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Eleições 2026

“Não temos 72% de idiota em SC”, diz candidato de Lula sobre catarinenses que apoiam postura de Jorginho

Gelson Merisio (PSB) afirmou que o apoio maciço ao governador após o embate com a cacica Antônia Paté foi movido por robôs e perfis patrocinados, e que o catarinense de verdade não aprovou a cena de José Boiteux. O caso é alvo de notícia de fato no MPF e de ação da Defensoria Pública da União.

"Não temos 72% de idiota em SC", diz candidato de Lula sobre catarinenses que apoiam postura de Jorginho
Foto: Reprodução
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Gelson Merisio (PSB), candidato apoiado por Lula ao governo de Santa Catarina, soltou a frase da entrevista sem rodeio: “Nós não temos setenta e dois por cento de idiota em Santa Catarina”. O número que ele contestava era o do apoio maciço registrado nas redes ao jeito como Jorginho Mello (PL) tratou uma senhora de 68 anos dentro de terra indígena.

Para Merisio, aquele apoio foi movido por robôs e perfis patrocinados, e o “catarinense de verdade” não olha para a cena da Barragem Norte, em José Boiteux, e acha aquilo normal. A fala foi dada em entrevista à TV Concórdia, no Oeste catarinense.

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Em 8 de julho, durante visita às obras da barragem, o governador mandou manifestantes irem “para a p*** que o pariu” e perguntou à cacica Antônia Paté, liderança do povo Laklãnõ-Xokleng, se ela não queria “ir à merda”. Ela respondeu que era cacique e exigiu respeito. Ele devolveu: “E eu com isso?”.

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Merisio disse que o problema não é a exaltação, é o silêncio depois. “Se o Jorginho tivesse pedido desculpa, eu não taria falando do assunto”, afirmou. “Mas pede desculpa depois, né? É o básico da educação.”

E marcou a linha que diz não atravessar: “Eu jamais me permitiria chamar uma pessoa de sessenta e oito anos, mulher, de você. Eu aprendi em casa que pessoa de idade se chama de senhora, não de você”. Lembrou ainda que a cacica tem três netos.

A lista das lacrações

O episódio de José Boiteux entrou numa lista. Merisio enfileirou o que classificou como uma sequência de gestos calculados para as redes. “Essa lacração de rede de governador com fuzil na mão, de governador com pau de beisebol dizendo que aqui é na porrada”, disse, incluindo na conta a sanção do fim das cotas raciais, o caso do cão Orelha, que segundo ele “até hoje não se explica”, e agora o embate com os indígenas.

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Cada item tem endereço. Em julho de 2024, o governador apareceu segurando um dos 145 fuzis israelenses Arad/IWI entregues à Polícia Civil, num pacote de mais de R$ 11 milhões. Em novembro de 2025, publicou um vídeo empunhando um taco de beisebol ao ironizar o decreto federal que criou o Plano Nacional de Proteção a Defensores de Direitos Humanos, dizendo que invasores de terra teriam escolta da polícia catarinense.

Em 22 de janeiro deste ano, Jorginho Mello sancionou a Lei 19.722/2026, que proibiu cotas raciais em universidades públicas estaduais e em instituições privadas que recebem verba do Estado, com multa de R$ 100 mil por edital descumprido. O governo justificou a medida citando meritocracia e concorrência mais justa. Em abril, o Supremo Tribunal Federal declarou a lei inconstitucional.

O caso do cão Orelha, agredido a pauladas na Praia Brava, em Florianópolis, e morto em janeiro, também rendeu série de vídeos do governador prometendo respostas. A investigação da Polícia Civil apontou quatro adolescentes, mas concluiu sem materializar as agressões, entendimento depois acompanhado pelo Ministério Público. Em entrevista posterior, o governador afirmou que a polícia fez o trabalho dela.

A imagem que sai do Estado

Para Merisio, a soma dessas cenas produz um retrato do Estado que não corresponde ao que ele enxerga. “Mostrar ao Brasil que nós não somos um Estado feminicida, que nós não somos um Estado racista, que nós somos um Estado de gente acolhedora, trabalhadora, que recebe bem o imigrante”, afirmou. “Se tu olhar a imagem que Santa Catarina tem hoje no Brasil, ela é totalmente equivocada.”

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Pra quê? Pra lacrar a rede, pra fazer a bolha do radicalismo, a bolha do nós contra eles, a bolha de nós somos maioria, que nós temos que lacrar. Isso não pode acontecer.

Ele fez questão de marcar que não estava discutindo a barragem nem a atitude dos indígenas, e sim “defesa da educação, do respeito com as pessoas”. O fecho da entrevista foi um cartão-postal falado. “O alemão do Brasil é o alemão menos teimoso que o alemão da Alemanha, o italiano do Brasil é o italiano mais manso do que o italiano da Itália. O nosso açoriano fez disso um patrimônio nosso. Essa é a imagem de Santa Catarina”, disse.

Caso já está na mesa do MPF

O episódio da barragem já saiu do terreno eleitoral. O Conselho Nacional dos Direitos Humanos apresentou representação ao Ministério Público Federal, que instaurou notícia de fato para avaliar se abre investigação formal contra o governador. A deputada estadual Luciane Carminatti (PT) protocolou representação no mesmo sentido. Na semana passada, a Defensoria Pública da União ajuizou ação civil pública contra o Estado de Santa Catarina e a Meta, pedindo indenização por danos morais coletivos de no mínimo R$ 1 milhão, com o argumento de que a ofensa a uma liderança indígena no exercício da função configura violência institucional.

O governador se manifestou logo após o episódio, em vídeo nas próprias redes. Disse ter sido “cercado e desrespeitado” por fazer o que um governo tem que fazer, afirmou que a barragem foi construída pelo governo federal em 1992 e nunca havia sido reformada, e destacou que o Estado cumpre agora um acordo de mais de 20 anos, com a construção de mais de 40 casas no território.

A troca acontece com o calendário eleitoral já rodando. Levantamento da Neokemp contratado pela OCP News, feito entre 22 e 23 de julho com 1.008 eleitores, aponta Jorginho Mello com 52,8% das intenções de voto, João Rodrigues (PSD) com 20,3% e Merisio com 8,2%. No quesito rejeição, o candidato do Campo Democrático lidera, com 32,3%, seguido pelo governador, com 27,1%. A apuração do MPF e a ação da Defensoria seguem em andamento.

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