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Não foi Andrei: prisão de Vorcaro em 2025 foi pedida por delegada e assinada por juiz de Brasília

Circula desde a manhã desta terça-feira (8) a versão de que André Mendonça teria afastado "o homem que prendeu Vorcaro". O registro do processo mostra outra coisa: a preventiva de novembro de 2025 foi pedida pela delegada Janaína Palazzo e assinada pelo juiz Ricardo Leite, e a segunda prisão, em março de 2026, foi decretada pelo próprio Mendonça contra a posição da PGR.

Os ministros André Mendonça e Alexandre de Moraes no plenário do Supremo Tribunal Federal
Reprodução/STF
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A decisão que afastou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, do cargo nesta terça-feira (8) fez surgir nas redes uma versão pronta: o ministro André Mendonça estaria punindo “o cara que prendeu Vorcaro”. A frase viralizou em poucas horas. O registro público do caso Master, porém, não sustenta nada disso.

A primeira prisão de Daniel Vorcaro aconteceu na noite de 17 de novembro de 2025, no Aeroporto Internacional de Guarulhos. Quem pediu a preventiva do banqueiro e de outros dirigentes do Banco Master foi a delegada Janaína Palazzo, chefe da Delegacia de Inquéritos Especiais da Superintendência da PF em Brasília, que conduzia o inquérito desde o início. Foi ela quem apontou à Justiça Federal as irregularidades na venda de carteiras de crédito consignado do Master ao BRB, negócio de R$ 12,2 bilhões.

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A ordem de prisão foi assinada às 15h29 daquele mesmo 17 de novembro pelo juiz Ricardo Augusto Soares Leite, da 10ª Vara Federal Criminal de Brasília. Vorcaro passou doze dias preso e foi solto em 29 de novembro, por habeas corpus concedido pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região. Dias depois, a investigação subiu ao Supremo.

O diretor-geral da Polícia Federal não pede prisão preventiva nem assina mandado. O cargo é administrativo e de comando institucional; representação por cautelar é atribuição do delegado que preside o inquérito, e a decisão é do juiz. O que Andrei Rodrigues fez, à época, foi manter Janaína Palazzo à frente do caso.

Os nomes citados na versão aparecem do outro lado

Há um detalhe que a versão viral inverte. Tanto a delegada quanto o juiz aparecem nas mensagens atribuídas a Vorcaro que Mendonça tirou do sigilo em 1º de setembro — mas como alvos de um pedido de blindagem, não como aliados. Dias antes de ser preso, o banqueiro escreveu ao contato identificado como Alexandre de Moraes citando “aquele mesmo juiz Ricardo”.

No mesmo bloco de mensagens, Vorcaro afirma ter recebido informação confidencial de que a cúpula do Banco Central estaria sendo pressionada pela PF e pelo Ministério Público Federal a agir contra o Master. E faz um apelo: “É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem”. Dez minutos depois, envia uma lista com cinco nomes da PF e três do MPF. Entre os identificáveis estão a própria Janaína Palazzo e o diretor de Investigação e Combate ao Crime Organizado da corporação, Dennis Cali.

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A segunda prisão foi decretada por Mendonça

Vorcaro voltou a ser preso em 4 de março de 2026, na terceira fase da Operação Compliance Zero. Dessa vez, quem determinou a prisão foi o próprio André Mendonça, já como relator do caso no Supremo — e contra a posição da Procuradoria-Geral da República. Paulo Gonet havia pedido mais prazo para analisar o caso e sustentado que não havia urgência para medidas cautelares.

Na decisão, Mendonça afirmou que os elementos reunidos pela PF revelavam indícios consistentes de crimes graves, risco concreto às investigações e possível ameaça a vítimas, inclusive jornalistas. “A liberdade dos investigados compromete, assim, de modo direto, a efetividade da investigação e a confiança social na Justiça penal”, escreveu.

Mendonça assumiu a relatoria do caso Master depois que Dias Toffoli deixou o posto, em 12 de fevereiro de 2026, na esteira das revelações sobre repasses de fundos ligados a Vorcaro ao resort Tayayá, no Paraná, empreendimento do qual familiares do ministro haviam sido sócios. Em nota conjunta, os ministros afirmaram não haver causa de suspeição, e o processo foi redistribuído por sorteio.

Em 25 de junho, Mendonça negou o pedido da defesa para trocar a preventiva por prisão domiciliar e determinou a transferência do banqueiro para o 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha. Ou seja: o ministro apontado como quem estaria “castigando quem prendeu Vorcaro” é o mesmo que mandou prendê-lo pela segunda vez e que manteve a prisão.

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O afastamento de hoje é por outro fato

A decisão desta terça não trata de nenhuma das duas prisões. Ela mira seis relatórios de inteligência produzidos pela PF entre 3 e 31 de agosto de 2026 e encaminhados a Alexandre de Moraes, que analisavam decisões judiciais, a atuação da Advocacia-Geral da União e o trabalho de delegados da própria corporação. Mendonça afirma ter sido submetido a monitoramento sistemático por mais de 30 dias e comparou o quadro à distopia “1984”, de George Orwell. São episódios separados por dez meses.

Para sustentar a medida, o ministro recorreu a um precedente do próprio Supremo: o julgamento da ADI 6.529, relatada por Cármen Lúcia e concluído pelo Plenário em outubro de 2021. Naquele caso, a Corte assentou que a troca de informações entre órgãos públicos é legítima, mas não pode virar subterfúgio para atender interesse particular de quem tem acesso aos dados.

A decisão reproduz também os votos de dois ministros que hoje estão do outro lado da crise. Alexandre de Moraes afirmou à época que nenhum órgão pode bisbilhotar, fichar ou classificar cidadãos e enviar esse material a terceiros, e que relatório de inteligência serve para orientar a segurança pública, não para punir. Edson Fachin foi na mesma linha: “A administração pública não tem, nem pode ter, o pretenso direito de listar inimigos do regime”.

Andrei Rodrigues e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa, não se manifestaram publicamente. Na Academia Nacional de Polícia, o diretor-executivo William Marcel Murad, que assume o comando interino, disse que a corporação não se deixará abalar por ataques e reafirmou confiança na direção-geral. A Segunda Turma do STF formou maioria para manter os afastamentos, Gilmar Mendes pediu vista e a Advocacia-Geral da União informou que vai recorrer.

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