O comércio de Santa Catarina movimentou R$ 530,1 bilhões em 2024 e ficou com o quarto maior faturamento do país, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Paraná. O número, divulgado pelo IBGE em 29 de julho na Pesquisa Anual de Comércio, é grande o bastante para render manchete e confuso o bastante para ser mal interpretado: ele não é lucro, não é o quanto os catarinenses gastaram em lojas e não é o PIB do Estado.
A Pesquisa Anual de Comércio, conhecida como PAC, é o retrato mais detalhado que o IBGE faz da estrutura do setor. Ela reúne três blocos: comércio e reparação de veículos, peças e motocicletas; comércio por atacado; e comércio varejista. Em Santa Catarina, o atacado sozinho respondeu por R$ 273,8 bilhões da receita bruta de revenda. O varejo somou R$ 185,6 bilhões, e o segmento de veículos, peças e motos ficou com R$ 70,7 bilhões.

Os R$ 530,1 bilhões equivalem a 6,3% dos R$ 8,4 trilhões movimentados pelo comércio brasileiro no ano. São Paulo lidera com folga, com R$ 2,403 trilhões, seguido por Minas Gerais, com R$ 830,9 bilhões, e Paraná, com R$ 651,3 bilhões. Dentro da Região Sul, Santa Catarina ficou com 31% da receita e passou o Rio Grande do Sul, que registrou R$ 526,5 bilhões e 30,8%.
O setor reunia 92,5 mil empresas comerciais catarinenses em 2024, sendo 59,2 mil no varejo, 23,2 mil no atacado e 10,1 mil no comércio de veículos, peças e motocicletas, distribuídas em 102,3 mil unidades locais com receita de revenda. Juntas, elas empregavam 567,1 mil pessoas no fim do ano e pagaram R$ 20,3 bilhões em salários, retiradas e outras remunerações.
O varejo é quem mais emprega: 389,6 mil trabalhadores, quase sete em cada dez ocupados no comércio catarinense. A diferença explica o desenho do setor no Estado. O atacado gira muito mais dinheiro com menos gente, enquanto o varejo movimenta uma receita menor e sustenta a maior parte dos postos de trabalho.

O que o número não é
Faturamento não é lucro. Antes de sobrar alguma coisa, as empresas precisam pagar a mercadoria que revendem, impostos, salários, aluguel, frete, energia e despesas financeiras. O que a PAC chama de margem de comercialização, a diferença entre o valor da venda e o custo da mercadoria, ficou em R$ 103,9 bilhões em Santa Catarina, o quinto maior do Brasil. E margem também não é lucro: dela ainda saem todos os outros custos.
Também não significa que moradores e turistas tenham gastado R$ 530 bilhões dentro do Estado. A conta inclui atacadistas, importadores e distribuidoras catarinenses que vendem para empresas de fora. Um produto pode entrar por um porto de Santa Catarina, passar por um centro de distribuição instalado aqui e terminar na prateleira do Paraná, do Rio Grande do Sul ou de São Paulo. Por isso o valor não pode ser dividido pela população como se representasse consumo por morador.
E não é o PIB catarinense. O Produto Interno Bruto mede o valor dos bens e serviços finais produzidos num território, justamente para evitar contar a mesma mercadoria várias vezes. O faturamento comercial faz o oposto: a indústria vende para a distribuidora, que vende para o atacadista, que abastece o varejista, e cada uma dessas operações entra na conta.

Atacado e portos explicam o tamanho
Boa parte da explicação está na logística. Santa Catarina importou cerca de US$ 33,7 bilhões em 2024, o segundo maior volume do país atrás de São Paulo, o equivalente a 12,8% de tudo o que o Brasil comprou do exterior, conforme dados do governo federal divulgados pelo governo do Estado. Cobre, automóveis e peças, semicondutores, produtos químicos e adubos lideram a pauta de importação.
Parte dessa mercadoria abastece a indústria catarinense. Outra parte entra no circuito atacadista e é revendida Brasil afora. A estrutura portuária e a proximidade dos mercados do Sul e do Sudeste ajudam a explicar por que o Estado concentra tanta operação de importação e distribuição, ainda que a pesquisa do IBGE não aponte uma causa única para a colocação. Ela apresenta o resultado das empresas investigadas.
O varejo em 2024
Os indicadores mensais do IBGE contam uma história um pouco diferente. Pela Pesquisa Mensal de Comércio, o varejo ampliado catarinense, que inclui veículos, material de construção e o atacado de alimentos e bebidas, cresceu 7,2% em 2024, contra 4,1% no Brasil. Já o varejo restrito subiu 4,1% no Estado, abaixo dos 4,7% da média nacional. Foi o melhor resultado catarinense desde 2020, mas não um desempenho acima do país nesse recorte.
As duas pesquisas medem coisas diferentes e não devem ser somadas nem confundidas. A mensal acompanha a variação do volume de vendas ao longo do tempo. A anual fotografa a estrutura das empresas, com faturamento, custos, margens, salários e pessoal ocupado.
O próprio IBGE fez uma ressalva relevante nesta edição: os números de 2024 não devem ser comparados diretamente com os de anos anteriores. Houve quebra de série provocada por mudanças na metodologia de mapeamento das empresas, a partir do Cadastro Central de Empresas. Na prática, a PAC 2024 passa a valer como nova base de comparação para o setor daqui para frente.
Perguntas frequentes
O que é a Pesquisa Anual de Comércio? É o levantamento que o IBGE faz desde 1996 com empresas comerciais formalmente constituídas, investigando receitas, custos, despesas, compras, estoques, salários, pessoal ocupado e margem de comercialização.
Faturamento é a mesma coisa que lucro? Não. Faturamento é o total das receitas com a venda e a revenda de mercadorias. O lucro só aparece depois de descontados mercadoria, impostos, salários e demais custos operacionais.
Dá para comparar com a edição anterior da pesquisa? Não. O IBGE alerta que houve quebra de série histórica por atualização metodológica, o que impede a comparação direta com os anos anteriores.





















