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Eleições 2026

Cinco professoras e um só nome na urna: “Para uma mulher sentar numa cadeira, homens precisam levantar”

O coletivo Nós Juntas esteve no estúdio do Jornal Razão para explicar como pretende transformar um mandato individual em decisão compartilhada. Em entrevista a Kaiann Barentin, as professoras cobraram reserva de cadeiras para mulheres na Assembleia, chamaram de mentira as acusações de doutrinação nas escolas e disseram que o spray de pimenta não responde ao feminicídio.

Cinco professoras e um só nome na urna: “Para uma mulher sentar numa cadeira, homens precisam levantar”
Foto: Reprodução
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Cinco professoras da região da AMFRI decidiram concentrar em um único nome a força de todas, e esse nome é o de Marisa Zanoni. Candidata a deputada estadual pelo PT com o número 13300, ela esteve no estúdio do Jornal Razão ao lado de duas integrantes do coletivo Nós Juntas para explicar como pretende transformar um mandato individual em decisão compartilhada, defender reserva de cadeiras para mulheres na Assembleia Legislativa e responder às acusações de doutrinação nas escolas. “Para uma mulher sentar numa cadeira, homens precisam levantar”, disse.

Na bancada estavam, além dela, a professora e pesquisadora Elizabete Tamanini, a Betinha, de Barra Velha, e a professora Sônia Fernandes, de Camboriú. Cleo Comunello, de Itajaí, e a psicóloga Ana Maria Campos Freitas, de Navegantes, cumpriam outras agendas. As trajetórias dão a medida do grupo: Marisa é natural de Descanso, no Extremo Oeste, vive em Balneário Camboriú há três décadas, é doutora em Educação com pesquisa voltada à primeira infância, foi a primeira vereadora eleita pelo PT no município e disputou a prefeitura em 2024. Betinha é pós-doutora em Educação, Cultura e Sociedade, passou mais de uma década no Museu Arqueológico de Sambaqui de Joinville e foi a primeira mulher a disputar a Prefeitura de Barra Velha, também em 2024. Sônia é doutora em Educação e comandou o Instituto Federal Catarinense como reitora por dois mandatos, entre 2016 e 2023, além de ter presidido o Conif em 2021.

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Segundo Marisa, o coletivo não nasceu da eleição. “O Nós Juntas nasceu antes da candidatura”, afirmou na entrevista conduzida por Kaiann Barentin, atribuindo a origem à atuação das cinco em escolas, sindicatos, conselhos da mulher e de direitos humanos e movimentos culturais. “Essa candidatura nasce das nossas dores, da nossa inquietude, da invisibilidade que as mulheres têm na representação real da Assembleia Legislativa.”

Capa do vídeo do YouTube

Um nome na urna, cinco decisões

Questionada sobre como funcionaria a divisão de poder, já que apenas um nome aparece na urna, Sônia Fernandes descreveu o desenho como um mandato de escuta e decisão coletivas, que tenta “superar a perspectiva do individualismo das decisões” no âmbito da representação política. “Vejam a diferença entre alguém decidir individualmente: temos pelo menos cinco escutas, cinco falas, cinco perspectivas”, comparou. A ressalva veio de Betinha: em votações urgentes, sem tempo de consulta, quem decide é Marisa. “Ela nos representa pela confiança. Sabemos que Marisa jamais vai tomar uma decisão que venha de encontro com aquele compromisso que nós assumimos”, disse.

O eixo mais duro da conversa foi a sub-representação feminina. A Assembleia Legislativa tem 40 cadeiras e três deputadas: Ana Campagnolo (PL), Luciane Carminatti (PT) e Paulinha (Podemos). “São quarenta vagas e são apenas três mulheres”, cobrou Marisa, lembrando que as mulheres são 52% do eleitorado catarinense. Na sétima eleição que disputa, ela afirmou que a cota de gênero se esgotou como instrumento. “Nós não podemos mais assegurar apenas a cota de trinta por cento. O que a gente discute é assegurar cadeiras, porque jamais ocuparemos os mesmos espaços que os homens se não inverter essa lógica.” Betinha somou a experiência em conselhos e associações, onde, segundo ela, 80% das representações são de mulheres, sem que isso se converta em cargos de decisão.

Provocada sobre se o discurso de machismo e patriarcado não afastaria parte das eleitoras, Sônia respondeu que a pergunta é legítima, “porque depende do lugar de onde nós estamos”, mas negou que a bandeira seja contra os homens. Ela recorreu à experiência docente da pré-escola à pós-graduação para falar de papéis sociais aprendidos na infância e defendeu que ficar em casa, dedicar-se a uma igreja ou trabalhar fora sejam escolhas. “Esses espaços devem ser escolhas nossas e não determinação de alguém.” Marisa acrescentou uma ressalva dirigida às próprias eleitoras: “Não é qualquer mulher que nos representa, porque tem mulher que faz política contra mulheres.”

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Doutrinação, Paulo Freire e os limites da liberdade de cátedra

O bloco mais tenso da entrevista tratou da desconfiança de que haveria doutrinação nas escolas, tema que alimentou o Escola Sem Partido e a campanha do chamado kit gay. “Uma grande mentira”, cortou Sônia. Marisa respondeu que a onda de boatos afastou a família da escola e reivindicou trajetória. “Aqui temos mais de trinta anos de educação, a gente carrega uma história, não carrega um rótulo”, disse. Para ela, o que a escola reivindica é “a liberdade pra ensinar a pensar”, e a acusação se inverte: “A escola que quer doutrinar é exatamente a escola que se diz sem partido.” A candidata citou ainda um dado para deslocar o debate da proteção infantil, afirmando que 75% dos abusos sexuais e psicológicos não ocorrem na escola, e sim dentro de casa. “Não é o dado da Marisa, do PT ou da esquerda”, ressalvou.

Ao ser questionada se existe excesso e se tudo seria defensável em nome da liberdade de cátedra, Sônia foi direta. “A liberdade de cátedra não é fazer o que quer”, afirmou, lembrando que os princípios da educação estão no texto constitucional. “Nós não somos a favor do vale-tudo em hipótese alguma.” Com quarenta anos de magistério, ela sustentou que Paulo Freire jamais defendeu a escola como lugar de baderna e citou a máxima do educador de que o adulto permissivo produz a barbárie. Como exemplo extremo, relatou, a partir de Moacir Gadotti, o assassinato do líder indígena Galdino Jesus dos Santos, queimado vivo em um ponto de ônibus em Brasília, em abril de 1997, por cinco jovens de classe média alta, um deles menor de idade, que disseram achar que se tratava de um mendigo. “Então mendigo pode?”, reagiu Marisa. Betinha fechou o bloco defendendo a escola pública como lugar de amparo e proteção, a primeira instância a identificar violência sexual e de gênero e a encaminhar casos.

Câmeras, ACTs e o apagão de professores

Sobre a resistência de parte dos professores às câmeras nas escolas, Sônia disse que não há pesquisa científica sobre o tema e que o problema é a finalidade do equipamento. “Se é pra proteção, é bem-vinda”, afirmou, observando que muitas escolas públicas não têm câmeras nos corredores por falta de recurso, e não por posição contrária. Marisa foi mais dura: “A câmera vem muito mais como vigilância do que como proteção. O problema não é a câmera, é o uso.” E completou dizendo querer “câmera, livro, biblioteca, árvore e pai dentro da escola”. Sem citar nome, criticou “uma deputada catarinense que faz um desserviço para Santa Catarina, atacando os professores o tempo inteiro”.

Para o coletivo, o gargalo real é a carreira, não a vigilância. Marisa afirmou que 70% dos professores da rede estadual são contratados em caráter temporário, os ACTs, percentual que coincide com levantamento do Todos pela Educação, segundo o qual 71% dos docentes da rede catarinense têm vínculo temporário, o quinto pior índice do país. “Quem quer ser professor sem carreira, sem estrutura e agora com agressão?”, questionou, citando agressões de pais, de alunos e “de político instigando isso”. Ela também rebateu a ideia de conteúdo livre em sala: “O professor não cria conteúdo, o professor trabalha o conteúdo”, definido pelas bases curriculares nacional e catarinense. Sônia comparou os dois modelos e disse que, nos institutos federais, o regime de quarenta horas com dedicação exclusiva permite planejar, pesquisar e criar vínculo com o território, enquanto no Estado a lei do piso “não foi descompactada” e virou teto salarial. “Aí não é discurso, é dado pra comparar.”

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Feminicídio: “não precisaria ter morrido”

O bloco sobre violência contra a mulher partiu dos números do Observatório da Violência Contra a Mulher, vinculado à Assembleia Legislativa e alimentado por dados da Secretaria de Segurança Pública: 52 feminicídios em Santa Catarina em 2025, 255 tentativas, o segundo maior número do país, e mais de 31 mil pedidos de medida protetiva. Em 2026, o levantamento apontava 30 mortes até julho. Marisa disse que o problema começa muito antes do assassinato. “Quando uma mulher morre vítima de violência, isso não pode ser tratado como questão de um partido ou de outro. Quando ficamos na briga de dizer que isso é pauta de direita ou de esquerda, a gente tá perdendo vidas.”

O caso citado como síntese da falha foi o de Daiane Simão da Costa, de 35 anos, morta a tiros em 17 de janeiro deste ano em frente ao portão do pelotão da Polícia Militar de Balneário Piçarras, para onde havia se dirigido depois de perceber que estava sendo perseguida pelo ex-companheiro a caminho do trabalho. Ela tinha medida protetiva, era funcionária terceirizada da limpeza do Pronto Atendimento do município e deixou quatro filhos. O agressor, que se matou em seguida, havia deixado o sistema prisional quatro dias antes. “Ela não precisaria ter morrido”, disse Marisa, para quem falta inteligência e tecnologia na resposta policial, e não mais arma. Ela lembrou ainda que o Brasil tem uma das maiores populações carcerárias do mundo: “Não dá pra dizer que o Brasil não prende. O Brasil prende. O sistema carcerário é precário, não recupera ninguém.”

Sobre a hipótese de armar mulheres, Sônia ofereceu um argumento próprio. “Se armar mulheres resolvesse o problema, as mulheres policiais não morreriam”, disse, lembrando que policiais têm treinamento e ainda assim figuram no índice. Ela sustentou que autoridades que agridem mulheres publicamente autorizam a violência. “Se eu sou governador do estado e agrido uma mulher publicamente, eu tô autorizando que se agrida as mulheres.” Marisa relatou que uma eleitora lhe perguntou se o spray de pimenta protegeria as mulheres, e respondeu: “Eu não quero ter medo de encontrar um homem.” A lei estadual 19.804, de autoria do deputado Alex Brasil (PL) e sancionada pelo governador Jorginho Mello (PL) em abril deste ano, prevê o fornecimento gratuito do equipamento apenas a vítimas com boletim de ocorrência, medida protetiva deferida e renda individual de até dois salários mínimos.

No lugar disso, o coletivo listou ruas iluminadas, transporte seguro para quem trabalha até tarde na rede hoteleira e no comércio, delegacia 24 horas, abrigamento e grupos de reflexão para homens autores de violência. Marisa observou que os casos se concentram nos fins de semana, justamente quando a estrutura de atendimento fecha. Ela também afirmou que Santa Catarina era o único estado do país sem uma Casa da Mulher Brasileira porque o governo estadual não havia pactuado com o governo federal. Em julho deste ano, o Executivo catarinense enviou ofício ao Ministério das Mulheres formalizando o interesse em construir a unidade, com terreno indicado no bairro Itacorubi, em Florianópolis, e em agosto criou o grupo executivo de implantação. Betinha acrescentou o déficit habitacional em Barra Velha e Balneário Piçarras e disse que mais de 60% dos municípios catarinenses não têm conselho da mulher. O de Barra Velha, criado com esforço, ela ajudou a instalar. Marisa citou ainda o prefeito de Camboriú, Leonel Pavan (PSD), para quem a ampliação da jornada escolar reduziu casos de violência contra meninas. “Então escola protege.”

PAC, campus de Tijucas e o cabo de guerra com o Estado

Sobre a relação entre o governo estadual e o federal, tensionada desde a inauguração do contorno viário da Grande Florianópolis, em agosto de 2024, quando o governador não compareceu ao evento com o presidente Lula, Marisa defendeu postura republicana e disse que o PT catarinense seria a ponte que hoje não existe. “Parece que tem político que se elege e continua em campanha.” Ela citou os R$ 48,3 bilhões anunciados para Santa Catarina no lançamento do Novo PAC, em 2023. O balanço mais recente do programa mostra que o estado executou cerca de 90% dos investimentos previstos até 2026, o equivalente a R$ 16,3 bilhões de um total de R$ 18,1 bilhões.

Ao ser confrontada com o gargalo das rodovias federais, Sônia respondeu que o problema não é “isto ou aquilo”, já que há trechos ruins em BRs e em rodovias estaduais, e apontou como exemplo concreto o campus do Instituto Federal de Santa Catarina em implantação em Tijucas, ao lado da sede do Jornal Razão. É o 23º campus da instituição, anunciado em março de 2024 e com obras iniciadas no ano passado, com articulação do deputado federal Pedro Uczai (PT) e da deputada federal Ana Paula Lima (PT). Segundo a ex-reitora, a escolha do município seguiu critério técnico de vazio sociodemográfico. Os eixos definidos pela comissão de implantação são Ambiente e Saúde, Informação e Comunicação e Turismo, Hospitalidade e Lazer. “Imagine os ganhos pros jovens dessa comunidade de Tijucas e do entorno”, disse Marisa.

Sobre educação, o coletivo recusou o rótulo de oposição automática. “Todo investimento público na área de educação a gente precisa valorizar”, disse Marisa, que chegou a elogiar o programa estadual: “O Jorginho Mello, ao fazer isso, ele aplaude o ProUni.” A crítica, segundo ela, é ao destino do dinheiro público para entidades privadas sem compromisso com qualidade e ao que chamou de escândalo da universidade gratuita. O levantamento que expôs o problema é do Tribunal de Contas de Santa Catarina, que em junho do ano passado identificou 18.383 matrículas com indícios de irregularidade nos programas Universidade Gratuita e Fumdesc, com R$ 324 milhões em risco, e encaminhou os casos ao Ministério Público. A secretária estadual de Educação, Luciane Ceretta, reconheceu publicamente a necessidade de ajustes. Sônia acrescentou que o benefício não é novo: o artigo 170 da Constituição Estadual existe desde 1989 e o Uniedu foi instituído em 2020, ambos anteriores ao programa atual, que se financia com os mesmos recursos. “A questão é: como é que eu transformo uma coisa que já existe pra dizer que é minha?”

Região, oportunismo e o apelo às urnas

As cinco vêm da mesma faixa territorial, entre Balneário Camboriú, Barra Velha, Itajaí, Camboriú e Navegantes, e o coletivo foi questionado se o mandato serviria apenas à AMFRI. Sônia recorreu a um slogan que diz carregar há vinte anos, “pés na região e olhos no mundo”. Afirmou ter plena consciência de que o mandato é estadual e apontou que a região historicamente tem “um hiato de representatividade” no mapa catarinense. Marisa somou que a AMFRI reúne cerca de 590 mil votos e lembrou as próprias trajetórias, que passam pelo Oeste, pela Serra, por Joinville e pelo Sul do estado.

Provocadas sobre a candidatura de Carlos Bolsonaro (PL) ao Senado e o argumento de que senador precisa ser de Santa Catarina, Sônia disse que o critério não é o nascimento, mas o vínculo. “Quando é oportunismo, tem que ser questionado”, afirmou, propondo que o eleitor use como parâmetro as entregas de cada governo. Pelo campo democrático, disputam as duas vagas ao Senado Décio Lima (PT) e Afrânio Boppé (PSOL). No apelo final, diante do cenário de abstenção recorde apontado pelas pesquisas, a candidata olhou para a câmera. “A política do nós contra eles não beneficia ninguém”, disse, defendendo uma Santa Catarina “que respeite o povo indígena, quilombola, as mulheres, a população negra, os nordestinos que chegam aqui, os migrantes”. E resumiu a aposta do coletivo: “O voto de quem nos assiste é um voto que vale por cinco professoras.”

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