Uma denúncia de roubo à mão armada mobilizou seis guarnições da Polícia Militar em Blumenau, no Vale do Itajaí, na tarde desta segunda-feira (7), levou a buscas em alta velocidade por vários bairros e terminou com um policial militar ferido em acidente de moto. Uma hora e meia depois do chamado, a corporação constatou que o roubo nunca aconteceu: o celular que motivou toda a operação estava esquecido dentro do próprio veículo de aplicativo.
O chamado entrou no sistema de emergência às 12h35. Do outro lado da linha, um homem de 25 anos, contador, morador do bairro Água Verde e natural de Belém, no Pará, relatou que tinha pedido uma corrida por aplicativo para voltar do shopping até sua residência. Segundo o relato dele, ao chegar à Avenida Beira Rio, o motorista teria olhado para trás, levado a mão à cintura como se estivesse armado e exigido a entrega do aparelho celular. Ainda conforme a versão apresentada por telefone, teriam sido levados o telefone e a carteira.
Ele disse que entregou o aparelho, desceu do carro, seguiu até em casa e de lá acionou a Polícia Militar. Informou que acompanhava a localização do celular em tempo real e passou às guarnições o rastreamento minuto a minuto, além da placa, da marca, do modelo e da cor do veículo. Indicou o cruzamento por onde o carro estaria passando naquele instante e a direção que teria tomado, rumo ao bairro Itoupavazinha.
Com uma denúncia de roubo com emprego de arma de fogo e a localização atualizada em tempo real, a PM tratou o caso como o que ele aparentava ser: uma das ocorrências de maior risco da rotina policial. A primeira viatura foi empenhada um minuto depois do chamado. Em menos de vinte minutos, seis guarnições estavam na busca, entre viaturas, motocicleta e equipes de patrulhamento tático. Às 12h48, o atendimento chegou a ser compartilhado com a área de despacho de Pomerode, cidade vizinha, porque o rastreio apontava deslocamento naquela direção.
Foi no meio dessa corrida contra o relógio que um policial militar da ROCAM se envolveu em um acidente de trânsito. A motocicleta policial ficou danificada e o militar sofreu diversas lesões em razão do sinistro. O relato oficial registra ainda que uma das viaturas empenhadas passou acima da velocidade permitida em várias lombadas eletrônicas de Pomerode durante o deslocamento.
O veículo apontado como usado no assalto foi localizado e abordado. Ao ser questionado, o motorista, de 56 anos, autônomo, natural e morador de Blumenau, negou o crime por completo. Disse que estava trabalhando normalmente pelo aplicativo, que não tinha visto nenhum aparelho celular em sua posse e que havia deixado o passageiro em frente ao prédio onde ele mora, e não na Avenida Beira Rio, como fora informado à polícia.
Diante da contradição entre as duas versões, os policiais fizeram diligências ali mesmo. O celular apareceu: um Samsung Galaxy S22 Ultra, esquecido no interior do carro de aplicativo depois que o passageiro desceu ao fim da corrida. O motorista explicou que não tinha percebido o aparelho porque seguiu dirigindo e fazendo outras corridas. O telefone foi devolvido ao próprio comunicante pelo comandante do policiamento.
A checagem dos antecedentes do homem que acionou a polícia reforçou a leitura da guarnição. Ele figura em dois boletins de ocorrência como suspeito de estelionato, em outro como autor de furto e em mais um relacionado ao crime de falsidade ideológica, também na condição de suspeito.
Com o aparelho encontrado dentro do veículo e a versão do motorista confirmada pelas diligências, a Polícia Militar concluiu que não houve roubo. A ocorrência, aberta como roubo, foi encerrada às 14h04 com outra classificação: comunicação falsa de crime. Um Termo Circunstanciado foi lavrado contra o homem de 25 anos, que permaneceu no local e não foi preso.
Ele já tem data marcada para responder pelo caso. A audiência de transação penal está agendada para o dia 14 de setembro, às 15h, na Comarca de Blumenau.
A falsa comunicação de crime está prevista no artigo 340 do Código Penal e prevê detenção de um a seis meses, ou multa, o que faz com que o caso siga pelo rito dos juizados especiais, sem prisão. Um policial militar que participou da ocorrência desabafou em uma rede social sobre o desfecho, lembrou que um colega quase se machucou seriamente no deslocamento e escreveu que “existe um crime chamado ‘falsa comunicação’, mas a pena é irrisória perto do mal que a atitude desse idiota poderia ter gerado”.
Na conta final, o episódio custou um motorista de aplicativo abordado como suspeito de roubo à mão armada, uma motocicleta oficial danificada, um policial ferido, viaturas em deslocamento de emergência acima da velocidade e seis guarnições tiradas de outras ocorrências reais por uma hora e meia. O motorista foi liberado sem qualquer acusação, e o Termo Circunstanciado segue agora para a Justiça.















