O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (4), durante visita às obras do Cinturão das Águas do Ceará (CAC), no Cariri, que parte das obras hídricas do Nordeste deveria ter sido concluída no governo de Dilma Rousseff. “Essas obras aqui, muitas delas eram para ter acabado ainda no governo da Dilma. Sabe? Não acabou”, disse.
Na sequência, o presidente citou a ferrovia Transnordestina: “era para ter acabado em 2012, não acabou, pois ela vai acabar no nosso governo”. Lula visitou o lote 3 do canal acompanhado dos ministros da Casa Civil, Miriam Belchior, da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes, e da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães.
A obra foi autorizada pela própria Dilma
A afirmação sobre o Cinturão das Águas confere com os registros oficiais. A ordem de serviço que autorizou o início das obras do Trecho I do CAC foi assinada em 18 de julho de 2013, no Centro de Eventos do Ceará, pela então presidente Dilma Rousseff, pelo governador Cid Gomes e pelo então ministro da Integração Nacional, Fernando Bezerra. A obra entrou no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).
Na ocasião, o investimento previsto era de R$ 1,5 bilhão — R$ 1,1 bilhão da União e R$ 393,5 milhões de contrapartida do Ceará — e o trecho anunciado tinha 158 quilômetros. A previsão oficial divulgada à época era de que a obra fosse concluída até o fim de 2015, dentro do mandato da própria presidente que assinou a autorização.
A obra não foi entregue no prazo. Segundo levantamento do jornal O Povo, o CAC ficou sem recursos, parou totalmente em 2015 e só foi retomado no fim de 2016. O primeiro trecho seria inaugurado apenas em fevereiro de 2022, pelo então governador Camilo Santana. O traçado também foi reduzido, dos 158 quilômetros anunciados em 2013 para os 145,3 quilômetros informados hoje pela Secretaria dos Recursos Hídricos do Ceará e pelo Ministério da Integração.
Prazo foi remarcado três vezes em um ano
O cronograma do Cinturão foi adiado sucessivamente nos últimos doze meses, todos os adiamentos já no atual mandato de Lula:
- Setembro de 2025 — 83% de execução, com conclusão prevista para dezembro de 2025, segundo a Agência Gov e o MIDR;
- Dezembro de 2025 — 91%, com entrega remarcada para junho de 2026, segundo o Governo do Ceará;
- Julho de 2026 — 92%, com entrega remarcada para 2027, segundo o MIDR;
- Setembro de 2026 — 93,2%, com os lotes 3 e 4 previstos para março de 2027.
Os lotes 1, 2 e 5 estão concluídos. O lote 3 está em cerca de 91% de execução e o lote 4 seguia em obras na última vistoria. O custo total passou dos R$ 1,5 bilhão previstos em 2013 para cerca de R$ 2,27 bilhões. Quando concluído, o sistema deve atender 24 municípios e beneficiar diretamente cerca de 561 mil pessoas, com impacto indireto estimado em 5 milhões de cearenses, incluindo a Região Metropolitana de Fortaleza.
A data da Transnordestina não confere
No caso da ferrovia, a data citada pelo presidente está incorreta. A Nova Transnordestina foi lançada em 6 de junho de 2006, em Missão Velha, no Cariri cearense, pelo próprio Lula, no último ano de seu primeiro mandato. O orçamento anunciado era de R$ 4,5 bilhões e a entrega estava prometida para 2010 — e não 2012 —, ainda dentro do segundo mandato dele.
Houve, porém, prazos revisados que caíram no governo Dilma. Em 2011, a então presidente afirmou que a ferrovia ficaria pronta em 2013. Em dezembro de 2012, reportagem do Estado de S. Paulo apontava que a operação estava prevista para 30 de dezembro de 2014, penúltimo dia do primeiro mandato de Dilma, mas que a obra não sairia antes de 2015. Na projeção do PAC 2, ainda em 2012, a data já havia sido empurrada para janeiro de 2017, com orçamento de R$ 7,5 bilhões.
Vinte anos após o lançamento, a primeira fase da ferrovia está em torno de 80% de execução, o investimento total subiu para R$ 14,9 bilhões e a previsão de conclusão é 2027, com a segunda fase estimada para 2028. O trecho Salgueiro–Suape, em Pernambuco, foi devolvido pela concessionária ao governo federal no fim de 2022 e segue parado.
O que diz o outro lado
Em ocasiões anteriores, Lula atribuiu os atrasos da Transnordestina a fatores externos ao PT. Em abril de 2024, em Iguatu (CE), o presidente citou entraves ambientais, dificuldades de licenciamento e desapropriação e falta de recursos nos primeiros anos, e afirmou que “passaram 2013, 2014 e em 2016 veio o golpe contra a presidenta Dilma”, em referência ao impeachment e aos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, período em que, segundo ele, o projeto original chegou a ser alterado. No caso do Cinturão, a paralisação de 2015 e 2016 também atravessa o fim do segundo mandato de Dilma e o início do governo Temer. Procurado pela Gazeta do Povo em março deste ano sobre quem responde pelas quase duas décadas de atraso da ferrovia, o Ministério dos Transportes não respondeu.
Outros pontos do discurso
No mesmo evento, ao falar da Ferrovia Norte-Sul, Lula afirmou que os governos de José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso construíram 220 quilômetros e que “eu e a Dilma construímos o restante que faltava para fazer chegar até São Paulo, até o Porto de Santos”, mais de mil quilômetros, segundo o presidente.
Lula também relembrou a infância no semiárido, quando buscava água de açude para a família, e perguntou à plateia qual presidente mais construiu universidades e institutos federais no Nordeste. Sobre o calendário eleitoral, afirmou: “Eu não estou aqui como candidato, eu estou aqui como presidente da República”. Em seguida, disse que assumiria a condição de candidato ao fim do ato, em passeata prevista para Juazeiro do Norte.
O Cinturão das Águas do Ceará é executado pelo Governo do Estado, com recursos federais do Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, e capta água do Eixo Norte do Projeto de Integração do Rio São Francisco a partir da barragem de Jati, com vazão projetada de 30 metros cúbicos por segundo.























