Duas crianças, de 11 e 5 anos, foram resgatadas pelo Conselho Tutelar na tarde desta quinta-feira (3) de uma casa na rua Dorval Estalino Albano, no bairro Mina União, em Criciúma, no Sul de Santa Catarina, após uma série de denúncias de maus-tratos, negligência e uso de drogas dentro da residência. O caso havia sido registrado em boletim de ocorrência na terça-feira (1º).
A denúncia partiu da irmã mais velha das crianças, que mora fora da residência e passou a receber do irmão de 11 anos relatos diários sobre o que acontecia dentro de casa. O Jornal Razão teve acesso a parte das conversas. Segundo ela, o pai, apontado como usuário de drogas, agrediria os dois meninos diariamente com socos e pontapés, enquanto a mãe seria conivente com as agressões e chegaria a instigar o companheiro a bater nas crianças.
Conforme o relato levado às autoridades, o menino mais velho seria tratado como empregado dentro de casa. Ele seria obrigado a limpar toda a residência para poder brincar e apanharia de socos e chutes do pai caso não cumprisse as tarefas. “Cheguei aqui e tive que fazer tudo o que fiz de manhã e de tarde. Amanhã não tenho colégio e eles falarão pra eu fazer tudo senão vão me bater e deixar eu sem celular”, escreveu a criança em uma das mensagens enviadas à irmã.
Quando a irmã sugeriu que deixasse a limpeza para os adultos, a resposta do menino foi direta: “Aí eu apanho”. Orientado a dizer aos pais que naquele dia a tarefa não era dele, ele contou que já havia tentado: “Já disse isso ontem e apanhei”.

As mensagens também descrevem o consumo de drogas pelos pais na frente das crianças. Em um dos relatos, o menino conta que o pai estaria “parado com a mão no nariz olhando pra janela” e confirma que ele teria cheirado antes de sair para comprar maconha e doces. “Não aguento mais isso”, desabafou a criança.
Em outra conversa, ele descreve vestígios de entorpecentes na casa: “Eles ontem fizeram maconha na capa do celular. E tá branco em baixo”. Questionado se falava de maconha ou pó, o menino respondeu: “Pó”. Sobre a mãe, afirmou que o consumo seria dos dois: “Sempre teve. Os 2”.
Um dos episódios mais graves relatados teria ocorrido de madrugada. Por volta das 3h, o menino teria sido acordado pelo pai para acompanhá-lo na compra de droga e bebida. Ao avistar a polícia no caminho, o homem teria acelerado o carro e batido em calçadas e latões de lixo, amassando o veículo e colocando a criança em risco. O menino teria ficado assustado e, desde então, pedia insistentemente para sair de casa.
Os relatos apontam ainda um padrão de abandono nos fins de semana: os pais sairiam para beber, deixando as duas crianças sozinhas em casa, muitas vezes sem alimento. O menino de 11 anos teria pedido repetidas vezes para morar com a avó e a irmã, por não suportar mais a rotina com os pais.
Diante do acúmulo de relatos, a irmã mais velha e a avó formalizaram a denúncia e pediram o afastamento urgente das crianças, alegando que os dois estariam correndo perigo dentro de casa. Vizinhos também denunciaram que o pai estaria agredindo uma das crianças, o que reforçou o acionamento dos órgãos de proteção.
Com a intervenção do Conselho Tutelar nesta quinta-feira, as duas crianças foram retiradas da residência e colocadas em segurança enquanto o caso é apurado. A investigação deverá esclarecer as circunstâncias dos maus-tratos relatados e definir as medidas de proteção definitivas para os irmãos.















