A rotina em Florianópolis parecia comum até que os passos de José Francisco Garcia Pessoa o levaram a cruzar a frente da Delegacia de Polícia de Pessoas Desaparecidas (DPPD). Era dia 1º de setembro. O letreiro da unidade policial acendeu no peito um sentimento sufocado por décadas: a esperança de reencontrar o sangue do seu sangue.
Aos 13 anos, uma dor dilacerante havia despedaçado sua infância na cidade de Lages com a morte prematura da mãe, logo após dar à luz o 14º filho. O destino espalhou os irmãos pelo mapa e José caminhou sozinho por Blumenau, Joinville, São Paulo e Paraná, até fincar raízes na Capital catarinense.
O homem que completaria 67 anos no dia 9 de setembro não imaginava que um simples pedido de socorro na recepção da delegacia desataria um nó de mais de seis décadas de distância e incertezas.
“Foi um presente de Deus encontrar minhas irmãs neste aniversário. Estou feliz da vida. Eu sentia falta delas, sonhava com elas e dizia que um dia iria encontrá-las. Mas, depois de tantos anos, eu não esperava encontrar tão rápido”, emociona-se José Francisco.

Uma investigação de apenas 48 horas
A comoção da equipe foi imediata. A auxiliar administrativa Adriana Ventura Silva realizou o primeiro acolhimento e repassou o caso para os investigadores. A Polícia Civil utilizou seus bancos de dados e cruzou informações com agilidade impressionante: em menos de 48 horas, o rastro da família foi descoberto.

Os telefones voltaram a tocar e, por uma semana inteira, lágrimas e risos preencheram as ligações diárias antes do grande momento presencial.
“Após coletarmos as informações, começamos os trabalhos de levantamento e pesquisa nos sistemas disponíveis da PCSC e conseguimos localizar seus familiares e agendar o encontro dele com as irmãs para hoje, justamente na data em que ele comemora 67 anos”, explica o delegado titular da DPPD, Abel Mantovani Bovi.

A verdade revelada
No dia do aniversário de José, duas das irmãs atravessaram o estado para o abraço sufocado pelo tempo. Jovelina Garcia Pessoa, de 60 anos, moradora de Balneário Camboriú, não via o irmão há mais de 60 anos e vivia sob o peso de uma dor equivocada: um tio de Lages havia afirmado que José tinha falecido.
“Foi muito bom saber. A gente tinha acabado de enterrar um dos meus irmãos e descobrir que o José estava vivo me deu um alívio. No meu caso, eu não o via há mais de 60 anos. É muito triste saber que um irmão morreu sem a gente conseguir se ver”, desabafa Jovelina.
Marta Garcia Pessoa, de 57 anos, vinda de Navegantes, carregava na memória de infância os detalhes físicos do irmão, lembrando-se até da ponta dos dois dedos que ele havia perdido em um acidente de trabalho no passado.
“Eu sempre quis conhecê-lo novamente, porque ele era um irmão de quem eu tinha uma boa lembrança. Estou muito feliz de poder passar o aniversário dele com ele”, revela Marta com os olhos marejados.
Reconstrução de um laço
A tarde de celebração guardava ainda um toque divino. A servidora Adriana, que acolheu o pedido inicial de José, também comemorava seus 57 anos de idade no mesmo dia, somando ainda 11 anos de serviço prestados à delegacia e o próprio aniversário de casamento.
Entre sorrisos e lágrimas compartilhadas na sala de recepção, a história que começou com a separação prematura de 14 irmãos teve seu capítulo mais bonito escrito no amor, provando que a saudade não envelhece.
“Foi uma tarde muito especial. Ajudar as pessoas é o que torna o nosso trabalho gratificante. Ainda mais hoje, quando completo 11 anos de serviço na unidade, além de ser meu aniversário e aniversário de casamento. Ver um encontro desses fez eu ganhar o meu dia”, celebra a servidora Adriana.















