabi.
O esporte chegou até a casa por indicação de um primo da família, diretor do Instituto Sanders, em Balneário Camboriú, que sonhava em ser professor e montou um projeto para dar aula. Foi ele quem levou Matheus para o primeiro treino.
A entrada no tatame veio num momento difícil. Havia quatro anos, a família tinha perdido o irmão de Katthyusca Cordeiro Simões, mãe dos dois atletas, tio de quem Matheus era muito apegado. “Então isso foi meio que um liberto, uma coisa para libertar ele desse sentimento que ele sentia de saudades”, conta ela. “O jiu-jitsu foi o que salvou o Matheus.”

A derrota na estreia quase encerrou a história antes do começo, na avaliação da mãe. Foi o contrário. Depois da promessa, o menino saiu do Instituto Sanders e passou a treinar no Dojo, onde encontrou a professora Kathleen. “Foi um divisor de águas para o Matheus”, diz Katthyusca. “Ele ganhou uma, ganhou outra, ganhou outra.”
Os números que a família guarda contam o resto. São 26 campeonatos disputados e três derrotas, todas por pontos. Matheus nunca foi finalizado. Todas as medalhas, segundo a mãe, vieram de finalização, com armlock e triângulo como golpes preferidos.
A família é do interior do Rio Grande do Sul e mora em Santa Catarina há cinco anos. “Faz apenas cinco anos que a gente mora aqui e eles já viveram tanta coisa nesses cinco anos, que nem eu imaginava que a gente ia viver”, afirma Katthyusca. “O jiu-jitsu abriu muitas portas para nós, para mim, para ele, para a Livea.”
Ela não treina jiu-jitsu, mas cresceu cercada de esporte. O pai é faixa-preta de taekwondo há muitos anos, o irmão chegou a treinar jiu-jitsu por um tempo e o primo foi o grande incentivador. Ela própria faz musculação e sempre estimulou os filhos a praticar algo de que gostassem.

O paralelo entre a rotina dela e a dos filhos é direto. “Para mim, a musculação foi o que me salvou, que me libertou, eu digo assim, da prisão que eu me sentia após a perda do meu irmão”, conta. “A musculação me salvou e o jiu-jitsu salvou meus filhos. O esporte realmente salva a vida da pessoa.”
Livea Cordeiro Figueiro, de 13 anos, começou a competir em janeiro e vem voltando aos poucos depois de uma sequência de lesões. Ela prefere lutar com kimono e não gosta do no-gi, modalidade sem kimono, justamente a preferida do irmão. O ritmo dela, por enquanto, é mais cauteloso.
A meta internacional nasceu de uma decisão tomada no início do ano: disputar o ranking da AJP, federação de jiu-jitsu com sede em Abu Dhabi. Matheus competiu em Santa Catarina, se classificou, foi a Porto Alegre e disputou o Grand Slam, uma das competições mais importantes do circuito. O título na categoria dele em Tubarão, no Sul do estado, garantiu a vaga.
Agora a família se prepara para a primeira viagem internacional. “Estamos muito ansiosos, muito felizes”, diz Katthyusca. “Espero que seja a primeira de muitas, tanto do Matheus quanto da Livea, porque realmente eles merecem muito estar onde eles estão.”
Ela admite que ainda tenta processar o tamanho do que aconteceu em pouco mais de um ano de competição. “Eu até me emociono, porque isso, na minha cabeça, era impossível de a gente chegar até onde a gente chegou.”















