O palco era o da convenção nacional do PT, no Expo Center Norte, em São Paulo, neste domingo (2). Diante de milhares de militantes reunidos pra oficializar a candidatura de Lula à reeleição, o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad assumiu o microfone pra defender o legado econômico do governo. A frase que resumiu o discurso: o presidente “não fez ajuste no lombo do trabalhador”.
Haddad, hoje candidato ao governo de São Paulo, citou o reajuste do salário mínimo e a ampliação da tabela do Imposto de Renda como provas do argumento. “Reajustou o salário mínimo e a tabela do imposto de renda, garantindo a promessa de campanha de que salário não é renda e quem ganha até 5 mil não paga mais imposto no Brasil”, afirmou, mencionando 15 milhões de brasileiros beneficiados pela isenção, em vigor desde janeiro.
O ex-ministro também mirou nos mais ricos. Segundo ele, o ajuste fiscal foi feito “cobrando de quem não paga, cobrando de quem não contribui com a sua justa parte”. Na sequência, afirmou que a intenção não é “colocar pobre contra rico”, e sim “fazer o rico saber que ele também pertence a uma comunidade” e que precisa “colaborar com o desenvolvimento nacional”.
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Não é porque ele mora na cobertura que ele não tem que pagar condomínio, que era o que acontecia no Brasil até 2022.
O outro lado da conta
Os números oficiais do próprio governo, porém, mostram um quadro mais amplo do que o recorte apresentado no palco. Desde o início do mandato, a gestão Lula criou ou elevou impostos 36 vezes, segundo levantamento que contabiliza as medidas arrecadatórias editadas em pouco mais de três anos, o equivalente a uma nova iniciativa a cada 27 dias.
O resultado apareceu nas contas do Tesouro Nacional: a carga tributária brasileira fechou 2025 em 32,4% do PIB, o maior patamar da história. A fatia do governo federal subiu pra 21,6% do PIB. A arrecadação federal somou R$ 2,9 trilhões no ano passado, recorde da série histórica, com alta real de 3,65%.
Entre as medidas do período estão a elevação do IOF, que atingiu o maior nível de arrecadação em 14 anos, a taxação das compras internacionais de até 50 dólares, a chamada taxa das blusinhas, e a volta dos impostos federais sobre combustíveis. A partir deste ano, dividendos acima de R$ 50 mil mensais passaram a ter retenção de 10% na fonte, e contribuintes de alta renda ficaram sujeitos a uma alíquota mínima progressiva de até 10%.
Mesmo com a receita recorde, as contas públicas seguiram no vermelho. O déficit nominal chegou a R$ 998 bilhões em 2024, o maior da série histórica, e a dívida bruta encerrou aquele ano em 76,1% do PIB. Economistas apontam ainda a desaceleração da atividade: o PIB cresceu 2,3% em 2025, o índice mais baixo desde a pandemia.
Quando o projeto da isenção do IR foi votado na Câmara, aprovado por unanimidade com 493 votos, a oposição apoiou o texto, mas criticou o conjunto da política tributária. O líder do PL, deputado Sóstenes Cavalcante, classificou a medida como um “troco” diante da carga elevada, e o vice-líder da oposição, Capitão Alden, alertou que a taxação dos mais ricos poderia incentivar a fuga de capitais do país.
Largada da campanha
No discurso, Haddad reconheceu que a disputa será dura e apontou os próximos dois meses como decisivos. “Nós temos o desafio de, nos próximos 60 dias, levar a verdade para a população, dizer que o Brasil está sendo reconstruído”, afirmou, acrescentando que o país seguirá “sem baixar a cabeça para presidente de nenhum outro país, sem botar boné de presidente de nenhum outro país”.
A convenção oficializou a chapa Lula e Alckmin pra eleição de 4 de outubro e reuniu, pela primeira vez desde 1989, sete partidos do campo da esquerda em torno de um mesmo nome já no primeiro turno: PT, PV, PCdoB, PSB, PDT, PSOL e Rede. Aos 80 anos, Lula disputa a Presidência pela sétima vez e, se vencer, chegará a 16 anos no cargo, atrás apenas de Getúlio Vargas.












































