Pai virou caminhoneiro para chorar sozinho pela filha que morreu no parto: caso inspirou a Lei Melissa em SC
Em entrevista ao Jornal Razão, a deputada estadual Paulinha (Podemos) contou a história por trás da Lei Melissa, sancionada em 2024 em Santa Catarina. Candidata a deputada federal, ela quer levar o debate ao Brasil com a lei das 39 semanas, garantindo à mãe do SUS o direito de exigir a cesariana.
Por Equipe Jornal Razão·11 ago 2026·7 min de leitura·Atualizado há 7 dias
Foto: Reprodução
Publicidade
Enquanto os médicos tentavam salvar a vida da esposa na maternidade, ele foi sozinho ao enterro da própria filha. Melissa nasceu sem vida, com 4,2 kg, em um hospital de Santa Catarina, durante a pandemia de covid-19, há cinco anos. A mãe, Raquel, quase morreu no procedimento e perdeu o útero.
A história foi contada pela deputada estadual Paulinha (Podemos) em entrevista ao Jornal Razão, ao diretor Lorran Barentin. Foi Raquel quem levou o caso ao gabinete da parlamentar, e a tragédia deu origem à Lei Melissa, aprovada na Assembleia Legislativa de Santa Catarina e sancionada em 2024.
Publicidade
Passado o luto imediato, o pai mudou de profissão. Virou motorista de caminhão, em viagens longas, para poder chorar sozinho na estrada. Em casa, no relato da deputada, ele precisava ser forte para cuidar de Raquel e dos outros filhos.
ASSISTA AO VÍDEO
“Ele não se perdoa”
Segundo Paulinha, o que consome o pai até hoje é a culpa por não ter reagido dentro do hospital, quando via a esposa reclamando e sentia que algo estava errado, mas ouvia de todos que era preciso esperar. “Ele não se perdoa por não ter feito um escândalo, não ter chamado a polícia, não ter tirado a Raquel dali, não ter feito alguma coisa”, relatou.
A deputada descreveu a impotência de quem acompanha um parto que dá errado: “tu tá num hospital, todo mundo tá dizendo que tem que esperar, tu vê que tá uma coisa errada, tua mulher tá reclamando, mas aí vem alguém e tu fica impotente”. E fez questão de registrar a contrapartida: “eu não acredito que nem um hospital, nem um médico, nem uma enfermeira quer devolver um filho morto pra mãe. Vamos ter empatia para com todos os lados”.
O que diz a Lei Melissa
Batizada em homenagem à bebê, a Lei Melissa garante atenção integral à saúde da mulher nos casos de perda gestacional espontânea, natimorto, perda neonatal e violência obstétrica, com protocolos de atendimento humanizado e acompanhamento psicológico e social às mães e aos pais, do diagnóstico ao pós-operatório, em unidades de saúde públicas e privadas de Santa Catarina.
Publicidade
Paulinha contou que o projeto foi redesenhado com a ajuda da atual presidente do CRM catarinense, médica obstetra, ouvindo prós, contras e as categorias envolvidas. Mas cobrou transparência do próprio conselho: “o CRM não pode também ser protecionista. Quando morre um bebê, se foi falha do hospital, essa falha tem que ser assumida, admitida, pra que a gente nunca mais repita aquela situação”. A regulamentação da norma, para valer na prática dentro de hospitais e maternidades, ainda está em discussão.
A bandeira das 39 semanas
Candidata a deputada federal em 2026, Paulinha quer levar o debate para todo o Brasil. A bandeira que chama de questão de honra é a lei das 39 semanas: garantir que a gestante atendida pelo SUS tenha o direito de exigir a cesariana a partir dessa marca, o mesmo direito de quem paga pelo parto na rede privada. “Tu entrou pela porta do SUS? Tu não pode escolher”, criticou.
Ela também defende mudanças no pré-natal, com pelo menos a última consulta feita por um médico e uma carta ao hospital sinalizando comorbidades da gestante, como diabetes, hipertensão e pré-eclâmpsia. “Essa carta nunca chega. Não tem uma relação de diálogo. Essa mãe vai pro hospital como se fosse mais um número. As pessoas não são número”, afirmou.
ASSISTA À ENTREVISTA COMPLETA
Na entrevista completa, a deputada também afirma que gestantes do SUS em trabalho de parto são mandadas de volta para casa antes das 41 semanas, cobra a concessionária da BR-101 por mais de 500 descumprimentos contratuais e rebate o que chama de preconceito contra Santa Catarina. Leia a reportagem completa da entrevista.