O procurador-geral da República, Paulo Gonet, pediu na noite desta terça-feira (1º) que o ministro André Mendonça anule a ordem que mandou a Polícia Federal mapear a suposta rede de influência de Daniel Vorcaro e extinga o procedimento. A manifestação chegou ao Supremo Tribunal Federal horas depois de o próprio relatório da PF, tornado público pelo relator, expor mensagens atribuídas a Gonet em que ele diz ao banqueiro estar “na torcida por vocês”.
Mendonça havia dado à Procuradoria cinco dias úteis para se manifestar. Gonet respondeu no mesmo dia, e no sentido contrário ao esperado pelo relator: em vez de opinar sobre o conteúdo, atacou a validade do ato. Segundo a manifestação, revelada pela coluna Manoela Alcântara, do Metrópoles, a apuração acabou por escrutinar o ministro Alexandre de Moraes, citado em 188 das 218 páginas do documento, sem que houvesse pedido do Ministério Público ou iniciativa da própria polícia.
O argumento central é o sistema acusatório. Para a PGR, na fase pré-processual o juiz deve atuar apenas como magistrado de garantias e permanecer inerte enquanto o Ministério Público não forma opinião sobre eventual crime. “Ao juiz não cabe acusar, menos ainda ao juiz cabe realizar investigações pré-processuais. Não lhe é dado valer-se da polícia judiciária como sua longa manus para atividades que não lhe foram assinaladas”, escreveu Gonet.

Ele citou decisões do próprio Supremo para sustentar que “a assunção pelo juiz de funções alheias às suas é causa de nulidade, que afeta os resultados da ação malsinada”. Na conclusão, afirma que tanto a ordem de Mendonça quanto os elementos produzidos a partir dela sofrem de “dupla nulidade”. Na prática, a Procuradoria pede que o relatório da PF deixe de existir juridicamente.
O procurador está no relatório que quer anular
A peça vem de um procurador que aparece no mesmo documento. O nome de Gonet consta em ao menos 22 passagens do relatório. Não há contato salvo com o nome dele no celular de Vorcaro; a ponte era o advogado Ciro Soares. Em 28 de março de 2025, Soares encaminhou ao banqueiro mensagens atribuídas ao procurador-geral: “Que bom! Estou na torcida por vocês!” e “Já com saudade de você! Estou embarcando para Roma”, seguidas do aviso “O Gonet mandou msg pra vc”. No dia seguinte, outro recado: “Você é uma máquina”, com o complemento “Gonet mandou”.
Semanas antes, em 15 de março, Soares havia enviado a Vorcaro uma foto ao lado de Gonet, seguida de quatro chamadas de voz completadas, com os avisos “Liga aqui” e “Ele quer falar com vc”. Em 29 de março, o advogado transmitiu um pedido: “Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”. A resposta do banqueiro foi “Obvio ne”. Em junho, o mesmo interlocutor escreveu “PG confirmou a ida pra Londres”. O episódio foi revelado pela coluna Andreza Matais.
O relatório registra ainda que Gonet participou, em abril de 2024, do evento em Londres promovido pelo Banco Master, com degustação de uísque Macallan no George Club, ao lado de Moraes, Dias Toffoli e do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. E que, nas semanas anteriores à prisão, Vorcaro pediu ao contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA” que reforçasse com “Andrei e Paulo” para que ninguém “de baixo” fizesse “uma sacanagem” com o banco, e cobrou: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”. A PF identifica “Paulo” como o procurador-geral.
Nada no material indica que Gonet tenha atendido a qualquer pedido, e o próprio relatório usa expressões como “possivelmente” e “aparentemente” nas identificações. O que existe são mensagens enviadas pelo banqueiro e recados encaminhados por terceiros. O procurador-geral não se manifestou sobre o conteúdo das mensagens; a peça apresentada trata apenas da validade da decisão de Mendonça.
A ordem que a PGR quer derrubar
A determinação questionada foi dada pelo relator para identificar o interlocutor de Vorcaro, que aparecia nos autos como pessoa não identificada. A PF concluiu, após diligências, que as mensagens eram dirigidas a Moraes. Ao derrubar o sigilo nesta terça, Mendonça estabeleceu que o material deveria ser submetido ao plenário do Supremo, em sessão presencial e pública, e não determinou a abertura de investigação contra o colega. Por se tratar de ministro da Corte, só o colegiado pode autorizar uma apuração desse tipo.
A situação foi resumida ao vivo na GloboNews pela jornalista Andréia Sadi: “Nunca vi isso. As pessoas que vão analisar o caso são as pessoas que estão envolvidas”. Mais cedo, a coluna Andreza Matais havia relatado bate-boca entre Moraes e Mendonça no tribunal, com o primeiro acusando o relator de direcionar as investigações contra ele. Na Câmara, a deputada catarinense Júlia Zanatta (PL-SC) deu 48 horas para o ministro se explicar e anunciou novo pedido de impeachment.
Alexandre de Moraes nega ter trocado mensagens com Vorcaro. Ele e a mulher, Viviane Barci de Moraes, sempre negaram irregularidade no contrato de R$ 131 milhões firmado entre o escritório dela e o Banco Master, cuja última versão, segundo metadados extraídos pela PF, teria sido editada em um perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”. O mesmo acervo traz a mensagem em que o banqueiro diz ter uma “dívida de vida” com o destinatário e, no dia seguinte, pergunta se já precisava deixar o país.
Procurados pelas reportagens, Moraes, Mendonça e Andrei Rodrigues não se manifestaram. Cabe agora ao relator decidir sobre o pedido de nulidade.















