Encerrando a semana diante de uma igreja, com a fé em dia e o celular apontado para o rosto, o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) saiu em defesa de Nossa Senhora Aparecida contra uma ameaça que a Justiça Eleitoral classificou como fake news. O vídeo foi publicado no X neste domingo (27), depois que o ministro Flávio Dino, do STF, liberou publicações que, sem evidências, associam o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) a um projeto para tirar da santa o título de Padroeira do Brasil. Dois dias antes, o ministro André Mendonça, do TSE, havia classificado a acusação como “notoriamente inverídica”.
No vídeo, Alckmin diz que estava “fazendo aquilo que todos vocês sabem que eu faço a vida inteira, fortalecendo a minha fé”, e parte para o ataque: publicações sobre a padroeira “estavam sendo removidas da internet, por decisões arbitrárias, o que pode configurar censura prévia”. Na sequência, o vice diz repudiar “toda e qualquer tentativa, do passado ou do futuro, de tirar o título de Nossa Senhora Padroeira do Brasil”. A do passado existe, mas tem idade para tirar carteira de motorista. A do futuro, até agora, ninguém encontrou.
A tal ameaça vem de longe. Um projeto de lei engavetado há 18 anos foi o que levou Nossa Senhora Aparecida ao centro da campanha presidencial. O texto mexia na Lei 6.802/80, a do feriado de 12 de outubro, trocando “padroeira do Brasil” por “padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. A proposta foi arquivada em 2008. O assunto ressuscitou na quinta-feira (24), quando a comentarista Maria Cristina Fernandes afirmou na GloboNews que haveria uma reação da Igreja Católica a evangélicos que estariam mobilizando o projeto, o que poderia favorecer Lula. Horas depois, a própria GloboNews desmentiu a informação e pediu desculpas. Tarde demais: a santa já estava na boca da internet.
Na mesma noite, o humorista Antonio Tabet publicou no X uma imagem de Nossa Senhora Aparecida com uma frase que ligava a “família miliciana” a um ataque à padroeira. O nome de Flávio não aparecia, mas o recado estava dado. Segundo a campanha do senador, a publicação passou de 195 mil visualizações e 11 mil curtidas em poucas horas.
Flávio negou tudo. Em vídeo no X, disse respeitar todas as religiões e também quem não tem religião, e negou que pretenda alterar o título da santa. Depois do desmentido da GloboNews, afirmou nas redes que o projeto sequer existe.
Na sexta-feira (25), o caso chegou ao TSE. Mendonça mandou X, Facebook, Instagram, TikTok e YouTube removerem publicações que apresentassem como verdade a ideia de que Flávio ou a família dele querem tirar o título da padroeira, sob multa de R$ 30 mil. A ordem atingia 1.125 publicações.
Foi nesse mesmo dia que o governo entrou em modo procissão. A primeira-dama Janja, Alckmin e outros aliados de Lula passaram a compartilhar posts em defesa da santa, sem citar Flávio, mas contra o tal “projeto”. Janja publicou uma foto de Lula segurando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, e Simone Tebet (PSB), candidata ao Senado por São Paulo, postou uma foto rezando no Santuário Nacional, em Aparecida (SP). Alckmin gravou o primeiro vídeo, dizendo ter recebido mensagens de católicos preocupados com as notícias que circulavam desde a véspera.
No fim de semana, a novela ganhou mais um capítulo. Atendendo a pedido de Tabet, Dino anulou a decisão de Mendonça e considerou a remoção desproporcional. Para o ministro, apagar o conteúdo exigiria tratar como verdade que a expressão se referia diretamente a um candidato específico, e debates sobre ideias religiosas não podem ser interditados por decisões judiciais desproporcionais. Dino citou a derrubada de milhares de postagens, inclusive de fiéis, e levou o caso ao plenário do STF.
Foi aí que Alckmin voltou à frente da igreja. No segundo vídeo, evitou citar o senador pelo nome e também não citou Mendonça, mas chamou de “arbitrárias” as decisões que haviam derrubado os posts, as mesmas que se basearam na conclusão de que a acusação era falsa. O vice encerrou com uma promessa: “Enquanto eu e o presidente Lula estivermos governando, vamos trabalhar para proteger todas as religiões e assegurar a liberdade de opinião e consciência do povo brasileiro”. Detalhe: Alckmin é candidato à reeleição.
Enquanto a disputa segue entre tribunais, redes sociais e vídeos na porta de igreja, a padroeira continua exatamente onde estava: com o título intacto, o feriado de 12 de outubro garantido em lei e, até onde se sabe, sem ter sido consultada sobre nada disso.























