Três dias antes de ser preso, Daniel Vorcaro escreveu ao ministro Alexandre de Moraes que ele e a família tinham uma “dívida de vida” com o magistrado. A mensagem consta do relatório da Polícia Federal anexado à investigação do caso Banco Master e veio a público nesta terça-feira (1º), depois que o relator André Mendonça derrubou o sigilo dos autos.
O texto é curto e direto:
“Estamos juntos sempre. Voce sabe que tenho gratidao da minha vida a você. Toda minha familia, funcionarios, parceiros amigos que dependem de nos tem uma divida de vida contigo e com sua familia. Muito obrigado por tudo. Agora é continuar na pegada pra conseguir concluir, se Deus quiser.”
Os metadados do arquivo, extraídos do celular do banqueiro pela perícia, registram criação, modificação e acesso às 21h19 de 14 de novembro de 2025, no horário universal, o equivalente a 18h19 de uma sexta-feira em Brasília. O documento aparece catalogado na página 107 do relatório.

Cinco mensagens, cinco registros
A parte técnica do relatório explica como a PF chegou ao destinatário. No celular de Vorcaro havia um contato salvo como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. Em 17 de novembro de 2025, dia da prisão, o banqueiro enviou a esse contato cinco mensagens em modo de visualização única, aquele que apaga a imagem depois da leitura.
A análise da categoria de registros do software forense revelou exatamente cinco entradas correspondentes a esses envios. Para os peritos, a correspondência demonstra que, mesmo em visualização única, os registros gerados pelo sistema refletem com exatidão as comunicações efetivamente realizadas no aplicativo. O mesmo padrão foi encontrado nas demais conversas do aparelho.
O método era sempre o mesmo. Vorcaro escrevia o texto no bloco de notas do iPhone, fotografava a tela e mandava a imagem. Por isso a perícia recuperou apenas o que ele produziu, e não as respostas.

“O pgto mais importante que temos”
O acervo também mostra como o dinheiro do contrato era tratado dentro do banco. Em 15 de março de 2024, Vorcaro orientou uma funcionária: “Romy esse barci moraes por favor nao deixe atrasar um dia, coloca no seu controle”. E completou: “É o pgto mais importante que temos”.
Na sequência, insistiu que a cobrança fosse mensal e disse que a forma não importava: “Mas todo mês acompanha isso pra mim”, “Pode pagar sempre, sem nota”, “Do jeito que for”.

Um dos recibos anexados ao relatório documenta o fluxo. Em 8 de fevereiro de 2024, o Banco Master transferiu R$ 3.422.268,14 para a Barci de Moraes Sociedade de Advogados, em conta no Itaú, com o histórico “honorários”. O escritório é comandado por Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, e fechou com o banco um contrato de R$ 131 milhões, com 36 parcelas mensais de R$ 3 milhões líquidos.

Jato, helicóptero e cartões
O relatório reúne ainda uma ficha comercial com as cotas de um jato Legacy 650 e de um helicóptero EC 155 B1 que, segundo o documento, teriam sido enviadas à advogada. A cota do jato aparece avaliada em US$ 5.512.951,89, com taxa fixa mensal de R$ 241.008,36; a do helicóptero, em US$ 1.335.014,01, com mensalidade de R$ 58.281,16.
Em 16 de julho de 2025, um interlocutor cobrou do banqueiro o início do fluxo de pagamentos ao escritório. Vorcaro respondeu que seria feito “num volume maior” e acrescentou: “Faz urgente”. Em outra conversa do mesmo dia, ao perguntar se as aeronaves estavam sendo utilizadas, ouviu que sim: “Já usaram aviões e helicópteros”. Fechou o assunto com uma ordem: “E deixa tudo a disposicao”.
Semanas antes da queda do banco, em 2 de outubro de 2025, o banqueiro autorizou a emissão de cartões de crédito do Master para os filhos do casal, com limite de R$ 300 mil para cada um.

Convites e acessos
A relação aparece também em episódios menores. Em 12 de maio de 2024, Vorcaro pediu à área de marketing do banco que providenciasse convites para a filha do ministro em um evento do Atlético Mineiro na Arena MRV, em Belo Horizonte. O fundo de investidores da SAF do clube era administrado pelo Master, e o banqueiro integrava o conselho de administração.
Ao saber que ela havia recebido credencial VIP, ele voltou a pedir que o irmão dela fosse acomodado junto: “Coloca os irmaos juntos”, “Coloca eles em boa mesa”.
O acervo alcança outras autoridades. Mensagens analisadas pela PF indicam que Vorcaro levou a Londres um dos filhos do procurador-geral da República, Paulo Gonet, em março de 2025. O pedido chegou por um interlocutor identificado como Ciro Soares, advogado do banqueiro: “Gonet perguntou se o filho dele pode ir com a gente para Londres”. A resposta foi “Óbvio, né?”, segundo a coluna Andreza Matais, do Metrópoles.
Do agradecimento ao desespero
No dia seguinte à mensagem de agradecimento, um sábado, o tom mudou. Vorcaro cobrou: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei? Muita sacanagem isso”, em referência, segundo a PF, ao procurador-geral e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Horas depois, perguntou se já precisava deixar o país: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.
Na segunda-feira, 17 de novembro, foi preso no Aeroporto de Guarulhos quando embarcava num jato particular com destino a Malta e, na sequência, a Dubai. No dia seguinte, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do Master.
O caso vai ao plenário
Ao retirar o sigilo da petição que reúne os novos elementos da PF, nesta terça, Mendonça deu à Procuradoria-Geral da República prazo de cinco dias úteis para se manifestar e estabeleceu que o material terá de ser submetido ao plenário do Supremo, em sessão presencial e pública. No despacho, de 218 páginas, ele não cita Moraes nominalmente e não determina, neste momento, a abertura de investigação contra o colega.
Nada no material divulgado até aqui atribui crime a Moraes. O ministro nega ter trocado mensagens com Vorcaro, e ele e a mulher sempre negaram irregularidade no contrato do escritório. Procurados pelas reportagens, não se manifestaram sobre as revelações desta terça.
Vorcaro foi solto no fim de novembro de 2025 por decisão do TRF-1 e voltou a ser preso em 4 de março de 2026, na terceira fase da Operação Compliance Zero. Está no 19º Batalhão da PMDF, em Brasília, com duas propostas de delação rejeitadas. A fraude estimada é de R$ 12 bilhões, e o custo para o Fundo Garantidor de Créditos chega a R$ 51,8 bilhões.















