Daniel Vorcaro escrevia no bloco de notas do próprio iPhone, fotografava a tela e mandava o print em visualização única. A mensagem sumia do outro lado, o histórico ficava limpo e nada restava para ser lido depois. Restou. A perícia da Polícia Federal recuperou 52 dessas notas na memória do aparelho apreendido com o dono do Banco Master e cruzou cada captura com o disparo seguinte no WhatsApp, segundos depois, para o contato salvo na agenda dele como “Alexandre de Moraes BRASILIA”. O laudo de 218 páginas, entregue ao Supremo em 27 de agosto, teve o sigilo derrubado nesta terça (1º) pelo ministro André Mendonça.
O detalhamento é o que dá o peso ao documento. Numa das sequências reconstruídas, a nota foi criada às 21h21, o print da tela saiu às 21h22 e o envio ao contato aconteceu onze segundos depois. O software IPED, usado pela perícia, encadeou os registros do aplicativo de notas, do serviço de captura de tela e do WhatsApp na mesma linha de tempo. As respostas do outro lado não estão no aparelho, e a PF ressalva que não é possível comprovar leitura ou resposta. As saídas, sim, estão todas.

A base de tudo é a Operação Compliance Zero, que apura uma fraude estimada em R$ 12 bilhões e levou à prisão do banqueiro em 18 de novembro de 2025, no aeroporto de Guarulhos, quando ele embarcaria para Dubai. O Master foi liquidado pelo Banco Central dias antes. Ao autorizar a perícia, Mendonça deu 72 horas para que a corporação nomeasse a rede de influência do banqueiro. O que voltou foram 187 interações registradas com aquele número, 28 delas só na semana da quebra do banco, e seis encontros presenciais mapeados entre novembro de 2024 e agosto de 2025.
O número salvo na agenda
O terminal aparece no relatório como +55 61 99266-4093, gravado de quatro formas diferentes na agenda: “Alexandre de Moraes BRASILIA”, “Novo”, “STF TSE NOVO” e “Eu STF”. Segundo o laudo, quem repassou os contatos ao banqueiro foi o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, em 26 de dezembro de 2023. A PF registra que não periciou a titularidade da linha.


A minuta, os metadados e os R$ 131 milhões
Duas semanas depois, em 11 de janeiro de 2024, entra em cena a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro. “Prezado Daniel, boa tarde. Conforme conversamos, estou enviando minuta de contrato de prestação de serviços para sua análise”, escreveu ela, anexando o arquivo. “Ok, muito obrigado!”, respondeu Vorcaro.

As propriedades do documento, extraídas pela perícia, apontam que a última modificação foi feita num perfil identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”, pouco antes do envio. O escritório confirma que ele leu o texto e sustenta que a leitura serviu apenas para checar impedimentos.

O contrato fechado naquele mês previa 36 parcelas de R$ 3 milhões líquidos, R$ 131 milhões ao todo, para a banca da esposa do ministro. Em maio de 2025 veio o segundo, com teto de R$ 50 milhões, desta vez com a Viking, holding do próprio Vorcaro. Desses, R$ 40 milhões seriam pagos em ativos, não em dinheiro.
O avião, o helicóptero e a cobrança
Três dias antes da assinatura do segundo contrato, a brochura de um avião e de um helicóptero foi enviada à advogada: cota de US$ 5,51 milhões no Legacy 650 e de US$ 1,33 milhão no Eurocopter EC 155 B1, ambos da Prime You, empresa que tem Vorcaro e Marcos da Mata entre os sócios.

Em julho de 2025, o banqueiro cobra o sócio sobre a pendência e pergunta se “eles” não estão usando as aeronaves. “Já usaram aviões e helicópteros”, responde o outro, que menciona ainda a mudança do contrato “de Barci para a outra empresa deles Lux”. Sobre a reação da advogada ao programa, o mesmo interlocutor relata: “Sim, estamos gostando muito”. Vorcaro encerra: “Otimo, vai cobrando da prime2 ate resolver. E deixa tudo a disposicao”.

O fluxo de dinheiro tinha urgência própria. Uma fatura de R$ 22,8 milhões foi emitida em julho de 2025, e o relatório registra ordens internas para pagar “sem nota”, “do jeito que for”, tratando a quitação como “o pgto mais importante que temos”. Em março de 2024, Faria cobra diretamente: “O careca não pode atrasar”. “Careca”, aponta a PF, era como o ex-ministro se referia a Moraes nas conversas. Minutos depois, o banqueiro aciona o financeiro do banco e manda pagar.

Cartões de R$ 300 mil para os filhos
Em outubro de 2025, quinze dias antes da prisão, uma executiva do Master consulta o dono sobre um pedido que havia chegado do escritório: “o GUilherme q trabalha com a dra Viviane me ligou p emitir cartao para os filhos dela.. limite de 300 p cada.. posso seguir?”. A resposta de Vorcaro foi “Ok”. Os cartões, de R$ 300 mil de limite cada, seriam para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes. O escritório confirma que os cartões chegaram a ser emitidos e afirma que nunca foram usados.

Os jantares e a rotina dos encontros
A convivência aparece nas beiradas das conversas, que é onde ela costuma aparecer. “Fala pra Patroa aí que o Careca confirmou o jantar com a gente no dia 02/02. Os 3 casais”, escreve Faria em janeiro de 2024, dias depois da minuta. Seis dias depois, completa: “Bom que ela já vai conhecer Patrícia e a Vivi”.


Em novembro daquele ano, Vorcaro conta à filha, com emoji de riso: “To com alexandre moraes”. Em março de 2025, escreve a um diretor do Banco Central: “To com Moraes aqui rsrs”, e emenda “Vai chamar paulo pra dar um aperto”, em referência que a PF associa ao procurador-geral Paulo Gonet.


Na mesma madrugada, à companheira, justifica a demora: “acabou chegando hugo e ciro aqui pra falarem com Alexandre”, possíveis referências a Hugo Motta e Ciro Nogueira. Em outra conversa, Faria envia ao banqueiro o print do próprio chat com “Alexandre de Moraes” para fechar um encontro: “19h30 então. Fechado”.


A última semana
O tom muda na reta final. Em setembro de 2025, o contato ativa mensagens temporárias de 24 horas e, em 1º de outubro, apaga uma sequência de mensagens. Em 14 de novembro, com o banco já sob pressão, Vorcaro escreve: “Estamos juntos sempre. Toda minha família tem uma dívida de vida contigo e com sua família”. No dia seguinte: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galipolo ta sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que segunda ja tenho que estar fora?”.

A última nota saiu às 20h48 de 17 de novembro, tratando de uma “vazada” no caso e de um “movimento de sacanagem” atribuído à “turma do brb”. Na manhã seguinte, ele foi preso.
O que acontece agora
A reação veio rápida e dividida. A Procuradoria-Geral da República, cujo chefe também é citado no relatório, pediu a anulação de todo o procedimento, sob o argumento de que “ao juiz não cabe acusar” e de que a investigação foi imposta por Mendonça sem passar pela presidência da Corte. Mendonça rejeitou o pedido e manteve o caso a caminho do plenário, em sessão presencial e pública, com data a ser marcada por Edson Fachin.
Viviane Barci divulgou nota afirmando que o marido foi consultado apenas sobre impedimentos e que ele “jamais julgou causas do Master”. Alexandre de Moraes, que em janeiro negou ter mantido conversas com o banqueiro, não se manifestou sobre o conteúdo do laudo.
A própria Polícia Federal delimita o alcance do que produziu: não aprofundou investigação sobre magistrados, não atribui crime a ninguém e não afirma que as mensagens foram lidas. O documento organiza vestígios digitais, contratos e datas. A leitura política e jurídica desse material agora sai das 218 páginas e vai para o colegiado de onze ministros do Supremo, sem data definida.
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