Primeiro os agentes federais bateram na porta do jornalista. Cinco meses depois, é a vez da fonte dele. O ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, determinou busca e apreensão contra a fonte do jornalista maranhense Luís Pablo Conceição Almeida, autor das reportagens que apontaram o uso de um carro oficial do Tribunal de Justiça do Maranhão pela família do ministro Flávio Dino, também do STF. A informação foi revelada nesta terça-feira (11) pelo jornalista Caio Junqueira, da CNN Brasil.
A identidade da pessoa alvo da nova medida não foi divulgada. Segundo a CNN, a investigação que chegou até ela nasceu justamente da série de reportagens sobre os carros oficiais usados por Flávio Dino e seus familiares em São Luís, capital do Maranhão.
O caso começou em novembro de 2025, quando Luís Pablo publicou em seu blog uma sequência de textos com fotos e informações de um veículo blindado do TJ-MA que, segundo a apuração dele, estaria à disposição de Dino e vinha sendo utilizado de forma privada por integrantes da família do ministro, sem pedido oficial de uso. O jornalista relatou ter recebido um vídeo em que a esposa de Dino aparece no carro com o filho do casal e afirmou que optou por não publicar as imagens completas por envolver uma criança. “Eu apenas congelei uma imagem mostrando o carro saindo do local. Fiz a checagem da placa e apuração jornalística com fontes”, contou.
Da casa do jornalista à fonte
A reação veio pela via judicial. A Polícia Federal pediu a abertura de investigação por crime de perseguição, o chamado stalking, previsto no artigo 147-A do Código Penal, tendo Dino como suposta vítima. O caso foi distribuído inicialmente ao ministro Cristiano Zanin e, em fevereiro deste ano, redistribuído a Moraes por decisão da presidência do STF, que viu conexão com o inquérito das fake news.
Em março, Moraes mandou a PF à casa de Luís Pablo, em São Luís. Os agentes levaram três celulares e um computador do jornalista. Na decisão, o ministro escreveu que havia “indícios relevantes” da prática do crime de perseguição “atentando contra ministro do Supremo Tribunal Federal” e afirmou que o autor das publicações teria se valido “de algum mecanismo estatal para identificação e caracterização dos veículos empregados”, o que permitiria “a exposição indevida relacionada à segurança de autoridades”.
Foi essa operação, na leitura de entidades de imprensa, que abriu caminho para o passo dado agora. Com os equipamentos do jornalista apreendidos, a investigação avançou até quem passou as informações a ele, exatamente o elo que a Constituição protege. O artigo 5º, inciso XIV, da Carta assegura a todos o acesso à informação e resguarda “o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional”.
“Precedente gravíssimo”
“Isso é absurdo! Fere totalmente o direito a sigilo da fonte que todos nós jornalistas temos. O STF abre um precedente gravíssimo para o exercício da nossa profissão”
Igor Gadelha, jornalista do Metrópoles, nas redes sociais
O alerta não é novo. Já em março, quando o alvo era o próprio Luís Pablo, ABERT, ANER e ANJ divulgaram nota conjunta classificando a medida como “preocupante” e sustentando que “a atividade jornalística, independentemente do veículo e de sua linha editorial, conta com a proteção constitucional do sigilo da fonte”. Para as entidades, “qualquer medida que eventualmente viole tal garantia deve ser entendida como um ataque ao livre exercício do jornalismo”. A Abraji repudiou a decisão e a OAB do Maranhão manifestou “preocupação institucional”, lembrando que, pela jurisprudência do próprio Supremo, buscas devem ser feitas “com cautela e nos limites estritos” da investigação.
Na época, o próprio Luís Pablo já apontava o que via como objetivo real da operação. “Acredito que a operação teve como finalidade identificar a fonte da informação”, afirmou o jornalista, que relatou ter ficado dias sem trabalhar após a apreensão de seus equipamentos. “Levaram minhas ferramentas de trabalho. Meu blog é atualizado diariamente.”
Procurado em março, o STF afirmou que a investigação não decorre do inquérito das fake news, foi solicitada pela PF em dezembro de 2025 e contou com parecer favorável da Procuradoria-Geral da República. O gabinete de Flávio Dino, questionado pela CNN se seus familiares utilizam carro oficial do TJ-MA, informou que não comentaria. O Tribunal de Justiça do Maranhão também não se manifestou. Após as primeiras reportagens, segundo publicações do blog, o STF passou a formalizar os pedidos de uso dos veículos oficiais do tribunal maranhense.
A investigação corre sob sigilo. Até a publicação desta reportagem, o STF não havia se pronunciado sobre a nova ordem de busca e apreensão contra a fonte do jornalista.
































