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Colocada à força dentro de um carro a caminho do trabalho, mulher sequestrada é resgatada pela PCSC

A vítima saiu de casa às 7h10 de segunda-feira rumo ao trabalho e desapareceu numa rua de Santa Cecília, no planalto serrano catarinense. Foi encontrada mais de 32 horas depois dentro de um carro estacionado perto da rodoviária. Elias do Nascimento Martins, 38 anos, contra quem ela já tinha medida protetiva, foi preso em flagrante por sequestro, cárcere privado e descumprimento da decisão judicial.

Colocada à força dentro de um carro a caminho do trabalho, mulher sequestrada é resgatada pela PCSC
Foto: Reprodução
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Eram 7h10 da manhã de segunda-feira quando ela fechou a porta de casa e começou a caminhada de sempre até a fábrica de móveis onde trabalha, em Santa Cecília, cidade de pouco menos de 16 mil moradores encravada a 1.100 metros de altitude no planalto serrano catarinense. Cinco minutos depois, a câmera de segurança de uma residência registrou a mulher entrando na Rua Carlos Beli. Às 7h16, uma Saveiro vermelha desce a mesma rua. Às 7h17, nada. A câmera instalada na parte de cima da via nunca a registrou saindo por ali.

Ela só reapareceu mais de 32 horas depois, viva, dentro de um Ford Ka preto estacionado na Rua Sargento Juvenil Pereira de Souza, nas imediações da estação rodoviária municipal. Ao volante estava Elias do Nascimento Martins, 38 anos, conhecido pelo apelido de Cabelo, o mesmo homem contra quem ela havia pedido e obtido medida protetiva de urgência.

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A Polícia Civil de Santa Catarina, por meio da Delegacia de Polícia da Comarca de Santa Cecília, deu voz de prisão em flagrante a ele pelos crimes de sequestro e cárcere privado e por descumprir a decisão judicial que deveria mantê-lo longe da vítima.

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A manhã em que ela não chegou ao trabalho

O alarme não veio da polícia, veio de dentro de casa. A mulher deixou os filhos aos cuidados de uma familiar e saiu para o expediente normalmente. Ao longo da manhã, as tentativas de contato começaram a falhar: chamadas convencionais e mensagens de WhatsApp retornavam com o número desligado. Vizinhos relataram tê-la visto passar na rua falando ao telefone. A dúvida virou pânico quando um telefonema à empresa trouxe a resposta que ninguém queria ouvir. Ela não havia batido o ponto. A Polícia Militar foi acionada como caso de pessoa desaparecida.

No local, ainda com o registro em aberto como desaparecimento, os relatos colhidos pela guarnição mudaram o rumo da ocorrência. A mulher vinha sofrendo ameaças e por isso havia solicitado a medida protetiva. Em episódio anterior, segundo o que familiares contaram à polícia, o mesmo homem já a teria ameaçado e levado à força para uma área de mata; a polícia foi acionada naquela ocasião e ele acabou deixando a vítima em casa. O Conselho Tutelar foi chamado ao endereço para acompanhar a situação das crianças.

Sete minutos de câmera

A guarnição percorreu o caminho entre a residência e o local de trabalho recolhendo imagens de câmeras particulares, casa por casa. A reconstituição fechou um cerco de sete minutos: às 7h10 a vítima sai de casa, às 7h15 entra na Rua Carlos Beli, às 7h16 uma Saveiro vermelha desce a via e, a partir daí, não existe um único registro dela deixando a rua pela extremidade superior. Quem entra e não sai de uma via monitorada nas duas pontas não seguiu a pé.

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A peça que faltava veio da própria empresa. Em contato com o encarregado, os policiais souberam que outra funcionária havia visto a colega ser colocada à força dentro de um veículo vermelho, ocupado por dois homens. A testemunha pediu para não ser identificada. O relato dela bateu com o que as imagens já sugeriam.

Há ainda um detalhe registrado antes do desaparecimento: uma câmera flagrou o investigado em frente à casa da vítima. Ouvida pela polícia, uma moradora afirmou que ele estaria ali apenas para pegar carona até o trabalho.

Da Saveiro vermelha ao Ford Ka preto

Comunicada da ocorrência, a Delegacia de Polícia da Comarca de Santa Cecília assumiu as diligências no mesmo dia. O primeiro objetivo foi dar nome e placa à Saveiro vermelha. Com o cruzamento de imagens de monitoramento e levantamento de campo, os investigadores chegaram a uma VW Nova Saveiro CE vermelha, registrada em nome de uma moradora do município, mas de uso habitual de um familiar dela.

Foi também no levantamento de rua que apareceu a segunda pista, decisiva. Informantes locais indicaram a possível participação de um Ford Ka preto pertencente a um vizinho do casal. Na terça-feira, a investigação identificou que era esse o carro que o investigado estava conduzindo.

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A campana e a prisão

A partir daí, o trabalho virou espera. Policiais civis montaram campana no entorno da estação rodoviária. Por volta das 15h30, o Ford Ka preto estacionou na Rua Sargento Juvenil Pereira de Souza. Dentro dele estavam o investigado e a mulher desaparecida desde a manhã anterior. A abordagem foi imediata.

A vítima foi resgatada em segurança e conduzida à delegacia junto com o preso. Com ele, os policiais apreenderam um aparelho celular Samsung Galaxy A03, de cor rosa. O auto de prisão em flagrante foi lavrado pelos crimes de privação de liberdade e cárcere privado e descumprimento de medidas protetivas de urgência, no contexto de violência doméstica e familiar contra a mulher. Após os procedimentos legais, o autuado permaneceu à disposição do Poder Judiciário.

Em nota, a Polícia Civil destacou que a rápida resposta investigativa foi determinante para a localização da vítima e reforçou o compromisso da instituição no enfrentamento à violência doméstica, com o emprego de todos os meios legais disponíveis para garantir a proteção das mulheres e a responsabilização dos autores.

O que diz a lei

Privar alguém da liberdade mediante sequestro ou cárcere privado é crime previsto no artigo 148 do Código Penal, com pena de um a três anos de reclusão. Quando a vítima é cônjuge ou companheira do autor, a pena sobe para dois a cinco anos. Se a detenção causar grave sofrimento físico ou moral, pode chegar a oito.

Descumprir medida protetiva também é crime autônomo desde 2018 e ficou mais pesado com a Lei 14.994/2024: hoje a pena é de reclusão de dois a cinco anos, mais multa. A norma traz um dispositivo pensado exatamente para casos como este. Em caso de prisão em flagrante, apenas a autoridade judicial pode conceder fiança, justamente para impedir que o agressor deixe a delegacia poucas horas depois. A decisão sobre manter ou não a prisão passa obrigatoriamente pelo Judiciário, na audiência de custódia.

Santa Cecília já viveu isso

O município conhece de perto o desfecho que o resgate de terça-feira evitou. Em 31 de julho de 2025, a vendedora Lusiane Ribeiro Borges, de 27 anos, desapareceu em Santa Cecília depois de voltar do trabalho para casa. O corpo dela foi encontrado por pescadores em 20 de setembro, enrolado em um cobertor e mantido submerso por pedras no rio Correntes, exatamente no ponto que a Polícia Civil já apontava como provável local de ocultação do cadáver. O companheiro dela foi apontado como principal suspeito do feminicídio e teve a prisão decretada semanas antes, depois que a perícia encontrou vestígios de sangue na residência, no veículo e nas roupas dele.

Não foi um caso isolado na comarca. Em 17 de junho deste ano, a mesma Delegacia de Polícia de Santa Cecília cumpriu prisão preventiva contra um homem investigado por tentativa de feminicídio, roubo, ameaça, lesão corporal e descumprimento de medidas protetivas, depois de perseguir a ex-companheira e abordá-la em via pública.

O retrato catarinense

O caso se encaixa num padrão que Santa Catarina insiste em liderar. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o Estado ocupa a primeira posição nacional em registros de ameaça contra mulheres, com 1.733 ocorrências para cada 100 mil, mais que o dobro da média brasileira, e aparece entre os primeiros em descumprimento de medidas protetivas, com 93,8 casos por 100 mil mulheres em 2025.

Do lado do Judiciário, a procura por proteção cresce sem parar. As decisões que concederam medidas protetivas em Santa Catarina saltaram de 19 mil em 2022 para 30,6 mil em 2025, alta de mais de 61%, conforme o TJSC. O problema é o que acontece depois do papel assinado. O Mapa do Feminicídio do Ministério Público catarinense aponta que 26,2% das medidas protetivas no Estado são descumpridas, a segunda maior taxa do país, e que 81% das mulheres mortas não tinham medida vigente no momento do crime.

O inquérito segue em andamento na Delegacia de Polícia da Comarca de Santa Cecília, que deve concluir a apuração sobre a participação de um segundo homem na abordagem inicial e sobre o percurso da vítima nas mais de 32 horas em que ficou sem contato com a família.

Como denunciar

Casos de violência doméstica podem ser comunicados pelo 190 (Polícia Militar), 181 (Polícia Civil) e 180 (Central de Atendimento à Mulher). Em Santa Catarina, a denúncia também pode ser feita pela Delegacia Virtual da Mulher, pelo WhatsApp (48) 98844-0011 e pelo aplicativo PMSC Cidadão. O pedido de medida protetiva de urgência pode ser feito na delegacia mais próxima, sem necessidade de advogado.

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