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“O hospital agora é seu”: meses após discurso em Camboriú, Prefeitura tenta “lavar as mãos” após morte de bebê

Hospital foi comprado pelo Município por R$ 9,6 milhões, recebe quase R$ 3 milhões mensais para funcionar e está sob fiscalização da Secretaria de Saúde. Após a morte de um bebê de 45 dias, porém, a nota oficial concentrou a responsabilidade na entidade que administra a unidade

“O hospital agora é seu”: meses após discurso em Camboriú, Prefeitura tenta “lavar as mãos” após morte de bebê
Foto: Reprodução
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Quando o Hospital Cirúrgico Camboriú deixou de correr risco de leilão e passou oficialmente ao patrimônio público, o prefeito Leonel Pavan não deixou dúvidas sobre quem havia assumido o controle.

“O hospital agora é seu”, afirmou Pavan ao se dirigir aos moradores de Camboriú.

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Naquele momento, o hospital era apresentado como uma conquista da Prefeitura. O Município havia comprado o complexo por R$ 9.650.120,19 e o prefeito prometia investimentos, melhoria no atendimento e controle rigoroso sobre a qualidade dos serviços.

ASSISTA AO VÍDEO

Meses depois, um bebê de apenas 45 dias entrou na unidade com uma reação alérgica após ingerir fórmula infantil. Horas mais tarde, morreu no Hospital Pequeno Anjo, em Itajaí.

Depois da tragédia, o discurso mudou.

Na extensa nota publicada sobre o caso, a Secretaria Municipal de Saúde fez questão de destacar que o HCC está “sob gerenciamento e responsabilidade assistencial” da Associação Hospitalar do Brasil (AHBR), entidade responsável pela administração da unidade e pela gestão das equipes.

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A informação não é falsa. A AHBR realmente administra o hospital.

O problema é aquilo que a nota deixa em segundo plano: o hospital pertence à Prefeitura, funciona com recursos públicos municipais, está submetido à fiscalização da Secretaria de Saúde e integra uma parceria cujo gestor foi formalmente designado pelo próprio Município.

Quando havia uma conquista para anunciar, “o hospital agora é seu”. Quando surgiu uma morte cercada de questionamentos, a primeira preocupação da nota pareceu ser explicar que outra entidade administrava a unidade.

Entenda o caso

Prontuário aponta quantidade superior à prescrita

O bebê morreu na noite de quarta-feira (12), depois de ser atendido inicialmente no Hospital Cirúrgico Camboriú e transferido pelo SAMU para Itajaí.

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A criança havia sido levada ao HCC depois de apresentar uma reação alérgica. Conforme o relato da mãe, Fernanda Gabriele, o médico prescreveu adrenalina e dexametasona.

Fernanda afirma que questionou o tratamento porque o filho tinha apenas um mês e 17 dias. Segundo ela, o médico garantiu que seria utilizada uma dosagem menor e que o bebê suportaria a medicação.

Depois da aplicação, ainda conforme a mãe, a criança começou a chorar intensamente, ficou roxa, apresentou tremores, tentou vomitar e teve a frequência cardíaca elevada para mais de 200 batimentos por minuto.

O próprio Município confirmou o ponto mais grave da denúncia.

Segundo a nota da Secretaria de Saúde, os registros do prontuário apontam que foi administrada uma quantidade de medicamentos superior àquela efetivamente prescrita.

A Prefeitura ressalta, corretamente, que ainda não existe conclusão técnica estabelecendo que a quantidade administrada tenha causado a morte. Essa relação depende da análise integral dos prontuários, da evolução clínica, da transferência e do atendimento realizado em Itajaí.

O que já está confirmado, entretanto, é que a medicação não foi administrada exatamente na quantidade prescrita durante um atendimento realizado dentro de um hospital público municipal.

Hospital não pertence à AHBR

A AHBR não é proprietária do Hospital Cirúrgico Camboriú.

O complexo pertence ao Município desde julho de 2025, quando a Prefeitura realizou o pagamento de R$ 9,6 milhões por meio de depósito judicial.

Na ocasião, Pavan afirmou que a aquisição permitiria investimentos diretos, uma gestão mais eficiente e um “controle rigoroso da qualidade dos serviços”.

A estrutura é pública. Os recursos são públicos. A escolha da entidade administradora foi feita pela gestão municipal. A fiscalização da parceria também pertence ao Município.

O Termo de Colaboração Emergencial nº 01/2026, assinado entre a Prefeitura e a AHBR, estabelece expressamente que compete à Administração Pública acompanhar, monitorar e fiscalizar a execução do contrato.

O documento determina ainda que a Prefeitura analise as prestações de contas, acompanhe as metas assistenciais e possa realizar auditorias, visitas técnicas e análises documentais.

Também foi designado um gestor municipal para a parceria, além de uma comissão de monitoramento e avaliação.

A AHBR possui responsabilidade direta sobre a organização dos serviços, contratação das equipes e execução assistencial. Isso, porém, não transforma a Prefeitura numa observadora distante do que acontece dentro do hospital.

Delegar a operação não significa eliminar a responsabilidade institucional de fiscalizar aquilo que foi delegado.

Prefeitura sabia que antiga gestora sairia

Em janeiro, Pavan anunciou que o contrato com a antiga organização responsável pelo HCC terminaria em 23 de fevereiro.

“E nós vamos assumir o hospital. O Município vai assumir o hospital para preparar uma licitação de uma nova empresa”, declarou.

Os documentos oficiais contam uma história diferente daquela transmitida pelo discurso.

A atual gestora, AHBR, assinou o contrato emergencial em 26 de fevereiro e assumiu integralmente a operação à zero hora do dia 27. Não foi localizada, nos documentos consultados, uma gestão direta e duradoura da Prefeitura entre as duas entidades.

Mais grave: uma prestação de contas publicada pela própria Prefeitura admite que a AHBR entrou no hospital “sem período de transição”.

No mesmo texto, a administração municipal descreveu o episódio como uma “transição sem planejamento prévio”.

A saída da antiga gestora, no entanto, não foi uma surpresa. Em janeiro, a própria Secretaria de Saúde já informava publicamente que o contrato terminaria em 23 de fevereiro.

Se a data era conhecida, por que a nova entidade precisou assumir um hospital inteiro sem transição e sem planejamento prévio?

Contrato emergencial e quase R$ 3 milhões por mês

O contrato da AHBR prevê repasse mensal de R$ 2.980.042,27 e vigência entre 27 de fevereiro e 26 de agosto de 2026.

Trata-se de uma parceria emergencial, com duração de até 180 dias, criada enquanto a Prefeitura preparava uma seleção regular para definir quem administraria o hospital por um período mais longo.

O próprio termo afirma que a contratação emergencial não poderia ser utilizada reiteradamente de forma a perder seu caráter excepcional.

Mesmo assim, o chamamento definitivo só foi lançado em junho, quase quatro meses depois da entrada da AHBR.

A seleção poderia resultar num contrato inicialmente válido por um ano, mas prorrogável sucessivamente por até dez anos.

A AHBR terminou classificada em primeiro lugar. Outra entidade, porém, apresentou recurso e questionou o processo.

O que aconteceu depois expõe um contexto que não apareceu na nota divulgada após a morte do bebê.

Seleção foi revogada dias antes da morte

No dia 5 de agosto, apenas sete dias antes do atendimento da criança, o secretário municipal de Saúde assinou a revogação integral do Chamamento Público nº 003/2026.

A própria comissão municipal reconheceu problemas no procedimento.

Entre as falhas apontadas estavam horários contraditórios para o recebimento das propostas, ausência de critérios graduados para avaliar o quadro de funcionários, insuficiência na fundamentação de uma nota decisiva e falta de uma comparação técnica suficientemente auditável entre as participantes.

O parecer também mencionou riscos jurídicos, econômicos e assistenciais decorrentes da manutenção de uma seleção considerada frágil.

A Prefeitura determinou a elaboração de um novo chamamento e a adoção de medidas para garantir o funcionamento do hospital até a conclusão de outro procedimento.

Na prática, quando o bebê deu entrada no HCC, a seleção definitiva havia acabado de ser revogada e o contrato emergencial da AHBR estava a menos de duas semanas do fim.

Até agora, não existe qualquer elemento indicando que os problemas do chamamento tenham relação com a medicação aplicada ou com a morte da criança.

O contexto, porém, revela que o principal equipamento hospitalar do Município atravessava mais um momento de instabilidade administrativa quando ocorreu a tragédia.

Maternidade prometida virou estudo

No mesmo discurso em que anunciou que o Município assumiria o hospital, Pavan prometeu que a nova seleção exigiria uma maternidade.

“Na licitação que vai ter próxima, vai se exigir a maternidade para ter filhos que nascem em Camboriú”, declarou.

O edital publicado pela Prefeitura não estabelecia prazo para a abertura de uma maternidade.

O documento exigia da futura gestora apenas o planejamento de um projeto assistencial e estudos técnicos e de viabilidade para uma possível implantação.

O próprio edital classificava essas obrigações como programáticas, estruturantes e de execução gradual, condicionadas à disponibilidade orçamentária.

A promessa de uma maternidade, portanto, não se transformou numa obrigação concreta de inaugurar o serviço. E o chamamento que continha esses estudos acabou totalmente revogado.

Problemas eram conhecidos desde janeiro

A crise administrativa do hospital também não começou com a atual gestora.

Em 14 de janeiro, médicos e representantes do Sindicato dos Médicos de Santa Catarina se reuniram com a Secretaria Municipal de Saúde.

Na ocasião, foram relatadas falta de materiais de hotelaria, falhas na alimentação das equipes, problemas de segurança, precarização do trabalho da enfermagem e riscos à segurança assistencial de médicos e pacientes.

A Prefeitura informou que havia bloqueado repasses à antiga gestora, a Sociedade Beneficente São José de Herculândia, devido a inconsistências na prestação de contas.

O Ministério Público de Santa Catarina também instaurou procedimentos para apurar possíveis irregularidades relacionadas à antiga administração do HCC, incluindo falta de pagamentos e insumos hospitalares, possível desvio de finalidade na gestão de recursos humanos e eventual irregularidade na contratação da entidade.

Esses fatos envolvem a gestora anterior e não demonstram irregularidade da atual AHBR. Também não estabelecem qualquer ligação com a morte do bebê.

Eles mostram, contudo, que a Prefeitura já lidava havia meses com problemas administrativos e assistenciais dentro do hospital que havia apresentado como uma grande conquista de sua gestão.

Mãe afirma que não recebeu amparo

Fernanda Gabriele afirma que, além de não receber explicações claras enquanto o filho piorava, não teve amparo da Prefeitura nem da Secretaria Municipal de Saúde.

“Não tive amparo de ninguém. Nem da Secretaria de Saúde, nem da Prefeitura, de ninguém”, declarou em entrevista ao Jornal Razão.

Capa do vídeo do YouTube

A AHBR contesta essa versão. A entidade sustenta que a família recebeu acolhimento da Assistência Social, Psicologia, coordenações médica e de enfermagem e da gerência do hospital.

São versões completamente diferentes.

A mãe diz que pediu ajuda e respostas enquanto via o filho sofrer. A instituição afirma que ofereceu acolhimento e os esclarecimentos possíveis.

Essa divergência também precisa ser esclarecida por meio dos registros de atendimento, horários, nomes dos profissionais e documentos produzidos no hospital.

Diretor desconhecia informação divulgada pela Prefeitura

Outra contradição apareceu durante entrevista concedida ao Jornal Razão pelo diretor técnico do HCC, médico Alexandre Tolentino.

Questionado sobre a informação da Prefeitura de que teria sido administrada quantidade superior à prescrita, Tolentino afirmou que ainda não tinha conhecimento desse dado.

Ele considerou precoce qualquer conclusão sobre a dosagem e defendeu que a análise fosse realizada pelos conselhos profissionais e demais órgãos competentes.

Ao mesmo tempo, confirmou o afastamento cautelar do médico plantonista e da equipe envolvida, além da abertura de sindicância interna e processo administrativo.

Capa do vídeo do YouTube

A situação levanta outra pergunta: como a Secretaria Municipal de Saúde divulgou publicamente uma informação baseada no prontuário enquanto o próprio diretor técnico do hospital dizia desconhecê-la?

Quando era conquista, era do Município

A Prefeitura não pode ser acusada, neste momento, de ter causado a morte da criança. Não existe conclusão médica, pericial ou administrativa que permita essa afirmação.

A AHBR possui responsabilidade assistencial direta sobre o atendimento e deverá responder pelas condutas de seus profissionais, pelos protocolos adotados e pelo funcionamento da unidade.

Mas a Prefeitura também não pode desaparecer da história.

Foi o Município que comprou o hospital. Foi a gestão Pavan que escolheu o modelo de terceirização. É a Prefeitura que repassa quase R$ 3 milhões por mês. É a Secretaria de Saúde que deve acompanhar, monitorar, fiscalizar, auditar e cobrar o cumprimento das metas e dos protocolos.

Quando o hospital foi adquirido, Pavan disse aos moradores: “Agora é seu”.

Depois que um bebê morreu e o prontuário revelou quantidade de medicamento superior à prescrita, a nota oficial colocou a AHBR no centro da responsabilidade.

A pergunta que permanece é simples: se o hospital era da Prefeitura na hora de comemorar, por que parece deixar de ser quando chega o momento de responder?

Fernanda não quer discursos, disputas administrativas ou tentativas de transferência de responsabilidade.

Ela entrou no hospital municipal com o filho vivo e saiu sem o único bebê nos braços.

“Eu quero justiça. Eu exijo respostas”, declarou.

Agora, as respostas precisam vir da profissional que administrou a medicação, do médico que prescreveu, da direção do hospital, da AHBR e também da Prefeitura que comprou, contratou e assumiu o dever de fiscalizar o HCC.

Leia também: “Receba meu anjinho”: sob forte comoção, bebê que morreu em hospital de Camboriú é enterrado

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