Brendon Lucas Ximenes tinha 23 anos. Estudava Direito, era natural de Dourados, no Mato Grosso do Sul, e havia chegado a Santa Catarina cerca de um mês antes, para trabalhar em Itapema. No dia 22 de agosto, um sábado, saiu de casa para cortar o cabelo. Foi visto pela última vez às 18h, no bairro Sertãozinho. Às 18h30, enviou a última mensagem à família. Depois, silêncio.
O carro apareceu abandonado no bairro Alto São Bento. O celular, quebrado, às margens da BR-101. Por quatro dias, familiares percorreram ruas, casas e trilhas de morro. Até que uma denúncia levou a Agência de Inteligência do 31º Batalhão da Polícia Militar ao ponto mais alto do bairro. Foi ali, em uma cova rasa aberta no meio da mata, que o corpo de Brendon foi encontrado na tarde de quarta-feira (26).
A equipe do Jornal Razão refez esse caminho. Onde a rua termina, começa a trilha. Onde a trilha termina, começa a mata. E no fim da mata, numa clareira de terra batida, o lugar onde o estudante estava enterrado. A marca escura no chão ainda estava lá.
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Onde fica esse lugar
Desde que o caso ganhou o estado, uma pergunta se repetiu: que morro é esse? Ele fica em Itapema. A mesma Itapema que, pelo índice FipeZAP de junho, passou a ter o metro quadrado residencial mais caro do Brasil, à frente de Balneário Camboriú.
Os moradores do morro fazem uma correção nesse ranking. Segundo eles, o levantamento vale da BR-101 para o lado da praia. Da BR-101 para o lado da mata, onde o bairro sobe a encosta, a cidade é outra. Foi essa cidade que a morte de Brendon Lucas escancarou. Um problema que não começou agora e que só cresce em Itapema.
A versão que chegou ao vereador
Quem subiu o morro com a reportagem foi o vereador Saulo Ramos, presidente da Comissão de Segurança Pública da Câmara de Itapema. Segundo ele, o ponto onde o corpo foi encontrado é usado pelo tráfico como posição de vigia: do alto, é possível ver a viatura chegando e avisar quem vende na parte baixa do bairro.
Foi dele que veio a informação nova sobre a morte. Moradores que não quiseram se identificar contaram ao vereador que Brendon teria subido o morro para comprar droga, teria sido confrontado e teria tido o celular vasculhado. Nas fotos do aparelho, haveria uma imagem dele com um fuzil, possivelmente da época em que teria servido ao Exército, e outras em que fazia o sinal de “três”, gesto usado por quem se identifica com o PCC, facção rival da que, segundo a polícia, atua na região.
Ele teria sido assassinado porque identificaram que seria de uma facção rival, o que não era verdade. O rapaz não pertencia a facção, mas eles fazem isso mesmo sabendo, como forma de marcar território
A Polícia Civil não confirmou essa versão. Não divulgou causa da morte, motivação nem suspeitos. Durante as buscas, a família gravou um apelo público: “Ele é trabalhador. Ele não é bandido. A gente só quer ele de volta.” Cabe à Polícia Científica determinar como e quando Brendon morreu. O corpo será levado para Dourados.
A encosta que virou bairro
A jornalista Brunela Maria, do Somos SC Notícias, nasceu e cresceu em Itapema. Em 2023, fez uma reportagem para um veículo de comunicação da região exatamente no ponto onde a equipe do Jornal Razão parou. Naquela época, ali era o alto do morro e o fim da área ocupada. Hoje não é mais. “Cresceu o dobro”, afirma. Quem policiou a área durante anos faz uma conta parecida: o vereador estima um aumento de pelo menos 70% na quantidade de moradias irregulares nos últimos dois anos.
Os números da cidade explicam. Itapema saltou de 45,8 mil para 75,9 mil habitantes entre os censos de 2010 e 2022, e a estimativa do IBGE para 2025 já passa de 86 mil. A prefeitura calcula que cerca de 70% dos moradores vieram de outros estados. A construção civil chama a mão de obra, a mão de obra vem principalmente do Nordeste, e o aluguel que ela encontra custa de R$ 1.500 a R$ 2 mil por mês, segundo os próprios moradores. A conta não fecha. Em agosto, o prefeito Alexandre Xepa admitiu que o município tem déficit habitacional e um custo de vida muito alto. O morro é onde essa conta fecha.
Luz de gato, água de cachoeira
No fim da Rua 902 E, um grupo de moradores recebeu a reportagem. A mesma rua que aparece em registros da Polícia Militar como área conhecida pelo comércio de entorpecentes é onde eles quiseram contar o outro lado. A energia elétrica vem de ligações clandestinas. A água desce do morro, de cachoeiras, sem tratamento. Esgoto não existe.
Eles afirmam que já procuraram a prefeitura, a Reurb, o secretário e a Celesc. A resposta, dizem, é sempre a mesma: projeto, demora, gaveta e a promessa de estender o fio em ano de eleição. Kelly, natural do Paraná, mora no morro há onze anos. Casou, teve um filho, separou-se e ficou com a casa que o casal levou quatro anos para pagar. “Todo mundo pensa que é invasão, mas a gente lutou pra ter”, diz.
Quando o Estado sobe o morro, dizem os moradores, não sobe para atender. Sobe para derrubar. Em 2023 e novamente em julho de 2025, operações da Fundação Ambiental Área Costeira de Itapema (FAACI), com a Polícia Militar e a Guarda Municipal, demoliram construções na encosta. A nota oficial informou que os imóveis não eram habitados. Os moradores contam outra história, de casas derrubadas com família dentro e mangueiras de água arrancadas do morro.
Em novembro do ano passado, a prefeitura inaugurou no bairro a base avançada da Guarda Municipal, num prédio que antes abrigava uma unidade de saúde desativada. A unidade de saúde não voltou. O Plano de Contingência da Defesa Civil, que mapeia áreas sujeitas a deslizamento, começou a ser elaborado este ano por outro morro. O Alto São Bento ainda não entrou na lista, apesar de ter sido um dos bairros mais atingidos pela chuva de janeiro de 2025. No alto da encosta desmatada, pedras do tamanho de um carro repousam acima de dezenas de casas.
“Aqui não tem facção”
Facção é a palavra que os moradores da 902 E rejeitam. Ninguém ali é faccionário, dizem. A facção ali é morador. E a prova, para eles, é simples: se houvesse domínio armado, o pessoal reagiria a cada operação, como acontece no Rio de Janeiro e em São Paulo. Ali, dizem, a arma é a colher de pedreiro. Brunela Maria, que conhece muitos deles, faz a mesma ressalva e a mesma advertência: existe gente do crime instalada naquele ponto e em outros, mas a maioria é trabalhador da construção civil, e a imprensa não pode fechar os olhos para o crescimento da ocupação.
Nem todo morador, porém, conta a mesma história. Longe das câmeras e sob a condição de não ser identificado, um deles pediu para falar. E a versão dele é outra: o morro, sim, é dominado. À noite, diz, é correria, grito e barulho de tiro. Morador não se mete com eles e eles não se metem com morador. Ninguém fala nada, sob pena de represália. Ele resume o motivo de continuar ali: não tem condições de morar em outro lugar, porque em Itapema tudo é caro.
A Polícia Militar registra a região como área conhecida pelo comércio de entorpecentes e confirma a presença do tráfico de drogas e do crime organizado no bairro. Foi a corporação que, em 5 de julho, atendeu a execução de um homem com mais de 20 disparos em uma das ruas do Alto São Bento. E foi a corporação que, semanas depois, localizou o corpo de Brendon em um ponto descrito como área de invasão, onde ele estaria ocultado. Até quem defende a presença policial no morro reconhece que ela, sozinha, não resolve: onde o Estado não entra com saúde, educação, saneamento e moradia, o crime se instala com mais facilidade.
O que a prefeitura oferece
A resposta habitacional do município existe, mas em outra escala e em outro bairro. São 90 casas do Minha Casa, Minha Vida no Residencial Campo Verde, no Sertão do Trombudo, com entrega prevista para o segundo semestre de 2027 e destinadas a famílias com renda de até R$ 3.200. A segunda fase do Programa Casa Itapema prevê 1.120 apartamentos. A terceira, que trata da realocação de famílias em áreas de risco, ainda não tem data. A secretaria responsável fica na Rua 902, no próprio Alto São Bento, a poucas centenas de metros da encosta ocupada.
De um lado, moradores que garantem que ali só existe trabalhador. De outro, um vizinho que fala baixo, a polícia que registra e uma cova rasa no topo. Enquanto a casa não vem, o morro sobe. Uns chamam isso de problema, outros chamam de realidade. A Polícia Civil segue investigando por que um estudante de 23 anos, que havia chegado um mês antes para trabalhar, terminou enterrado no ponto mais alto de Itapema.














