O vídeo que causou a revolta não foi gravado dentro da loja em Florianópolis. Foi gravado no Brás, em São Paulo, no meio do corredor de um galpão de atacado, com gente circulando ao fundo. A dona de uma loja de roupas do Centro da Capital estava lá desde a madrugada, escolhendo peças para abastecer a vitrine, quando ligou a câmera para falar com as clientes catarinenses. Terminou o story com uma frase estampada em letras brancas sobre fundo preto: “Eu não QUERO cliente pobre !!!”.
O Brás é o maior polo atacadista de moda popular do país. É para lá que lojistas de cidades pequenas e médias de todo o Brasil viajam para comprar em volume, pagando por peça valores que costumam ficar na casa dos R$ 10, R$ 20 ou R$ 30, para depois revender com margem no comércio de rua da própria cidade. É esse detalhe, o lugar de onde ela falava, que virou o centro da reação contra o vídeo.
A frase na tela
Na gravação, ela começa reclamando do cansaço. Diz que estava de pé desde a meia-noite comprando uma coleção nova, elogia a variedade que estava trazendo e lembra que na loja é possível parcelar no cartão ou no crediário. Em seguida, muda o tom e passa a separar quem ela quer e quem ela não quer dentro do estabelecimento.
ASSISTA AO VÍDEO

“Não peçam uma coisa que vocês não vão ter condições de pagar. E eu não quero esse tipo de cliente, eu não quero, eu não preciso”, afirma. Logo depois, especifica de quem está falando.
Eu não preciso desse tipo de cliente que vem me encher o saco todo dia com peça de 20 reais, com peça de 50 reais
Para reforçar o argumento, cita o outro lado do balcão. “Eu tenho clientes que gastam mil reais em uma compra”, diz, antes de mencionar compras de mil e dois mil reais feitas por clientes que classifica como maravilhosas. Sobre a imagem, enquanto fala, aparecem duas legendas escritas por ela mesma: “Eu nao quero e os pobres !!” e “Eu não QUERO cliente pobre !!!”.
No mesmo bloco de stories daquela viagem, ela também divulgava mercadoria. Em uma das publicações, segura uma sacola plástica cheia de tênis brancos de uma marca esportiva internacional, ainda embalados, com o aviso “Última chamada dos tênis”. A cena reapareceu nos comentários horas depois, quando seguidoras passaram a questionar a procedência e o preço das peças que ela revende como produto de alto padrão.
Atacado na compra, grife na venda
A contradição entre o lugar da compra e o discurso na venda dominou a repercussão. “Era só o que faltava, a pessoa fazendo revenda de peças do Brás, e querendo dar uma de loja de grife”, escreveu uma cliente. Outra completou: “Paga 40 reais num par de tênis que encolhe se botar no sol, e cobra 150 dos ‘pobres’”. Uma terceira foi direta: “Tá, mas você tá fazendo compra no Brás querida!”.
Houve ainda quem virasse a lógica do vídeo contra a própria autora. “Você é tao ricaaaaaa que precisa ficar aí até meia noite pegando mercadoria para não vender para pobre”, escreveu uma seguidora em mensagem privada. Nos comentários, outra apontou o mesmo: quem depende das clientes não passa a madrugada no atacado.
A reação das clientes
A parte mais repetida das críticas, porém, tratou do público que sustenta o negócio. “Pezinho no chão, tá? Porque quem frequenta a sua loja no CENTRO não são os ricos”, escreveu uma seguidora. Outra resumiu em uma linha o que muita gente disse de formas diferentes: “Que arrogância misericórdia”. Uma terceira contou que passou a entender uma sensação antiga: “Agora entendi o porquê de me sentir mal nesta loja”. E teve quem ironizasse: “Descobri que sou pobre, nunca pisei nessa loja”.
Uma das seguidoras deu nome técnico ao que enxergou na fala. Classificou a declaração como aporofobia, termo usado para descrever a aversão ou a rejeição a pessoas pobres, e argumentou que a postura é também um erro comercial. “Dizer abertamente que ‘não quer cliente pobre’ é um dos maiores atestados de arrogância e burrice comercial que um empresário pode dar”, escreveu.
A resposta nos stories
Diante da enxurrada de críticas, a dona da loja não recuou. Republicou o próprio vídeo nos stories com uma provocação escrita por cima da imagem: “Ajudem a sem noção ! Vâmos bater 1 Milhão”. Em outro story, respondeu a quem a chamou de nojenta em conversa privada: “Ei eu sou nojenta mesmo !! Só pra lembrar As clientes me aturam por que eu sou boa com elas !!! Hahaha”. Publicou também o print de uma seguidora que dizia nunca ter comprado na loja e prometia compartilhar o caso. A resposta veio em letras garrafais: “Nunca comprou E que vc nunca compre Deus me livre !”.
Nas redes sociais, a mesma pessoa que administra a loja se apresenta como biomédica esteta e atua com harmonização facial em Florianópolis. O perfil profissional traz o endereço comercial no Centro e o link direto da loja de roupas, o que fez a repercussão do vídeo respingar também na conta da área da saúde.
Até o fechamento desta reportagem, a empresária não havia publicado retratação. Os vídeos seguiam no ar e o tom das respostas nos stories permanecia o mesmo, enquanto os comentários continuavam chegando na publicação da loja.












































