A máquina que aparece em “Os Dois Hemisférios de Lucca”, filme da Netflix que foi um dos mais vistos do mundo em 2025, existe de verdade. Chama-se Cytotron, é aplicada no México e, no dia 25 de outubro, um menino de Balneário Camboriú embarca para se submeter ao tratamento. Segundo a família, menos de 20 brasileiros passaram pelo procedimento até agora.
Benjamin tem 14 anos. Em novembro de 2020, ele foi diagnosticado com FIRES (sigla em inglês para síndrome epiléptica relacionada a infecção febril), uma condição rara em que uma febre comum evolui para crises convulsivas contínuas e resistentes a medicação. Ele passou 26 dias em coma. Sobreviveu, mas ficou com sequelas: perdeu a fala, a leitura e a escrita.
A síndrome que ninguém esperava
A FIRES é uma das formas mais agressivas de epilepsia conhecidas pela medicina. Ela atinge crianças e adolescentes até então saudáveis, geralmente em idade escolar. Dias depois de uma infecção febril banal, o paciente começa a convulsionar e não para — entra no chamado estado de mal epiléptico super-refratário, que pode durar semanas e não responde aos medicamentos convencionais.
Não há cura conhecida e o manejo ideal ainda é objeto de estudo. Entre os sobreviventes, a maioria fica com sequelas neurológicas permanentes, que variam de dificuldades de aprendizado a deficiência intelectual grave. Foi o caso de Benjamin, que saiu do coma sem a fala e sem as habilidades de leitura e escrita que tinha antes.
O filme que mudou a rota da família
Cinco anos depois do diagnóstico, a família encontrou uma possibilidade onde não esperava: num filme.
“Os Dois Hemisférios de Lucca” estreou na Netflix em janeiro de 2025 e rapidamente se tornou um dos títulos mais assistidos do mundo na plataforma. Dirigido por Mariana Chenillo e estrelado por Bárbara Mori, o longa é baseado no livro autobiográfico da jornalista argentina Bárbara Anderson.
Na história real, Anderson atravessa o mundo até Bangalore, na Índia, para submeter o filho Lucca — que tem paralisia cerebral causada por falta de oxigênio no parto — a um tratamento que nenhum médico garantia. Depois da experiência, a própria família levou a tecnologia para a América Latina, montando um centro no México.
Foi assistindo a esse filme que os pais de Benjamin souberam que o aparelho existia fora da tela.
Como funciona o Cytotron
O Cytotron foi desenvolvido na Índia pelo cientista Rajah Vijay Kumar e começou a ser usado comercialmente em 2006. O equipamento emite ondas de radiofrequência direcionadas, associadas a campos magnéticos, com a proposta de estimular processos de regeneração de tecido.
Aplicado ao cérebro, o objetivo declarado é induzir a formação de novas conexões neurais em áreas danificadas — regiões onde, na prática, a função havia sido perdida.
O protocolo é padronizado: 28 dias de tratamento, com uma sessão diária dentro do aparelho. O procedimento é não invasivo e indolor, e utiliza radiação não ionizante. O tratamento ainda é considerado experimental.
O que a família espera
A expectativa é de ganhos em duas frentes: cognitiva e motora. Os pais esperam que Benjamin recupere parte da fala, ganhe mais domínio sobre os próprios movimentos e pare de ter as crises convulsivas que o acompanham desde 2020.
O sonho, dizem, é simples: ouvir o filho chamar de pai e de mãe outra vez.
A viagem
O embarque está marcado para o dia 25 de outubro. Serão 28 dias no México, longe de casa, com sessões diárias.
Ao entrar na máquina, Benjamin passa a integrar um grupo pequeno: segundo a família, menos de 20 brasileiros fizeram o tratamento até hoje.















