Todo ano, Joinville tira mais de R$ 350 milhões do próprio caixa só para manter as portas do Hospital Municipal São José abertas. Para 2026, o orçamento previsto com recurso próprio chega a R$ 380 milhões. Foi esse número que o presidente da Câmara de Vereadores, Diego Machado (PSD), colocou na mesa do estúdio do Jornal Razão, em entrevista a Lorran Barentin, ao lançar a pré-candidatura a deputado estadual. “Daqui um pouco, a cidade de Joinville não vai mais conseguir manter o Hospital São José de portas abertas”, alertou.
Parte do rombo, na avaliação dele, vem da tabela SUS, que estaria defasada há décadas e faria o repasse ficar muito aquém do custo real do atendimento. A saída que Machado defende tem nome: estadualização. A cobrança não é nova. Logo nos primeiros meses do atual governo estadual, uma comitiva de Joinville foi recebida na Casa da Agronômica com 17 dos 19 vereadores, o prefeito Adriano Silva e a então vice Rejane Gambin. Eram três pautas, e a principal era o São José. Segundo o vereador, a articulação entre Câmara, entidades representativas e Prefeitura resultou na assinatura, no fim do ano passado, de uma intenção de estadualização pelo Governo do Estado.
O que muda com a transferência é o efeito cascata, argumenta. De 20% a 30% dos atendimentos do São José vêm de cidades vizinhas, e tirar a unidade do orçamento municipal liberaria os R$ 380 milhões para a atenção básica, que é a responsabilidade constitucional do município. Com o dinheiro, defende, é possível fortalecer as unidades básicas, ampliar o número de agentes comunitários e médicos de família e abrir novas portas de pediatria, já que hoje Joinville teria apenas três portas de pediatria de urgência e emergência.
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O Hospital São José hoje se torna a grande boia de salvação, é passar para o Governo do Estado.
Questionado se João Rodrigues assumiu o compromisso, disse que sim, mas relativizou a exclusividade da promessa: “Independente de quem vencer o Governo do Estado, a estadualização do Hospital São José em Joinville, ela se torna inevitável”.
O diagnóstico para o Hospital Regional, que atende 17 municípios do entorno, é de esgotamento. A capacidade física estaria no limite e, na leitura do vereador, médicos e enfermeiros trabalham na capacidade máxima e com exaustão. Contratar mais servidores, argumenta, não resolve sozinho, porque a estrutura não comportaria. As saídas que ele aponta são erguer uma nova estrutura em outro local, a médio prazo, ou desapropriar áreas no entorno para ampliar a atual.
Cem quilômetros sem dono
A segunda carência do Norte, na conta de Machado, é mobilidade. O exemplo mais afiado veio da BR-101. Quando o contrato com a concessionária foi assinado, afirma, as vias marginais ficaram de fora da manutenção. “Vou usar a palavra esqueceu para não acusar”, ressalvou. O resultado são quase 100 quilômetros de marginais entre o quilômetro zero, em Garuva, e Navegantes, sem responsável definido.
O impasse se repete a cada buraco: o DNIT diz que a manutenção é da concessionária, a concessionária diz que não está no contrato e os municípios não podem atuar porque a faixa é de domínio federal. “Esses 100 quilômetros hoje estão no limbo”, disse. Ele quer que o Governo do Estado pressione Brasília por uma repactuação que incorpore as marginais, viabilize terceiras faixas e destrave a ligação norte-sul por marginais em Joinville.
Há ainda uma promessa que ele cobra dentro da cidade. O vereador afirma que o governador Jorginho Mello esteve em Joinville e anunciou o início da duplicação da Rua Dona Francisca, via que concentra 4% do PIB catarinense e abriga o Perini Business Park.
Faz mais de um ano que ele falou que em 40 dias as máquinas iam começar. Não tem um cone lá na Rua Dona Francisca.
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“Muito pouco ser apenas vice”
O trecho mais político da entrevista veio quando Barentin lembrou que Machado nunca foi crítico voraz da gestão de Adriano Silva (NOVO) e perguntou se a escolha do prefeito como vice na chapa de Jorginho Mello foi acertada. Ele separou os dois planos. Como aliado local, disse integrar a base do governo municipal nos dois mandatos e manter excelente relação com a atual prefeita Rejane Gambin, e contou que recebeu uma ligação de Adriano antes da divulgação pública da decisão. Como avaliação política, foi direto: “No meu entendimento não foi uma decisão política acertada por parte do prefeito Adriano”.
O primeiro argumento é o do calendário. O anúncio saiu em janeiro, sendo que as convenções partidárias só ocorreriam no fim de julho e começo de agosto. “Nós entendemos que foi uma decisão precipitada”, afirmou, defendendo que, se Adriano tivesse renunciado em abril e rodado o Estado, poderia ele próprio ser candidato ao governo, com apoio de João Rodrigues e de outras lideranças. O segundo é o do peso da cidade. Machado lembrou que o Estado já tem uma vice-governadora e que Joinville também emplacou o secretário de governo e o secretário da fazenda. “Eu acho que para Joinville é muito pouco ser apenas vice”, disse. “E de fato, o quê que isso melhorou para a cidade de Joinville?”, questionou, citando a ausência de obras estruturantes na maior cidade e no maior PIB catarinense.
Quando o entrevistador ponderou que o convite atendia a um cálculo eleitoral, para tentar decidir no primeiro turno ou garantir votos do Norte num eventual segundo, o vereador concordou, mas do outro lado do balcão. “Eu no lugar do Jorginho também teria feito esse movimento”, admitiu, lembrando que Adriano foi reeleito com 80% e que Joinville entrega 423 mil eleitores. “Eu estou falando do outro lado do balcão, do lado da cidade de Joinville”, delimitou.
Sobre a transferência efetiva desses votos, foi cético: para ele, boa parte do eleitorado que Jorginho tem em Joinville já era dele, e Adriano ajuda sobretudo a manter esse eleitorado, evitando migração. “Que o Adriano reforça, reforça. Ao ponto de dizer que vai decidir a eleição e que a eleição vai terminar no primeiro turno, aí eu não acredito”, afirmou, reconhecendo que só o dia 4 de outubro dirá. Fez questão de registrar que não faz oposição ferrenha e citou repasses estaduais ao São José: “Não significa que é terra arrasada”.
Machado apoia João Rodrigues (PSD), prefeito de Chapecó, para o Governo do Estado, e não hesitou ao ser perguntado sobre as chances do aliado: “Eu acredito, fielmente, que ele será o próximo governador de Santa Catarina”. A leitura numérica que apresentou é a seguinte: esperava o governador com 65% a 70% nesta altura, mas as pesquisas que considera mais confiáveis o mostrariam com 53% a 54% antes do período eleitoral, com João em 22% a 23%. Com 45 dias de campanha mostrando a gestão em Chapecó e apontando falhas do governo, o pré-candidato chegaria a 28% ou 30%. A peça que faltaria no tabuleiro, na análise dele, é a esquerda, cujo eleitorado ainda não teria assimilado quem é o candidato apoiado por Lula. Como o campo historicamente entrega 15% ou 16% no Estado, ele projeta crescimento exponencial desse nome. “Eu acredito que o segundo turno é uma realidade. E segundo turno é uma nova eleição”, concluiu.
Do rádio comunitário à Alesc
A trajetória que sustenta a pré-candidatura começou no rádio. “Cresci no rádio desde os 14 anos”, contou o vereador, formado em administração e pós-graduado em comunicação. A base, diz, é o trabalho social em Pirabeiraba, distrito no extremo norte de Joinville com cerca de 30 mil habitantes, onde cresceu, ainda mora e ajudou a fundar a rádio comunitária. São 25 anos de atuação comunitária na região, pela contagem dele. “Um conjunto habitacional da prefeitura de Joinville, bem periferia mesmo”, descreveu o lugar onde vive.
Em 2020, na primeira eleição, terminou como segundo mais votado da cidade num páreo com mais de 600 candidatos. Na reeleição de 2024, fez 9 mil votos e, segundo ele, foi o segundo vereador mais votado de todo o Estado. Está no segundo mandato como presidente da Câmara e chega agora ao quarto ano no comando do Legislativo municipal. Da passagem de dez dias como prefeito interino, ficou o riso: “Tira foto, chama a família lá pra visitar o gabinete, não dá pra fazer muita coisa”.
Barentin pressionou no ponto óbvio: 9 mil votos de vereador não fazem uma cadeira na Assembleia. Machado concordou. “Com certeza não, mas eu acredito que Joinville nos dá uma arrancada boa”, respondeu, apontando o trabalho partidário como reforço. Ele afirma ter reconstruído o PSD de Joinville, montado a nominata da última eleição e transformado a sigla na terceira maior legenda da cidade, com 42 mil votos, atrás apenas do PL e do NOVO. O partido elegeu três vereadores e ficou a 180 votos do quarto.
Sobre o que credencia um vereador a virar deputado, defendeu a experiência de base. “Vereador não faz obras, mas ele tem aquela articulação, ele faz a intermediação”, afirmou, dizendo que no primeiro mandato essa articulação destravou mais de R$ 60 milhões em obras para os bairros. Questionado se seria um deputado de Joinville, do Norte ou de Santa Catarina, respondeu que a ligação é com mais de 30 cidades da região norte, mas que o mandato seria estadual: “A partir do momento que eu me elejo deputado estadual, eu passo a ser um deputado de Santa Catarina”.
A bandeira que ele quer levar para a Alesc é a regularização fundiária. Machado afirma que, nos 11 anos anteriores, Joinville emitiu cerca de 600 escrituras pela Secretaria de Habitação, e que nos últimos cinco anos o número passou de 6 mil. O processo, contou, foi liderado pela Câmara desde quando presidia a Comissão de Urbanismo, com a criação de uma comissão reunindo Judiciário, Executivo e as empresas que representavam os moradores. O gargalo era burocrático: o decreto municipal exigia 16 páginas de trâmites para acessar a regularização, e o texto foi reduzido a 6 páginas, além da reformulação do fluxo interno da Prefeitura.
Ele faz uma distinção sobre o alcance do instrumento, que vale para terrenos com contrato de compra e venda adquiridos “não de forma ilegal, que seria uma invasão”, mas sem seguir os trâmites corretos de desmembramento. Perguntado quais municípios mais ganhariam com o avanço do tema, apontou o Litoral e citou Barra Velha como caso sério, por envolver terrenos de marinha e exigir anuência federal, o que deixa cidades assim “mais atrasadas e travadas do que as demais”.
R$ 73 milhões de volta
Na gestão da Câmara, o número que ele apresenta como principal é a devolução de quase R$ 73 milhões à Prefeitura de Joinville ao longo dos quatro anos de presidência. Barentin questionou se a economia não significou corte em algo necessário. “Não faltou absolutamente nada, isso a gente tem a plena convicção”, respondeu. No período, segundo o vereador, a Casa digitalizou 100% dos processos administrativos e legislativos, sem assinatura em papel nem impressão, fez reformas no prédio público e adquiriu, via Prefeitura, um terreno anexo, já que as instalações não comportam mais os servidores.
Ele aproveitou para descartar uma discussão sensível: Joinville tem apenas 19 vereadores para a maior cidade do Estado e, embora ache natural chegar a 21 ou 23 no futuro, cravou que “isso não está em pauta, não existe projeto e não existe discussão” nesta legislatura.
O dinheiro devolvido, contou, foi negociado com o Executivo com sugestões de destino. De uma devolução de R$ 20 milhões feita há dois anos, R$ 3 milhões foram repassados por convênio ao Hospital Bethesda, que ele descreve como o que mais faz cirurgias eletivas no Estado, para montar uma nova UTI e liberar espaço para 73 leitos de enfermaria. “São repasses que a gente conseguiu fazer através das economias da Câmara, sentando, dialogando e conversando com o Executivo”, disse.
No fim da conversa, o pré-candidato falou de rotina. Acorda às quatro e meia da manhã, raramente chega em casa antes das dez ou onze da noite e trabalha de segunda a segunda, com fins de semana ocupados por reuniões comunitárias. “Eu gosto de ser político, eu amo ser político”, declarou. A pré-candidatura só se confirma nas convenções partidárias, marcadas para o fim de julho e o começo de agosto.

































