O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou em rede nacional, na noite desta quinta-feira (27), que nunca viu na vida a lobista Roberta Luchsinger, investigada pela Polícia Federal por suspeita de tráfico de influência ao lado do filho mais velho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. A declaração foi dada durante a sabatina do Jornal Nacional, na TV Globo, conduzida pelos jornalistas César Tralli e Renata Vasconcellos.
A negativa veio depois que Renata Vasconcellos leu uma mensagem atribuída à lobista em que ela diz ter recebido do próprio presidente a oferta para escolher onde queria ficar no governo. “Só faltou ela dizer o seguinte, que eu ofereci para ela o Ministério da Defesa, o Comando da Marinha, da Aeronáutica”, respondeu Lula. “Eu não conheço essa moça, nunca vi essa moça na minha vida, nunca conversei com essa moça, ela nunca esteve próxima de mim.”
Minutos depois da fala, fotos dos dois juntos voltaram a circular nas redes sociais. Os registros não vêm de terceiros: foram publicados pela própria Roberta Luchsinger em seu perfil verificado no Instagram, ao longo da campanha presidencial de 2022 e dos anos seguintes, quase sempre acompanhados de mensagens de apoio ao petista.
ASSISTA AO VÍDEO
Em 1º de maio de 2022, na Arena Pacaembu, em São Paulo, ela postou uma selfie abraçada a Lula, de boné vermelho do MST, com a legenda “O pai tá on !!! O pai tá extourado !!! Bora que é @lulaoficial !!!”. Em 3 de novembro do mesmo ano, dias depois do segundo turno, publicou outra imagem ao lado dele chamando-o de “o melhor presidente que esse país já teve e terá novamente”. Em outubro de 2023, repetiu o elogio em uma postagem de aniversário.

O acervo não para em Lula. No mesmo perfil há fotos da lobista com os ministros do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso e Flávio Dino, todas publicadas entre 2021 e 2023 com legendas elogiosas. Filiada ao PT desde 2021, Roberta é neta de um ex-acionista do banco Credit Suisse e construiu em Brasília uma rede de contatos que agora aparece no centro de três inquéritos da Polícia Federal.
A investigação começou a mirar a lobista em dezembro do ano passado, quando ela foi alvo de buscas na Operação Sem Desconto, que apura descontos não autorizados em aposentadorias e pensões do INSS. O esquema teria retirado mais de R$ 6 bilhões dos beneficiários. O celular apreendido na ação passou a alimentar as apurações seguintes.

Foi nesse aparelho que a PF encontrou a frase que hoje pesa contra o filho do presidente. Ao tratar de negócios junto ao governo federal com um interlocutor, Roberta escreveu: “Eles sabem o que eu sou. Eu sou o Fábio”. Em relatório enviado ao STF, a corporação registrou que, “aparentemente, Roberta tinha autorização para agir em nome dele”.
Segundo a PF, a lobista, Lulinha e o empresário Fernando Bittar mantinham um grupo de WhatsApp chamado “Musaranhos”, usado para discutir projetos e negociações com empresas interessadas em contratos públicos. Um desses negócios envolveria a compra de canabidiol pelo Ministério da Saúde, em favor de empresa ligada a Antônio Carlos Camilo Antunes, o Careca do INSS. A pasta afirma que o produto nunca esteve em discussão para oferta na rede pública.
Os documentos da investigação apontam ainda um repasse de aproximadamente R$ 1,5 milhão do Careca do INSS a Roberta e a movimentação de R$ 300 mil em espécie, recolhidos em duas coletas por um funcionário dela em 2025. A PF suspeita que parte do dinheiro teria custeado uma viagem de Lulinha. A defesa do filho do presidente nega o pagamento de passagens e afirma que não há prova nos autos.

Outro nome próximo do Planalto aparece nas planilhas. A lobista teria pago R$ 217 mil em faturas de cartão de crédito, parcelas de financiamento de um carro, seguro e joias de diamantes a Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, ex-chefe do Gabinete Pessoal de Lula. Ele deixou o cargo em 21 de julho e diz que os valores se referem a um empréstimo pessoal já quitado.
Na entrevista, Lula chamou Roberta de “pilantra”, acusou a Polícia Federal de vazar informações para a imprensa e comparou o caso do filho às acusações que ele próprio enfrentou na Lava Jato. Disse que não afastará delegados e que não haverá “um milímetro de movimento” da Presidência para proteger Lulinha. “Se ele fez erro, ele pagará. Não existe outro jeito. Ele não será protegido por ser meu filho.”
As defesas de Lulinha, de Roberta Luchsinger e de Marcola negam qualquer irregularidade e afirmam que os vazamentos têm objetivo eleitoral, a menos de dois meses do primeiro turno. Os inquéritos correm no Supremo Tribunal Federal e não têm prazo para conclusão. Sobre a frase dita em rede nacional, o Palácio do Planalto não se manifestou até a publicação desta reportagem.






















