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Desmanche na região de Criciúma tinha Nivus alugado, peças de Golf e motor de Audi Q3

A ocorrência começou na tarde de sexta-feira (4), por volta das 15h, quando a guarnição foi empenhada pela Central Regional de Emergências para averiguar um veículo furtado que estaria em um desmanche

Desmanche na região de Criciúma tinha Nivus alugado, peças de Golf e motor de Audi Q3
Foto: Reprodução
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O barulho de ferramenta batendo em metal podia ser ouvido da própria rua. Foi por ele, e pelo sinal de um rastreador danificado, que a Polícia Militar chegou a um galpão coberto por lona branca nos fundos do número 577 da rua Agripina de Freitas, no bairro Marili, em Içara. O endereço fica na divisa com Criciúma, na região do Cristo Redentor, e foi para lá que o último sinal do carro apontou. Assim que a viatura entrou no terreno, dois homens largaram o serviço e correram pelos fundos. Nenhum dos dois foi longe.

A ocorrência começou na tarde de sexta-feira (4), por volta das 15h, quando a guarnição foi empenhada pela Central Regional de Emergências para averiguar um veículo furtado que estaria em um desmanche. No local, os policiais fizeram contato com um localizador terceirizado contratado pela Movida Aluguel de Carros, acionado pela empresa para tentar recuperar o automóvel.

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O carro era um VW Nivus CL TSI de placas TJE-1D23, furtado mediante falsa locação em Porto Alegre no dia 2 de setembro. O rastreador do veículo havia sido danificado, mas o último sinal registrado antes de a comunicação cair apontava para Criciúma. Foi esse ponto no mapa que colocou o localizador na estrada.

Usando as ferramentas de rastreamento, ele estreitou o cerco até o galpão da rua Agripina de Freitas e acionou a Polícia Militar. Da própria via já era possível ver a estrutura coberta pela lona e ouvir o som de ferramentas em uso. Como a propriedade não tinha cercamento, a viatura conseguiu chegar direto ao galpão.

Foi aí que os dois homens, de 28 e 29 anos, saíram em fuga pelos fundos. Felipi Dias Izidoro foi alcançado quando tentava entrar em uma área de mata na lateral do terreno. Victor Vicente Izidoro foi encontrado escondido embaixo da residência anexa ao galpão.

Questionado pelos policiais, Victor afirmou que não sabia que o veículo era furtado. Felipi preferiu não falar nada.

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A revista no galpão confirmou o que a corrida já sugeria. O Nivus rastreado estava lá dentro, parcialmente desmanchado e já sem diversas peças, no estado característico de veículos abertos para a venda de componentes.

O carro da locadora, porém, não era o único. No mesmo galpão os policiais encontraram peças e as placas de um VW Golf Highline de placas FRN-3A06, com registro de furto em 21 de agosto deste ano em Palhoça, na Grande Florianópolis. Também estava no local o motor de um Audi Q3 2.0 TFSI de placas PGB-2C82, furtado em Criciúma em 30 de junho de 2025, mais de um ano antes.

Nos fundos do galpão apareceram outras duas placas, parcialmente queimadas. Uma delas, RSB-6H84, pertence a uma GM Trailblazer com registro de furto em 22 de agosto deste ano em Alvorada, no Rio Grande do Sul. A outra, JAQ-1E64, é de uma VW Amarok e não tem registro de roubo ou furto.

A polícia ainda vistoriou a residência anexa ao galpão, com entrada autorizada pela moradora, para levantar outros possíveis objetos de origem ilícita. Dentro do imóvel, os policiais encontraram documentos de um terceiro homem, apontado como dono da propriedade e também morador do local. Ele foi qualificado na ocorrência e será apurado.

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Todo o material foi apreendido: peças, carcaças dos veículos identificados, as placas e as ferramentas usadas para o corte e a desmontagem.

Os dois presos já são conhecidos da polícia. Victor Vicente Izidoro tem passagens por receptação, adulteração de sinal identificador de veículo automotor, associação criminosa, furto e ameaça, e é apontado pelas forças de segurança como envolvido de forma recorrente com desmanche de carros de origem ilícita. Felipi Dias Izidoro registra passagens por receptação, adulteração de sinal identificador de veículo automotor, furto, ameaça, dano e tráfico de drogas.

Os dois foram conduzidos à Central de Flagrantes, onde a ocorrência foi registrada como receptação dolosa. A ação contou com apoio de guarnições da Polícia Militar dos bairros São Luiz e Próspera, de Criciúma, de Içara, do sargento de ronda e do serviço com cão policial (K9).

O caso reúne duas engrenagens que a polícia catarinense vem tentando quebrar ao mesmo tempo. Uma é a fraude contra locadoras, em que o veículo é alugado, tem o rastreador danificado ou removido e simplesmente não volta. Em esquemas semelhantes investigados em outros estados, os criminosos chegam a manter o rastreador ligado no porta-malas de outro carro para simular circulação normal para a central de monitoramento, enquanto o veículo verdadeiro é desmontado, adulterado ou preparado para a venda ilegal de peças. A outra engrenagem é o destino final desses carros. A Delegacia de Furtos e Roubos de Veículos aponta três caminhos principais em Santa Catarina: a fronteira, para venda ou troca por drogas e armas, a adulteração e clonagem, e o desmanche para abastecer o comércio de autopeças.

O estado melhorou muito o indicador, mas o problema não sumiu. Santa Catarina reduziu em 62% os furtos e roubos de veículos na última década, saindo de 15.783 casos em 2015 para cerca de 7 mil por ano, segundo dados da Secretaria de Segurança Pública, o equivalente a 19 veículos furtados por dia. A própria delegacia especializada afirma que falta uma regulamentação estadual do Detran sobre desmanches, apesar da lei federal de 2014, o que facilita a atuação de quem recebe e desmonta os veículos.

O Sul do estado já vinha aparecendo nesse mapa. Em maio deste ano, a Polícia Civil localizou em Gravatal um galpão com peças ligadas a 37 veículos de origem ilícita, 18 deles com registro de furto ou roubo, na maior recuperação de componentes automotivos ilegais já registrada na região. A própria Içara já foi palco de operações do tipo: em 2023, a Polícia Civil desmantelou um desmanche às margens da SC-445 no município, com peças de pelo menos cinco caminhões com sinais identificadores suprimidos, dois deles furtados no Rio Grande do Sul e em Criciúma.

Agora o inquérito segue para apurar a participação do terceiro homem qualificado na ocorrência, a origem das demais peças apreendidas no galpão e quem alugou o Nivus em Porto Alegre três dias antes de o carro reaparecer, já desmontado, do outro lado da divisa de Criciúma.

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