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“A gente tá comemorando tirar mais dinheiro do bolso das pessoas”: Cryslan de Moraes quer IPVA em dez vezes e fim do licenciamento

Vereador em São José pelo NOVO e pré-candidato a deputado estadual, Cryslan de Moraes falou ao Jornal Razão sobre carga tributária, internação involuntária e a denúncia de R$ 14 milhões em apostilas escolares na rede municipal.

“A gente tá comemorando tirar mais dinheiro do bolso das pessoas”: Cryslan de Moraes quer IPVA em dez vezes e fim do licenciamento
Foto: Reprodução
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No segundo mandato como vereador em São José e hoje pré-candidato a deputado estadual, Cryslan de Moraes, 28 anos, sentou com o Jornal Razão para uma conversa que passou pela trajetória dele do zero na política, vaquinha de R$ 12.700 e panfletagem em sinaleira até virar o segundo mais votado da cidade, pela denúncia de uma compra de apostilas de R$ 14 milhões pela prefeitura, pela crítica ao sistema prisional catarinense e pela defesa de um programa estadual de internação involuntária para dependentes químicos. Filiado ao NOVO, disse que apoia Jorginho Mello, Romeu Zema e aposta em Adriano Silva como “futuro governador de Santa Catarina”.

Do estágio de R$ 800 ao segundo mais votado de São José

Cryslan de Moraes cumpre o segundo mandato como vereador em São José e chegou à política sem estrutura prévia. Ex-atleta do atletismo do município, disse que competiu em campeonatos brasileiros e que foi ali, ao lidar com a Fundação de Esportes, que resolveu estudar Administração Pública. Relatou que procurou ajuda no órgão e foi atendido por um servidor comissionado que, segundo ele, “não sabia ligar o computador” e mandou que voltasse à tarde porque o estagiário resolveria. Depois descobriu que o funcionário era indicado por um vereador em razão dos votos obtidos em determinado bairro. “Isso é a cara do Brasil”, reagiu o entrevistador, Lorran Barentin.

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Formado em Administração Pública pela Udesc/Esag, passou pelo movimento estudantil e se filiou ao NOVO em 2019. Foi candidato a vereador pela primeira vez em 2020, aos 22 anos, ganhando R$ 800 por mês como estagiário. Contou que não tinha padrinho político nem empresário por trás e que a família, do interior do Paraná, não é de Santa Catarina. Foi criado só pela mãe, trabalhadora informal, microempreendedora, cabeleireira e manicure.

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A campanha saiu de um financiamento coletivo: arrecadou R$ 12.700 com 270 apoiadores, imprimiu adesivo e santinho e foi para o semáforo. Segundo ele, passou a campanha inteira na sinaleira da Big Pan, no Cobrasol, três turnos por dia, em um ponto por onde estima que passem 10 mil carros diariamente. Terminou em segundo lugar, com 2.247 votos. “Talvez alguns votaram com pena ali”, admitiu. Atribuiu o resultado à mudança trazida pelas redes sociais: “Se fosse talvez 15 anos atrás, meu tipo de eleição não ganhava”. Na avaliação dele, teria sido preciso oferecer algo em troca ou ter passado por cargo comissionado.

“Há mais de 20 anos São José não tem um deputado federal”

Questionado se São José está bem representada, Moraes foi direto: “Não. Há mais de 20 anos São José não tem um deputado federal”. Comparou com municípios menores que hoje elegem dois deputados, enquanto a quarta maior cidade do estado, com 195 mil eleitores, segundo ele, fica sem voz. Disse que a rejeição à administração pública aparece nas visitas aos bairros e que “até a prefeitura tem deixado muito a desejar”.

Uma geração passou, já contribuiu. Mas agora a gente tem que olhar pra frente e trazer novos ares.

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O vereador defende o que chama de transição geracional na cidade. Reconheceu que São José teria potencial para eleger meia dúzia de representantes, mas que na prática o voto é pulverizado. Não culpa, segundo ele, nem quem recebe os votos de fora nem o eleitor desinteressado.

Nascido no Hospital Regional de São José, disse querer se colocar à disposição para mudar esse quadro. Reclamou ainda que São José é vista como cidade de passagem, ao lado de uma Florianópolis identificada com tecnologia e inovação.

Impostos, plano de mandato em blockchain e o recorde de arrecadação

Cobrado pelo entrevistador a sair do discurso genérico, “não fala subjetivo”, insistiu Barentin, Moraes apresentou propostas concretas. A primeira é acabar com a taxa anual de licenciamento de veículos em Santa Catarina, de cerca de R$ 150. “Pra quê? Pra gerar um boleto pra tu mesmo pagar”, disse. O entrevistador ponderou que o tema já teria sido aprovado e vetado; Moraes concordou, mas afirmou que passou despercebido e precisa voltar à discussão. Ambos admitiram no ar não lembrar as datas exatas e que o caso merece ser aprofundado.

A segunda proposta é parcelar o IPVA em até dez vezes sem juros, contra as três parcelas atuais. Ele também criticou a celebração dos recordes de arrecadação estaduais. Para ele, se o cofre está cheio, o caminho é cortar imposto: “ninguém fala de diminuir o imposto, todo mundo fala de manter ou de não aumentar”.

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A gente tá comemorando tirar mais dinheiro do bolso das pessoas.

Moraes disse que está escrevendo um plano de mandato com mais de dez propostas, princípios e compromissos, e que pretende registrá-lo em cartório e em blockchain antes da eleição, para que os eleitores possam cobrar item a item caso ele seja eleito.

Jorginho, Zema e a aposta em Adriano Silva

O NOVO integra a coligação de Jorginho Mello (PL, nº 22), candidato à reeleição ao governo do estado. Moraes avaliou que “o Jorginho fez um bom mandato” e disse que vai pedir voto para ele. Pressionado sobre obras não realizadas com o caixa positivo, citou a SC-281, que liga São José a São Pedro de Alcântara em direção à serra, e admitiu: “se tá com caixa positiva, teria que aplicar”. O entrevistador lembrou que, no caso de uma obra local anunciada recentemente, o recurso só chegaria depois das eleições, e Moraes respondeu “exatamente”.

Sobre Romeu Zema, foi taxativo: “Tô com ele, vou levantar a bandeira, vou pedir voto pro Romeu Zema”. Argumentou que o mineiro pegou um estado quebrado, com salários atrasados e consignados não repassados na gestão de Fernando Pimentel, e se reelegeu em primeiro turno por um partido pequeno.

O ponto mais espinhoso foi a ausência de Adriano Bornschein Silva (NOVO), prefeito de Joinville, no evento de Zema em Santa Catarina. Segundo Moraes, Adriano optou por não comparecer “pra não gerar um constrangimento ainda maior”, por causa das críticas de Zema a Flávio Bolsonaro. Barentin contestou a coerência do gesto, lembrando que o NOVO está na majoritária ao lado do PL em Santa Catarina, no Rio Grande do Sul e no Paraná. Moraes admitiu o incômodo com o discurso do próprio partido: “em certo momento, até é chato esse discurso do NOVO”.

Cravo aqui no podcast: ele vai ser o futuro governador de Santa Catarina.

Elogiou o primeiro mandato de Adriano em Joinville, quando, segundo ele, nenhum secretário municipal saiu candidato a vereador e cargos foram preenchidos por processo seletivo. Mas reconheceu, sob a insistência do entrevistador, que o NOVO joinvilense perdeu parte da identidade original: “acabou tendo que fazer concessões”. Barentin lembrou que Adriano prometeu cumprir o mandato após a reeleição e não cumpriu. Moraes não negou, disse apenas que as pessoas veem nele uma oportunidade de mostrar o trabalho.

Moradores de rua e a defesa da internação involuntária

O trecho mais longo da conversa tratou de segurança e drogas. Moraes propõe um programa estadual de internação involuntária integrado às políticas municipais. Na avaliação dele, quem está na rua em Joinville, Balneário Camboriú, Florianópolis e São José não está lá por fome ou falta de emprego: “eles tão ali porque eles são viciados em drogas, viciados principalmente em crack”. Afirmou que, na divisa de São José com Florianópolis, uma pedra de crack é vendida a R$ 5.

Para sustentar que a cadeia não resolve, o vereador relatou o que diz ter acompanhado no sistema prisional catarinense: o grande número de moradores de rua detidos por furto e o ciclo de entrada e saída. Citou um homem apelidado de Periquito, com cerca de 200 passagens e um calhamaço de 400 folhas de antecedentes. Segundo o relato, esses presos passavam meses sem droga, saíam recuperados fisicamente e voltavam à rua: “Eu encontrei ele lá em Floripa, dormindo lá na calçada”. Afirmou ainda que, em Santa Catarina, o regime semiaberto na prática é cumprido dentro da cadeia, o que classificou como desperdício de dinheiro público.

O entrevistador contestou a eficácia da proposta e perguntou o que adiantaria na prática, já que “o cara vai voltar pra rua e vai voltar a usar droga”. Moraes respondeu que o mínimo seria três meses de desintoxicação e citou modelos afastados dos centros urbanos, como o de Chapecó, incluindo abordagens religiosas. Barentin ofereceu a própria hipótese, isolar, dosar a substância e ocupar essas pessoas com trabalho, como a construção de casas populares em terrenos públicos, e admitiu que “posso tá falando uma besteira do tamanho do universo”. Ambos concordaram que não há solução fácil e que o extremo oposto também não serve: “a gente não vai virar aqui genocida”.

Moraes registrou a ressalva de que não defende violência: “não tô dizendo que tem que pegar e fuzilar os moradores de rua”. Criticou o que chama de vazio da expressão “políticas públicas” e disse que essa é a pergunta que o catarinense deveria fazer aos candidatos ao governo. Citou nominalmente Jorginho Mello e João Rodrigues (PSD), prefeito de Chapecó. O entrevistador citou o convidado anterior do podcast, que defende a criação de vínculo; Moraes discordou das teses dele, mas fez questão de ressalvar que se trata de uma divergência de método, não pessoal.

Apostila de R$ 14 milhões, obra parada e licitação sem gravação

Moraes disse que fez do combate à corrupção a marca do mandato e que foi o vereador que mais levou denúncias ao Tribunal de Contas do Estado. A principal delas, segundo ele, envolve a compra de apostilas pela Prefeitura de São José por R$ 14 milhões. Na versão do vereador, professores e diretores não queriam o material, alunos não sabiam usá-lo e hoje as apostilas estão jogadas nas escolas. Ele isentou a fornecedora: “não tem nada a ver com a empresa, porque a empresa se dispôs a vender”. A falha, afirmou, foi da prefeitura, por falta de planejamento.

Outra denúncia saiu na semana da entrevista: uma fiscalização do TCE sobre um complexo escolar em uma comunidade de São José, obra que ele afirma estar atrasada há dois anos. Os responsáveis foram convocados para prestar esclarecimentos, segundo o vereador.

Moraes relatou ainda que São José realizava licitações presenciais sem gravação, contrariando a obrigação legal. Contou que enviou uma pessoa para acompanhar um certame e pediu as imagens, que não existiam. Levou o caso ao TCE e, segundo ele, a prefeitura passou a gravar. Ele mantém um projeto de lei para transmitir as licitações presenciais ao vivo. Também citou o caso de uma moradora filiada ao NOVO que denunciou a coleta de lixo: o TCE pediu explicações sobre aumentos que, conforme o vereador, fizeram boletos saltarem de R$ 100 para R$ 300 e de R$ 300 para R$ 900.

Transparência, IA e a tese de doutorado sobre corrupção

O vereador afirmou estar cursando doutorado com tese sobre transparência e percepção de corrupção nos estados brasileiros. A conclusão preliminar dele é que a corrupção não é mensurável porque acontece nos bastidores: “no portal tá bonitinho, tá aqui o contrato, tá tudo certinho”. O desafio, disse, é descobrir por meio de inteligência artificial o que está fora do digital.

Cada cidade tem um Portal da Transparência diferente. É de propósito, não é didático.

Ele acusou as prefeituras de dificultarem o acesso de propósito. Mesmo um contador ou alguém de TI, segundo ele, tem dificuldade. Elogiou, em contrapartida, o portal do governo do estado, criado por volta de 2017, que classificou como revolucionário e interativo. O entrevistador ponderou que o TCE tem equipe técnica grande e usa ferramentas de inteligência artificial para identificar padrões, mas que 295 municípios são demais para uma fiscalização integral, daí a importância da denúncia do cidadão. Moraes concordou, observando que muita gente sequer sabe como denunciar.

Moraes citou a estimativa de que o Brasil perde de 5% a 10% do orçamento com corrupção e disse acreditar que o número real é maior. Barentin, por sua vez, relatou ter em mãos cerca de doze reportagens prontas sobre uma operação da DIC em um município catarinense, envolvendo um servidor efetivo do almoxarifado que, segundo a investigação à qual teve acesso, recebia propina semanal de fornecedores. Disse que não publicou por precisar refinar o material e por frustração com o desinteresse do público, o que classificou como sintoma preocupante.

Lula, Bolsonaro e o pacto federativo

No bloco final de respostas rápidas, Moraes classificou o governo Lula como “muito ruim” e disse que a carga tributária aumentou demais. Ironizou o ministro da Fazenda: “O Haddad foi o melhor ministro da fazenda que a gente já teve do Paraguai”, afirmando que, em visitas ao oeste do estado, viu muitas empresas transferindo operações para lá. Sobre o presidente, disse não conseguir aceitar como líder alguém condenado por corrupção em três instâncias, citando o TRF4 e a primeira instância em Curitiba, e cujas condenações foram anuladas pelo Supremo. “Tem gente que fala só do Sérgio Moro. Não, teve colegiado”, ponderou.

Sobre Jair Bolsonaro (PL, nº 2222), candidato a deputado federal, foi na direção oposta: “Um injustiçado, ao meu ver, pela justiça, pelo Supremo Tribunal Federal”. Afirmou, na versão dele dos fatos, que criaram falsas narrativas em torno da blitz da Polícia Rodoviária Federal e do 8 de janeiro para configurar tentativa de golpe, com o objetivo de deixá-lo sem poder falar, dar entrevista ou indicar voto nesta eleição. São acusações do entrevistado, não fatos apurados pelo Jornal Razão.

Encerrou defendendo o estado contra as críticas que vê na própria seção de comentários do jornal. Afirmou que Santa Catarina envia R$ 100 a Brasília e recebe apenas R$ 19 de volta, sendo o segundo estado com menor retorno do pacto federativo, atrás apenas de São Paulo, enquanto outros estados receberiam R$ 327 para cada R$ 100 enviados. “Se só esse dinheiro ficasse aqui em Santa Catarina, muitas obras poderiam ser feitas”, disse.

Não sou aquele cara que vai defender um setor específico, um bairro específico, um município específico, mas sim defender o pagador de impostos.

O jornalismo em pauta

A conversa começou e terminou com o próprio Jornal Razão em discussão. Moraes elogiou o alcance da mídia digital diante da TV tradicional e disse que o veículo mudou a forma de o catarinense enxergar a notícia. Barentin respondeu descrevendo a dificuldade do trabalho: “A gente é xingado pela esquerda, é xingado pela direita, é xingado pelo centro e tá tudo certo”. Afirmou ainda que imparcialidade total é demagogia, porque quem escreve carrega a própria construção como cidadão.

O diretor do jornal citou como exemplo o vídeo publicado na véspera sobre um terreno de R$ 800 declarado por Jorginho Mello, ressalvando que “não tô dizendo que tem irregularidade, imoralidade”. A intenção seria democratizar o debate com dado público. Reclamou ainda que um candidato do PSOL recusou ou não respondeu ao convite para o podcast e que um candidato do PL marcou a entrevista e não apareceu.

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