O diretório nacional do PT depositou R$ 4.563.601 do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o fundão, nas contas de Décio Lima e Ana Paula Lima. Foram dois PIX em dias seguidos: R$ 2.223.600,77 para o candidato ao Senado na segunda-feira, 24 de agosto, e R$ 2.340.000 para a deputada federal na terça, 25.
O valor supera em R$ 899,9 mil o que o casal Esperidião e Angela Amin recebeu do PP uma semana depois, em 1º de setembro: R$ 3.663.701. Somados, os dois casais concentram R$ 8,2 milhões, 8,2% de todo o fundão declarado em Santa Catarina até agora, que é de R$ 99,9 milhões distribuídos entre 393 candidatos.
A mulher recebeu mais que o marido
Ana Paula Lima, 62 anos, número 1313, declarou R$ 2.375.010 em receitas, o que a coloca em sétimo lugar entre os 521 candidatos catarinenses que já prestaram contas ao TSE. Décio Lima, 65 anos, número 133, tem R$ 2.242.600 e aparece em oitavo.
Dentro do PT catarinense, ela é a recordista: nenhum outro candidato do partido no estado recebeu tanto, nem o próprio marido, que disputa uma das duas vagas do Senado. O partido distribuiu R$ 12.238.056 entre 32 candidatos em Santa Catarina, e o casal ficou com 37,3% desse dinheiro. Outros 12 dos 44 candidatos do PT no estado não receberam nada do fundão até agora.
No conjunto do estado, Ana Paula é a terceira candidata a deputado federal mais bem financiada, atrás de Valdir Cobalchini (MDB), com R$ 2,85 milhões, e de Geovania de Sá (Republicanos), com R$ 2,8 milhões. Décio é o quarto entre os candidatos ao Senado, atrás de Carol de Toni (PL), com R$ 4,3 milhões, de Esperidião Amin (PP), com R$ 2,71 milhões, e de Antídio Lunelli (MDB), com R$ 2,5 milhões.
A régua de corte
O repasse a Ana Paula é 39 vezes a mediana estadual, que é de R$ 60 mil. Quase metade dos 393 candidatos que receberam fundão em Santa Catarina ficou com R$ 50 mil ou menos, e 50 deles receberam até R$ 10 mil.
Empilhando os repasses do menor para o maior, o que a deputada recebeu sozinha equivale à soma dos 129 candidatos catarinenses que menos receberam, de todos os partidos.
O corte também é íngreme dentro da própria legenda. A menor cota do PT no estado foi de R$ 10 mil, recebida por duas candidatas a deputada estadual: Jumeri Zanetti e Gislaine Durski. Ana Paula recebeu 234 vezes mais que cada uma delas. Do quarto colocado do partido para baixo, ninguém passou de R$ 1,03 milhão.
Comparada a outras siglas, ela sozinha recebeu mais do que o candidato mais bem financiado de onze dos dezesseis partidos que repassaram fundão em Santa Catarina: PSD, PSOL, Podemos, União Brasil, Novo, PDT, PCdoB, PV, Avante, Missão e PSTU. Só PL, Republicanos, PP e MDB têm alguém acima dela.
A concentração do PT, no entanto, está na média do estado: o maior beneficiário do partido ficou com 19,1% do bolo catarinense da legenda, percentual próximo ao do PL (19,3%), do Republicanos (20,3%) e do PSOL (20,3%), e abaixo do PP (27,6%) e do MDB (32,5%).
No que já gastaram
Ana Paula Lima é uma das poucas candidatas do topo que já declarou despesa: R$ 19.185,72, sendo R$ 10 mil em impulsionamento de conteúdo, R$ 9 mil em locação de imóvel, R$ 100 em doação a outro candidato e R$ 85,72 de taxa de administração de financiamento coletivo.
Décio Lima não declarou nenhum gasto. O arquivo do TSE traz na conta dele uma única linha de despesa contratada de R$ 0,00, sem fornecedor e sem número de documento. Os relatórios são parciais, os valores sobem a cada nova entrega e a prestação definitiva só é julgada depois da eleição, marcada para 4 de outubro.
Fora o fundão, a campanha do candidato ao Senado registrou uma única doação: R$ 19 mil de Dario Elias Berger, por PIX, em 21 de agosto. Ana Paula declarou R$ 10 mil de recursos próprios, R$ 10 mil de Osni Vicente de Souza Junior, R$ 4.210 arrecadados pela plataforma de financiamento coletivo QueroApoiar e duas doações estimáveis, de R$ 6 mil e R$ 4,8 mil, que são bens ou serviços cedidos, não dinheiro vivo.
O limite de gastos registrado para Décio no primeiro turno é de R$ 4.447.202; o de Ana Paula, R$ 3.176.573.
De onde sai o dinheiro
O fundão de 2026 tem R$ 4,9 bilhões, tirados do Orçamento da União e divididos pelo TSE entre 30 partidos. O PT ficou com R$ 615,4 milhões, a segunda maior cota do país, atrás só do PL, com R$ 881,7 milhões. Quem decide quanto vai pra cada candidato é a executiva nacional de cada partido, que precisa definir e divulgar os critérios de distribuição antes de mexer no dinheiro.
Décio disputa o Senado pela coligação Coragem para Mudar, formada por PDT, PSB, a federação Brasil da Esperança (PT, PCdoB e PV) e a federação PSOL Rede, com Elaine Berger (PDT) e Fernanda Klitzke (PT) como suplentes. Ana Paula concorre a uma das 16 vagas catarinenses na Câmara pela federação Brasil da Esperança. As duas candidaturas estão deferidas pela Justiça Eleitoral.
Os dois declararam o mesmo patrimônio ao TSE: R$ 3.173.518,18. O fundão que entrou nas duas contas em 48 horas equivale a 1,44 vez tudo o que o casal declara ter em bens. O patrimônio de Décio mais que dobrou desde a última disputa: em 2022, quando concorreu ao governo do estado, ele declarou R$ 1.490.980, alta de 112,8% em quatro anos.
Da Câmara de Blumenau ao topo do PT catarinense
Décio Lima entrou na política em 1992, eleito vereador em Blumenau, com mandato a partir de 1993. São 34 anos de vida pública. Foi prefeito da cidade por oito anos, a partir de 1997, e deputado federal por três mandatos seguidos, eleito em 2006 com 102.112 votos, em 2010 com 117.618 e em 2014 com 112.366. Perdeu a prefeitura de Blumenau em 2008 e disputou o governo do estado duas vezes: ficou fora do segundo turno em 2018 e chegou ao segundo turno em 2022, quando teve 993.517 votos, 29,23% dos válidos, contra Jorginho Mello. Em abril de 2023 foi eleito diretor-presidente do Sebrae Nacional, cargo que deixou para disputar o Senado.
Ana Paula Lima é enfermeira e obstetra formada pela Univali, filiou-se ao PT em 1987 e pediu o primeiro voto para ela mesma em 2002, quando se tornou a primeira mulher eleita deputada estadual por Blumenau. São 24 anos disputando eleições. Foi reeleita à Assembleia em 2006, 2010 e 2014, e entre 2007 e 2008 se tornou a primeira mulher a presidir a Alesc. Em 2018 ficou na suplência para a Câmara, com 76.304 votos, e em 2022 se elegeu deputada federal. Tentou a prefeitura de Blumenau três vezes, em 2012, 2020 e 2024, e perdeu as três.
Somando as duas trajetórias, o casal acumula 58 anos de disputas eleitorais.
O extrato completo das duas campanhas, lançamento por lançamento, está no especial Eleições 2026 do Jornal Razão, e é atualizado a cada arquivo novo do tribunal.
Os valores desta reportagem são do arquivo de prestação de contas do TSE gerado em 3 de setembro de 2026.























