O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta segunda-feira (5), em Brasília, que a campanha dele à reeleição está “carregando nas costas” a “promiscuidade” que, segundo ele, ficou estabelecida no Supremo Tribunal Federal (STF). A declaração foi feita na primeira reunião da coordenação de campanha depois do primeiro turno, diante de governadores, ministros e candidatos aliados, e transmitida pelas redes sociais do presidente.
“Estamos carregando nas costas uma coisa muito grave, que é a promiscuidade que ficou estabelecida na Suprema Corte brasileira depois dessa denúncia”, afirmou Lula, sob aplausos. Ele não citou nomes de ministros nem disse a qual denúncia se referia.
A frase veio logo depois de o presidente dizer que é o único candidato “antissistema” na disputa. Lula vai ao segundo turno contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), que terminou o primeiro turno na frente.
Na sequência, Lula defendeu uma nova reforma do Poder Judiciário. Ele lembrou que a primeira foi feita no governo dele, com o então ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos e com Nelson Jobim na presidência do Supremo, e avaliou que ela não deu o resultado esperado. “O corporativismo tomou conta dos conselhos”, disse.

“Nós precisamos fazer outra reforma. E precisamos definir qual é o papel da sociedade nessa reforma”, afirmou. Para o presidente, é preciso definir “concretamente” como se escolhe um ministro do STF. “É de interesse pessoal do presidente da República? É de pressão do Congresso Nacional? É de interesse do poder econômico? Não”, declarou.
Lula disse que o critério de indicação precisa ser discutido com a sociedade, assim como a possibilidade de os ministros terem mandato. Hoje, o presidente da República indica o nome e o Senado aprova ou rejeita. “Acho que está na hora de a sociedade discutir isso, porque é verdade que ninguém está acima da lei, e nem os ministros da Suprema Corte estão acima da lei”, afirmou.
O presidente reconheceu que o assunto é delicado para a campanha. “É um tema difícil, mas necessário”, disse. “Quando você chega numa situação em que a Suprema Corte está sob a desconfiança da sociedade, algo é muito grave. Então esses são temas que nós vamos ter que encarar nessa campanha.”
O Supremo no caminho de Lula
A crítica parte de um presidente que deve ao próprio Supremo a volta à vida política. Preso em abril de 2018, Lula deixou a cadeia em 8 de novembro de 2019, depois de 580 dias, um dia após o STF derrubar a prisão após condenação em segunda instância. Em 2021, a Corte anulou as condenações dele na Lava Jato, o que devolveu os direitos políticos e permitiu a candidatura em 2022.
De volta ao Planalto, Lula indicou para o tribunal o próprio ex-advogado na Lava Jato, Cristiano Zanin, e o então ministro da Justiça, Flávio Dino. Zanin tomou posse como ministro substituto do TSE a três dias do primeiro turno. Quando o Congresso derrubou o aumento do IOF, foi o ministro Alexandre de Moraes quem devolveu a vitória ao governo.
Na reta final da campanha, a ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu a Globo de mostrar o púlpito vazio de Lula no debate ao qual ele não iria. Ela chegou ao tribunal por nomeação do próprio Lula e atendeu a um pedido da coligação do PT.
O tom mudou com o avanço do caso Banco Master sobre ministros da Corte. Em 30 de setembro, Lula disse que o STF está “com a credibilidade muito baixa”. No dia seguinte, afirmou que Moraes “deve uma explicação à sociedade brasileira” sobre o contrato do escritório da esposa com o banco. A relação entre o tribunal e a eleição foi tema da coluna Lenha na Fogueira desta segunda-feira: “O STF decidiu participar das eleições e perdeu”.
No mesmo discurso, de cerca de 19 minutos, Lula tratou da estratégia para o segundo turno. Disse que ficou decepcionado por não vencer no primeiro, cobrou dos aliados a busca pelos eleitores que não foram votar e afirmou que, desta vez, considera importante participar de debate na televisão, por ser “um contra um”.
“São 20 dias, mas é melhor. Vamos dormir menos, vamos trabalhar mais”, afirmou. Ele prometeu dar mais entrevistas a rádios e fazer novas caminhadas em estados como Ceará, Piauí, Bahia e São Paulo.
Lula também pediu aos aliados que não se elegeram que não culpem o eleitor. “Às vezes o povo não vota porque o povo não nos compreendeu”, disse. O segundo turno da eleição presidencial será disputado entre Lula e Flávio Bolsonaro.
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