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Eleições 2026

Do zero aos milhões: ranking revela crescimento patrimonial dos políticos que disputam as eleições em SC

Ferramenta do Jornal Razão compara a primeira e a atual declaração de bens ao TSE de 290 candidatos catarinenses. Há quem tenha crescido 4.698% em dez anos, quem declarou R$ 30 milhões a menos que na eleição passada e quem errou a vírgula e transformou um carro usado em R$ 93 milhões.

Do zero aos milhões: ranking revela crescimento patrimonial dos políticos que disputam as eleições em SC
Foto: Reprodução
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Em 2016, Victor Piccoli declarou à Justiça Eleitoral um patrimônio de R$ 260 mil. Em 2020, R$ 352.576. Em 2024, R$ 612.794. Neste ano, ao registrar candidatura a deputado estadual pelo PDT, o empresário listou dezesseis itens que somam R$ 12.474.326, entre eles uma casa em condomínio fechado em Camboriú de R$ 7 milhões, uma lancha, um Porsche Cayenne e participação de 25% em um avião e em um helicóptero. É uma alta nominal de 4.698% em dez anos, com quase todo o salto concentrado entre a eleição passada e esta.

O caso é um dos que aparecem no levantamento de evolução patrimonial que o Jornal Razão acaba de colocar no ar dentro do especial das Eleições 2026. A ferramenta é simples no conceito e reveladora no resultado: pega a primeira declaração de bens que cada candidato entregou à Justiça Eleitoral ao longo da vida pública, compara com a que ele acabou de entregar no pedido de registro deste ano e mostra a diferença em reais e em percentual. Ao todo, 290 candidatos de Santa Catarina têm duas ou mais declarações registradas na plataforma do TSE, o que permite fazer essa conta.

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O levantamento entra no ar em plena corrida de registros. Santa Catarina já tem 357 candidaturas protocoladas no TSE somando Governo, Senado, Câmara Federal e Assembleia Legislativa, e o número sobe a cada nova chapa enviada pelos partidos. O patrimônio mediano declarado por esse conjunto é de R$ 362 mil, o que dá a dimensão do quanto os primeiros colocados destoam do candidato típico.

Uma Honda HR-V de R$ 93 milhões

Antes de qualquer conclusão sobre enriquecimento, um alerta que salta aos olhos assim que se abre a ficha dos primeiros colocados: o topo do ranking está contaminado por erros de digitação cometidos por quem preencheu a própria declaração. E não são erros discretos.

Professora Caterine (PODE), candidata à Alesc, declarou um único bem: uma Honda HR-V 2015/2016 avaliada em R$ 93.700.000. Preta (PODE) também declarou um item só, descrito como “saldo em espécie”, de R$ 103 milhões, ou seja, dinheiro vivo guardado. Eroni Foresti (PODE) listou um veículo “Commander Overland” por R$ 272.990.000, valor que provavelmente deveria ser R$ 272.990. Abia Alves (PODE) informou um “MMC Outlander SPT HPEAWD” por R$ 160.000.000 e um terreno por R$ 310.000.000. Coronel Mocellin (PL) declarou uma casa residencial no bairro Fazenda, em Itajaí, por R$ 125.000.000, enquanto o segundo maior item da lista dele é uma casa em Meia Praia de R$ 1.015.000.

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São exatamente esses cinco nomes que ocupam o topo do ranking de maiores altas em reais, com saltos que vão de R$ 93 milhões a R$ 635 milhões. Nenhum deles reflete patrimônio real: refletem vírgula no lugar errado ou zeros a mais no formulário. O detalhe importante é que o TSE não audita a declaração no momento do registro. O candidato digita, o sistema aceita, e o número entra na base pública do jeito que foi escrito.

O Jornal Razão optou por não maquiar o dado oficial. O valor exibido é o mesmo que consta no DivulgaCandContas, e cada ficha de candidato traz o detalhamento item a item justamente para que o leitor enxergue, em dez segundos, quando o número não fecha. Corrigir por conta própria a declaração de outra pessoa seria inventar informação; mostrar a planilha inteira é deixar o erro evidente.

Quem cresceu de verdade

Descontados os casos de preenchimento equivocado, a maior alta consistente em reais é a de Carlos Humberto (PL), candidato à Alesc, que saiu de R$ 2.681.949 em 2016 para R$ 18.229.500 neste ano, um acréscimo de R$ 15,5 milhões, ou 580%. A declaração dele é detalhada em dez itens, com aplicações em três bancos, cotas de empresa e créditos a receber.

Na sequência aparece o próprio Victor Piccoli, com R$ 12,2 milhões a mais que em 2016, e Odair Tramontin (NOVO), que subiu de R$ 7.027.139 em 2020 para R$ 14.681.573, alta de 109% e o maior patrimônio declarado entre todos os candidatos catarinenses cuja declaração é consistente. Massocco (PL) cresceu R$ 7,2 milhões desde 2012, com 23 itens declarados, e Bruno Souza (PL) somou R$ 6,7 milhões no mesmo período, alta de 1.210%.

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Gráfico da evolução patrimonial de Victor Piccoli
Victor Piccoli (PDT) saiu de R$ 260 mil em 2016 para R$ 12,4 milhões na declaração de 2026. Arte: Jornal Razão, com dados do TSE

Quem mais cresceu em percentual

O ranking percentual tem um filtro próprio: só entram candidatos cuja primeira declaração foi de pelo menos R$ 100 mil, porque porcentagem calculada sobre base minúscula distorce qualquer comparação. Com esse corte, e afastados os erros de digitação, a lista é encabeçada por Piccoli, com 4.698%, seguido por Jungles Wegher (NOVO), candidato à Câmara Federal, que subiu 1.553% desde 2018, e por Rodrigo Minotto (PDT), com 1.513% em vinte anos.

Vêm depois Padre Pedro (PT), com 1.450% desde 2006, Marcos da Rosa (PL), com 1.406% desde 2012, e Bruno Souza (PL), com 1.210%. Em nono lugar aparece Ana Campagnolo (PL), que declarou R$ 267.600 em 2018, R$ 1.082.021 em 2022 e R$ 3.333.551 agora, variação de 1.146% em oito anos.

Do zero à casa dos milhões

Alguns casos chamam atenção menos pelo salto de uma eleição para outra e mais pela curva inteira. Ivan Naatz (PL), candidato à Alesc, declarou R$ 0 em 2004. Depois vieram R$ 78.750 em 2006, R$ 618 mil em 2008, R$ 899.426 em 2012, R$ 1.020.093 em 2014, R$ 2.214.774 em 2016, R$ 2.441.110 em 2018, R$ 3.430.548 em 2020 e R$ 4.398.950 em 2022. Neste ano, o valor declarado é de R$ 7.332.323, distribuído em 32 itens, a maioria imóveis em Blumenau, Itajaí e Penha. São vinte e dois anos de crescimento praticamente ininterrupto, sem um único recuo entre declarações.

Gráfico da evolução patrimonial de Ivan Naatz
Ivan Naatz (PL) declarou R$ 0 em 2004 e chega a 2026 com R$ 7,3 milhões, sem recuo em nenhuma eleição. Arte: Jornal Razão, com dados do TSE

Outro perfil de trajetória é o de Camasão (PSOL), também candidato à Assembleia. Ele declarou R$ 0 em 2010, R$ 5 mil em 2012, R$ 22 mil em 2014, R$ 13.578 em 2018, voltou a R$ 0 em 2020, subiu para R$ 5.973 em 2022 e R$ 6.216 em 2024. Foram catorze anos oscilando na casa dos milhares. A declaração deste ano é de R$ 456.475.

Gráfico da evolução patrimonial de Camasão
Camasão (PSOL) passou catorze anos declarando valores na casa dos milhares antes da declaração de 2026. Arte: Jornal Razão, com dados do TSE

Na disputa por Brasília

Entre as candidaturas à Câmara Federal, a série mais longa é a de Ana Paula Lima (PT). Ela declarou R$ 82.500 em 2006, R$ 219.570 em 2010, R$ 719.247 em 2012 e passou de R$ 1 milhão em 2014. Houve queda entre 2018 e 2020, quando o valor recuou de R$ 1.641.772 para R$ 1.281.000, e retomada nas eleições seguintes até os R$ 3.173.518 declarados agora, alta nominal de 3.747% em vinte anos.

Gráfico da evolução patrimonial de Ana Paula Lima
Ana Paula Lima (PT) tem vinte anos de declarações registradas, com queda entre 2018 e 2020. Arte: Jornal Razão, com dados do TSE

Na mesma disputa, Julia Zanatta (PL) tem a maior declaração individual entre os candidatos catarinenses a deputado federal: R$ 5.187.181. A série dela começa em 2020, com R$ 2.599.583, registra leve recuo em 2022, para R$ 2.525.000, e dobra até o valor atual, variação de 100% no período.

Gráfico da evolução patrimonial de Julia Zanatta
Julia Zanatta (PL) tem a maior declaração de bens entre os candidatos catarinenses à Câmara Federal. Arte: Jornal Razão, com dados do TSE

E o patrimônio que encolheu

O ranking tem também o lado inverso, e ele é menos comentado do que deveria. A maior queda em reais é de Sorgatto (PL), candidato à Alesc, que declarou R$ 33.701.811 em 2022 e agora informa R$ 3.556.891, uma diferença de R$ 30.144.920, ou 89% a menos. Kariny Naiara Muller (PSDB) recuou 63% desde 2024, Doutora Rosana (PV) perdeu R$ 1,61 milhão em relação a 2012 e Dra. Sandra (PODE) declarou R$ 1.339.000 há dois anos e R$ 119 mil agora, queda de 91%.

Há ainda quem tenha zerado. Carla Corrêa (NOVO) declarou R$ 900 mil em 2024 e informou R$ 0 no registro deste ano. Renato da Farmácia (PSDB) saiu de R$ 745 mil em 2008 para R$ 54.449 em 2026, uma redução de 93%. Como o preenchimento é do próprio candidato, quedas bruscas também podem ter origem em erro de digitação, em bem transferido para o cônjuge ou em venda de patrimônio.

O que o número diz, e o que ele não diz

Crescer patrimônio não é ilícito, e existem explicações completamente banais para saltos grandes: herança, venda de imóvel, entrada de participação societária, atualização do valor de um bem antigo, casamento em comunhão de bens ou simplesmente uma carreira fora da política que deu certo. O ranking não acusa ninguém de nada. Ele coloca os números lado a lado e deixa a conta visível.

Duas ressalvas metodológicas acompanham cada linha da ferramenta. Os valores são nominais, da época de cada declaração, sem correção pela inflação, o que significa que em comparações de vinte anos parte da variação é apenas perda do poder de compra da moeda. E o percentual só é calculado quando a primeira declaração é positiva, porque não existe variação percentual a partir de zero.

A declaração de bens não é uma formalidade burocrática. É o documento que a Justiça Eleitoral usa como marco zero para fiscalizar a evolução patrimonial de quem exerce mandato, e é justamente a comparação entre uma eleição e a seguinte que a lei prevê como instrumento de controle. O que o Jornal Razão fez foi tirar esse documento do sistema onde ele fica escondido e colocá-lo em uma página que qualquer eleitor abre no celular.

A lista ainda vai mudar

O ranking é uma fotografia do momento, não o quadro final da eleição. O registro de candidaturas começou em 20 de julho e se encerra às 19h de 15 de agosto, prazo em que partidos, federações e coligações precisam ter protocolado todos os pedidos na Justiça Eleitoral. Até lá, cada nome novo entra na base do TSE com sua própria declaração de bens e sua própria série histórica, e a página se reorganiza sozinha, sem intervenção manual da redação.

Os candidatos ainda podem retificar a declaração enquanto o registro não é julgado, e todos os citados aparecem com a situação “aguardando julgamento” na plataforma. Se as correções forem feitas, o ranking se reorganiza automaticamente. Depois disso, a propaganda eleitoral começa em 16 de agosto, o primeiro turno é em 4 de outubro e o eventual segundo turno, em 25 de outubro.

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