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A janela do drive-thru se abriu, a atendente esticou o braço com a casquinha de sorvete e, de dentro do carro, o celular já estava gravando. Em vez de seguir viagem, a motorista passou os dedos na casquinha, levou o sorvete à boca com as mãos, riu e devolveu o que sobrou para a funcionária, que seguiu parada na janela, uniformizada, filmada sem ter sido avisada. A cena foi gravada em Blumenau (SC) e virou conteúdo de rede social.
Nas imagens, a mulher aparece dentro do veículo, à noite, enquanto a atendente permanece do outro lado do guichê de uma unidade da rede McDonald’s na cidade. A funcionária não tem como sair do enquadramento: é ela quem precisa entregar o pedido e o comprovante. Em nenhum momento ela é consultada sobre a gravação, e o rosto aparece identificável do começo ao fim.
A publicação foi ao ar no perfil da autora do vídeo com marcações da cidade, do estado e do estabelecimento, o que ajudou a espalhar o material entre moradores de Blumenau em poucas horas. O tom da postagem é de brincadeira. A reação de boa parte de quem viu foi outra.
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A revolta nos comentários
Nos comentários, o assunto virou a exposição de uma trabalhadora no expediente. “Que falta de respeito com quem está ali trabalhando por oito horas pra ganhar um salário ruim”, escreveu uma seguidora, que completou dizendo que o salário da atendente provavelmente não chega à metade do que a autora do vídeo gasta em salão de beleza. Outro seguidor foi mais curto: “foi nojento, isso, pra que esse tipo de conteúdo”.
Um dos comentários cobrou diretamente o ponto jurídico da história: “você está usando a imagem de uma funcionária sem a autorização dela e ainda zoando com isso”. A autora do vídeo respondeu às críticas mantendo a postura da publicação. “Vamos parar de mimimi, tudo é humilhação, tudo é isso aquilo”, escreveu, em resposta a um dos perfis que a criticaram.
Nota de repúdio na cidade
Enquanto o vídeo circulava, uma empresária de Blumenau gravou uma resposta e transformou o caso em nota pública de repúdio, dirigida não à autora do vídeo, mas a quem chega de fora para trabalhar na cidade. “Blumenau é uma cidade de todos”, disse. “Se você escolheu viver aqui, seja muito bem-vindo. Não permita que uma atitude isolada faça você acreditar que será tratado desta forma.”
“Nenhuma pessoa merece ser constrangida enquanto está trabalhando, independente da profissão, da origem, raça, cor ou condição financeira. Quando a humilhação vira entretenimento, corremos o risco de normalizar atitudes que machucam outras pessoas”.
A empresária também apontou o recorte social da cena, ao lembrar que esse tipo de gravação costuma ter sempre o mesmo tipo de alvo.
“Eu tenho certeza que essa pessoa não faz esse tipo de brincadeira com empresários. Ela não vai tirar onda da cara deles, porque eles não permitem que isso ocorra”, disse, ao classificar a atitude como falta de educação e desperdício deliberado de comida.
Além da crítica, ela ofereceu um gesto concreto à trabalhadora exposta: um dia de cuidados no estúdio de que é proprietária, com o compromisso de não divulgar imagem nem identidade da atendente. “Não vou expor ela, não vou pôr foto dela”, afirmou, ao pedir que a funcionária entre em contato. “Esta atitude infeliz não representa Blumenau em nenhum momento”, completou.
O que diz a lei sobre uso de imagem
O caso também expõe uma fronteira que costuma ser ignorada em vídeos de rede social. A imagem de uma pessoa é protegida pelo Código Civil brasileiro, e a divulgação sem autorização, quando expõe ou ridiculariza alguém, pode render pedido de reparação na Justiça, mesmo que a gravação tenha sido feita em ambiente aberto ao público.
Até a publicação desta reportagem, o vídeo original seguia no ar. A rede de fast-food e a funcionária exposta não se manifestaram publicamente sobre o caso.
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