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Bruxas petrificadas e a maldição da sétima filha: as lendas que fazem de Florianópolis a Ilha da Magia

Em Itaguaçu, onde nasceu Franklin Cascaes, o guia Rodrigo Stüpp conta as lendas trazidas pelos açorianos e o legado de quem registrou as bruxas da Ilha

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Pedra de Itaguaçu e ilustração feita com inteligência artificial: Bruxas petrificadas e a maldição da sétima filha: as lendas que fazem de Florianópolis a Ilha da Magia
Pedra de Itaguaçu e ilustração feita com inteligência artificial
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As pedras gigantes que parecem flutuar no mar de Itaguaçu, em Florianópolis, seriam bruxas petrificadas. Segundo a lenda, elas foram transformadas em pedra pelo coisa-ruim depois de fazer uma festa sem convidar o chefe. A história é uma das muitas que fazem da capital catarinense a Ilha da Magia.

Quem conta é Rodrigo Stüpp, jornalista e guia do Guia Manezinho, que recebeu o Jornal Razão em Itaguaçu, o bairro onde nasceu Franklin Cascaes, o artista e pesquisador que registrou as lendas de bruxas da Ilha de Santa Catarina.

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Rodrigo Stüpp, jornalista e guia do Guia Manezinho, em Itaguaçu

Para Rodrigo, Florianópolis ganhou o apelido pela beleza natural, mas especialmente pelas lendas trazidas pelos imigrantes açorianos, que chegaram por volta de 1750. As histórias, segundo ele, também serviam para assustar as pessoas e manter a cultura viva, e foram contadas de boca em boca por séculos, até que Cascaes resolveu documentar tudo.

“Ele não criou, ele documentou, registrou algo que o açoriano já contava”, diz o guia. São cerca de 30 histórias reunidas no livro O Fantástico na Ilha de Santa Catarina. Uma delas é a eleição bruxólica, que explica como as bruxas disputam o poder quando a bruxa chefe morre. Outra é o balanço bruxólico, sobre um homem que desafiou uma bruxa e acabou punido. Nela, a bruxa aparece se balançando num cipó numa figueira. “A figueira é uma árvore meio mística. Pro manezinho, é uma casa de bruxa”, conta Rodrigo.

O Balanço Bruxólico, desenho de Franklin Cascaes de 1970

O menino de Itaguaçu

Franklin Joaquim Cascaes nasceu em 1908 em Itaguaçu, quando a região ainda pertencia a São José. Um monumento com o Boitatá, perto da praia, lembra o lugar. Segundo Rodrigo, a família dele tinha uma fazenda onde hoje fica a homenagem, e foi ali, na praia, que o menino ouviu as primeiras histórias e fez os primeiros desenhos.

Monumento com o Boitatá marca o lugar onde nasceu Franklin Cascaes, em Itaguaçu

“Quando ninguém falava em patrimônio imaterial, cultura popular, ele já tava atento dizendo: se a gente não documentar agora, isso vai desaparecer”, afirma o guia. Rodrigo conta que Cascaes chegou a ser ridicularizado por professores da universidade, que não entendiam por que ele ia ouvir os manezinhos que acreditavam em bruxa.

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As bruxas são só uma parte do legado. Cascaes deixou milhares de peças de cerâmica, muitas em cerâmica crua, e uma enorme coleção de ilustrações. Como boa parte dos moradores não sabia ler nem escrever, ele voltava às comunidades com os desenhos que fazia de memória e perguntava: “É mais ou menos assim que vocês imaginaram?”. Era a forma de devolver as histórias para quem as contava.

Cerâmicas e desenhos de Cascaes em exposição no MArquE, da UFSC

O salão de festas das bruxas

A lenda das pedras de Itaguaçu não é de Cascaes. Ela foi registrada por Gelci José Coelho, o Peninha, discípulo do artista, como mostra a placa da Prefeitura de Florianópolis instalada no local. O texto da placa conta que as bruxas da região queriam uma festa aos moldes da alta sociedade, com lobisomens, mulas-sem-cabeça e boitatás entre os convidados, mas decidiram não chamar o diabo. Ele apareceu entre raios e trovões e transformou todos em pedras grandes. Daí o nome do lugar, em tupi: ita, pedra, e guaçu, grande.

Placa em Itaguaçu conta a lenda do Salão de Festas das Bruxas, registrada pelo Peninha

Rodrigo aponta as “provas”: são sete rochas, número que aparece muito no universo de Cascaes, e uma delas, aquela com a gaivota no alto, seria uma bruxa petrificada com o chapéu. “Ou nós estamos diante do Stonehenge manezinho, ou é uma bruxa petrificada”, brinca.

As bruxas viram pedra no mar de Itaguaçu (ilustração feita com inteligência artificial)

O sete também está numa das crenças mais antigas da Ilha. Numa família de sete mulheres, a mais velha teria que batizar a sétima com nome de santo, senão ela se transformaria em bruxa. Por isso, segundo o guia, há tantas mulheres chamadas Benta entre as manezinhas mais antigas.

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Peri, Conceição e a Lagoa

Outra lenda, mais moderna e fora do universo de Cascaes, explica a Lagoa da Conceição. Ela conta o amor proibido do indígena Peri pela bruxa Conceição. Os dois foram separados para sempre, e Conceição chorou tanto que as lágrimas formaram a lagoa. “Os dois unidos pela ilha, mas separados por esse amor proibido”, resume Rodrigo.

Para o guia, o imaginário não está só nos livros, como O Fantástico na Ilha de Santa Catarina, Lendas da Ilha e Brumas da Ilha. Ele está no cotidiano: uma manezinha mais antiga não varre a casa em feriado santo, por exemplo. E segue vivo em bailes e blocos místicos. “Viva a cultura, viva nossas bruxarias e as nossas feiticeiras”, diz.

As ilustrações das lendas no vídeo foram feitas com inteligência artificial.

© Jornal Razão. Reprodução permitida com crédito e link para a matéria original: jornalrazao.com/cidades/bruxas-itaguacu-franklin-cascaes-ilha-da-magia-florianopolis

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