O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escolheu a noite desta quinta-feira (27), a mesma em que Santa Catarina foi confirmada como o estado mais seguro do Brasil pela oitava vez consecutiva, para dizer em rede nacional que “nenhum governador do Brasil, nenhum, conseguiu resolver o problema da segurança pública”. A frase saiu na sabatina do Jornal Nacional, ao vivo nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro, em resposta a uma pergunta de César Tralli sobre a Bahia.
Tralli lembrou que Lula vai completar 12 anos como presidente e que o PT governa a Bahia há 20 anos. “E a Bahia hoje tem cinco das dez cidades mais violentas do Brasil. O maior número de mortes violentas de crianças e adolescentes é o triplo da média nacional”, disse o apresentador, antes de perguntar por que o partido não conseguiu coordenar ações eficientes de segurança no estado “mesmo governando o país e o estado ao mesmo tempo e há tanto tempo”.
“Não seja injusto com a Bahia”, reagiu Lula. “Nenhum governador do Brasil, nenhum, conseguiu resolver o problema da segurança pública. Nenhum conseguiu segurar.” Em seguida, devolveu a pergunta ao apresentador, lembrou que Tralli é de São Paulo e citou campanhas eleitorais paulistas com o slogan “bandido bom é bandido morto” e com “carreta passeando com um artista fantasiado de prisioneiro”. “Ninguém consegue resolver”, repetiu.
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O ranking divulgado horas antes
Os números divulgados horas antes contam outra história. Na manhã da mesma quinta-feira, o Centro de Liderança Pública (CLP) lançou o Ranking de Competitividade dos Estados 2026 e colocou Santa Catarina em primeiro lugar geral pela primeira vez em 15 edições. No pilar Segurança Pública, o estado ficou em 1º pelo oitavo ano consecutivo, com nota máxima, 100, e lidera os dois indicadores centrais do pilar: segurança pessoal, que mede as mortes violentas, e segurança patrimonial, que mede os roubos.
A base do CLP é o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, divulgado em julho. Ali, Santa Catarina aparece com 7,6 mortes violentas intencionais por 100 mil habitantes em 2025, a menor taxa do país, à frente de São Paulo (7,8), que liderava esse ranking desde 2014. Foram 622 mortes violentas no ano, num estado de 7,6 milhões de habitantes, e a taxa caiu de 8,6 em 2024 para 7,6. A média nacional é de 19,1.
Bahia: segunda maior taxa do país
A Bahia, governada pelo PT desde 2007, com Jaques Wagner, Rui Costa e agora Jerônimo Rodrigues, está na outra ponta da tabela. Pelo mesmo Anuário, o estado registrou 5.473 mortes violentas intencionais em 2025, taxa de 36,8 por 100 mil habitantes, a segunda maior do Brasil, atrás apenas do Amapá (42,5) e quase cinco vezes a catarinense. Cinco dos dez municípios mais violentos do país são baianos: Eunápolis, Porto Seguro, Simões Filho, Jequié e Juazeiro. Salvador é a capital com a maior taxa de mortes violentas do Brasil, 44 por 100 mil habitantes. Florianópolis tem 11,4.
| Indicador (2025) | Santa Catarina | Bahia | Brasil |
|---|---|---|---|
| Mortes violentas por 100 mil hab. | 7,6 | 36,8 | 19,1 |
| Posição no ranking de letalidade | 1ª menor | 2ª maior | — |
| Total de mortes violentas | 622 | 5.473 | 40.775 |
| Cidades entre as 10 mais violentas | nenhuma | 5 | — |
| Taxa da capital por 100 mil hab. | 11,4 (Florianópolis) | 44,0 (Salvador) | — |
Entre crianças e adolescentes de 0 a 17 anos, a Bahia teve 12,2 mortes violentas por 100 mil habitantes em 2024, quase o triplo da média nacional de 4,6, segundo o Anuário do ano passado. É o dado que Tralli citou e que Lula não respondeu. O Atlas da Violência 2026, do Ipea com o Fórum, mostra ainda que a Bahia liderou o país em número absoluto de homicídios em 2024, com 6.061 mortes, e que 1.570 das mortes violentas baianas de 2025 decorreram de intervenção policial, quase 29% do total.
A conta que os rankings fazem
A sabatina não foi a primeira vez em que Lula transferiu o tema aos estados. Pela Constituição, as polícias Militar e Civil respondem de fato aos governadores. Mas o próprio governo federal negocia no Congresso a PEC da Segurança Pública, que amplia o papel da União, e a comparação entre os estados é justamente o que os rankings medem: com as mesmas leis penais e o mesmo sistema de Justiça, Santa Catarina chegou a 7,6 e a Bahia a 36,8.
Santa Catarina empenhou R$ 4,08 bilhões na função segurança pública em 2025, 7,2% das despesas do estado, segundo o Anuário. O governador Jorginho Mello (PL) já havia ligado os dois temas na edição passada do ranking do CLP, quando o estado ainda era vice-líder geral: “Reduzir a violência é uma condição fundamental para um Estado cada vez mais competitivo”, disse à época, em nota da Secretaria de Estado da Segurança Pública. Nesta quinta, ele foi um dos governadores convidados para o painel do lançamento do ranking, em São Paulo.
Nenhum governador do Brasil, nenhum, conseguiu resolver o problema da segurança pública. Nenhum conseguiu segurar.
Sabatina tensa do começo ao fim
O clima da entrevista foi tenso desde o início, com perguntas sobre a investigação da Polícia Federal envolvendo o filho do presidente, o rombo do INSS, o Banco Master e o sítio de Atibaia. Ao ser questionado por Renata Vasconcellos sobre as contas públicas, Lula reagiu: “Eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente”. Em outro momento, disse que “já estava achando que estava no Ministério Público” e pediu para falar do programa de governo.
A frase sobre os governadores foi lida por adversários como um gol contra em ano eleitoral. Pela mesma bancada passaram nesta semana Romeu Zema (Novo), na segunda-feira, Ronaldo Caiado (PSD), ex-governador de Goiás, na terça, e Renan Santos (Missão), na quarta. Para o jornalista Felipe Moura Brasil, Lula “levantou uma bola” para Caiado “cortar” e “confessou, na prática, a incompetência petista que, inicialmente, tentou disfarçar”.
Lula segue nesta sexta-feira (28) para Salvador, na primeira agenda de campanha na Bahia, com uma caminhada no bairro da Liberdade ao lado do governador Jerônimo Rodrigues (PT). No mesmo dia, o Jornal Nacional sabatina Flávio Bolsonaro (PL). Augusto Cury (Avante) fecha a série no sábado (29).
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