A pergunta veio no meio da entrevista, direta, sem preâmbulo: é um deputado ou uma deputada? Do outro lado do microfone, no estúdio do Jornal Razão, o deputado federal Fábio Schiochet (União Brasil) não pediu tempo para pensar. Respondeu na hora, e o trecho virou o momento mais tenso de toda a conversa.
“Eu, na minha visão, assim, é um deputado, é um deputado”, disse o parlamentar, ao ser questionado sobre a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP). “Você nasceu como? Você pode não gostar do seu sexo, mas você nasceu homem? Você nasceu homem, você não tem como usar um banheiro feminino, cara, não tem como.”
Logo em seguida, ele mesmo tentou delimitar o terreno da fala. “Eu não estou discutindo contigo, eu estou falando apenas fatos”, afirmou.
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Quem é a parlamentar citada
Erika Hilton foi eleita deputada federal por São Paulo em 2022, pelo PSOL, e é uma das duas primeiras mulheres trans a chegar à Câmara dos Deputados na história do país. Antes disso, havia sido vereadora na capital paulista, eleita em 2020 com a maior votação da cidade.
A parlamentar acumula ações judiciais contra figuras públicas que se recusaram a tratá-la no feminino, e já obteve decisões favoráveis na Justiça. Desde 2019, o Supremo Tribunal Federal enquadra a transfobia na Lei do Racismo, o que torna a conduta crime inafiançável e imprescritível. Cada caso, porém, depende de análise judicial individual, e não há registro de ação envolvendo a fala do deputado catarinense. Erika Hilton não se manifestou sobre as declarações.
A crítica ao PSOL
O tema entrou na entrevista alguns minutos antes, quando Schiochet passou a falar sobre o partido. Para ele, a agenda defendida pela legenda no Congresso Nacional não se sustenta na prática. “É uma utopia o que eles falam, não serve aquilo ali, o que o PSOL defende hoje, o que o PSOL defende no Congresso Nacional”, afirmou. “O que uma Érica, um deputado como a Érica Hilton defende, isso é um absurdo.”
A partir daí, o deputado deslocou o argumento do mérito das pautas para o cálculo eleitoral que enxerga por trás delas. Na leitura dele, boa parte desses discursos existe para capturar segmentos específicos do eleitorado, e não por convicção de quem os defende.
Muitos desses discursos são para entrar em algum nicho e ganhar aquele nicho, através de votos, porque é inadmissível, cara. Porque tu convence o 2%. E pronto, isso está bom para eleger uma massa, para eleger um grupo político.
A conclusão veio em uma frase curta, repetida por ele mais de uma vez ao longo do trecho: “eles têm umas pautas, umas bandeiras, que nem eles acreditam”.
“Posso até perder voto”
Ao falar do próprio lugar naquela discussão, Schiochet fez questão de marcar que não vem de família política. “Eu não fui forjado na política, eu não tenho pai deputado, mãe deputada, pai prefeito, mãe ex-prefeita, irmão deputado, não tenho”, disse. “Então se eu estou te falando como um catarinense, muitos desses discursos são para entrar em algum nicho.”
O parlamentar reconheceu, na sequência, o custo eleitoral de fazer esse tipo de declaração a poucos meses da disputa. “Como eu te falei, eu estou em um período pré-eleitoral, posso até perder voto, mas estou aqui com o coração aberto falando como um catarinense, como eu gostaria”, afirmou. “Entrar na política para você defender aquilo que você acredita, e não defender aquilo que te faz permanecer como deputado federal, como senador, como governador, como deputado estadual.”
Quem é Fábio Schiochet
Natural de Jaraguá do Sul, Schiochet elegeu-se deputado federal pela primeira vez em 2018, aos 29 anos, e se tornou o mais jovem da história de Santa Catarina a ocupar a cadeira. Foi reeleito em 2022. Ele é o único dos cinco catarinenses eleitos pelo antigo PSL naquele ciclo que permaneceu na legenda, hoje União Brasil, quando Jair Bolsonaro e o grupo migraram para o PL, e ainda assim voltou à Câmara.
Na avaliação dele sobre a própria atuação no Congresso, o deputado afirma votar por consciência e diz acumular 81% de posições contrárias ao atual governo federal.
Na entrevista, ele também confirmou que a federação formada por União Brasil e PP apoia o ex-prefeito de Chapecó João Rodrigues na disputa pelo Governo de Santa Catarina em 2026, com o objetivo declarado de levar a eleição ao segundo turno contra o governador Jorginho Mello.
ENTREVISTA COMPLETA
A conversa completa com Fábio Schiochet passa ainda por pacto federativo, autonomia de Santa Catarina, Estatuto do Desarmamento, demarcação de terras indígenas e emendas parlamentares.































