O corredor do Fórum de Itajaí (SC) ainda estava cheio quando o criminalista deixou o plenário, a toga aberta, o rosto marcado por 14 horas de sessão. A resposta veio antes mesmo de a pergunta terminar. “Missão cumprida, recado dado”, disse Cláudio Dalledone Júnior à reportagem do Jornal Razão, minutos depois de o soldado da Polícia Militar ser absolvido pelos sete jurados.
Ele definiu o processo em uma palavra. “Foi mais uma guerra”, afirmou, ao lembrar que a família do policial atravessou mais de uma década sem saber se seria amparada quando pedisse ajuda. Para o advogado, o veredito respondeu justamente a essa dúvida.
Por que o recado é ao presídio
A frase mais forte da entrevista não foi solta. Segundo a defesa, o criminoso morto no confronto de fevereiro de 2012 era ligado à facção Primeiro Grupo Catarinense (PGC) e cumpria a função conhecida no jargão do crime como “torre”, espécie de pombo-correio responsável por levar e trazer a comunicação entre integrantes. Uma carta encontrada no local do crime, endereçada a outro faccionado, reforçaria esse vínculo.
É por isso que Dalledone tratou a absolvição como uma resposta endereçada ao crime organizado, que acompanhava o desfecho de dentro das cadeias. Ao ser questionado sobre o alcance da decisão, resumiu: não terá festa no presídio.
“Os faccionados não enfrentem a polícia. A polícia defende a sociedade e a sociedade defende a polícia”, completou.
Trinta e um anos de farda
Durante os debates em plenário, o advogado chegou a se emocionar ao falar da própria trajetória. São 31 anos defendendo policiais militares, e ele explicou de onde vem essa ligação: a família é de PMs, e o bisavô foi comandante-geral da Polícia Militar do Paraná.
“Eu tenho muito amor pela farda, eu tenho muito respeito por esses homens. E eles têm muito respeito por mim. É um defendendo o outro até o final”, disse, acrescentando que pretende encerrar a carreira fazendo exatamente isso.
O outro lado da vitória
Perguntado sobre o que sentia como pessoa, e não como advogado, ele separou o resultado do custo humano do processo.
“Hoje eu saio daqui satisfeito com o resultado, mas muito triste por ver esse soldado passar pelo que ele passou.”
Segundo Dalledone, o desgaste foi enorme e a família perdeu muito ao longo dos 14 anos, incluindo a venda de um imóvel e a economia de uma vida inteira para bancar a defesa. A compensação, na avaliação dele, veio do próprio conselho de sentença, que reconheceu o policial como inocente e admitiu que ele agiu em defesa da sociedade.
O advogado disse ainda que não esperava tanta gente no fórum. A mobilização começou depois do apelo público feito pela mulher do policial, uma médica oncologista conhecida na cidade, e encheu o plenário com prefeitos, vereadores, policiais e moradores que ficaram até o fim da noite. “Santa Catarina é um exemplo de ordem, é um exemplo de civismo. E isso ficou representado na sessão de hoje”, afirmou.
Quem esteve na tribuna
A defesa foi conduzida por Dalledone ao lado de Renan Canto, do escritório Dalledone & Advogados Associados, de Curitiba. O criminalista paranaense é um dos mais requisitados do país em Tribunal do Júri, ganhou projeção nacional ao conseguir a absolvição de 13 policiais militares no maior julgamento da história recente da Justiça do Paraná e hoje também atua na defesa dos PMs réus pela morte do delator Antônio Vinícius Lopes Gritzbach, em São Paulo.
Com a absolvição, o processo aberto pela morte de um criminoso durante confronto em fevereiro de 2012 chega ao fim, e a decisão dos jurados é soberana, só revista em hipóteses restritas previstas em lei. Entenda aqui como foi o julgamento que durou 14 horas.
























