A enxada aparece antes de qualquer promessa. Em vídeo divulgado pela campanha, o empresário Antídio Lunelli (MDB), candidato ao Senado por Santa Catarina, surge carpindo uma área de roça e usa o gesto para falar do que pretende fazer caso seja eleito. À Justiça Eleitoral, o mesmo candidato declarou R$ 613.221.298 em bens.
“Na roça a gente aprende cedo: se não arrancar a praga, ela toma conta de tudo”, diz Lunelli na peça.
A metáfora da praga
A comparação é usada para tratar de corrupção, privilégios, desperdícios e mau uso do dinheiro público. Segundo o candidato, esses seriam problemas que precisam ser enfrentados pela raiz, e não apenas na superfície.
No trecho mais longo do vídeo, ele associa a experiência com trabalho braçal ao comportamento que teria em Brasília.
“Tem gente que nunca pegou numa enxada na vida. Eu peguei. Sei o que é trabalhar de sol a sol e sei o valor de cada centavo conquistado com trabalho. E, se precisar, eu levo a enxada para Brasília. Vou levar para limpar as pragas que estão lá, comendo o dinheiro do povo brasileiro.”
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O maior patrimônio da disputa
Os dados do sistema DivulgaCand, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), mostram que Lunelli tem o maior patrimônio declarado entre os candidatos que disputam o governo do Estado e as duas vagas ao Senado em Santa Catarina. O valor informado nesta eleição é de R$ 613.221.298, quase toda a soma declarada pelo conjunto dos concorrentes ao Senado catarinense.
A diferença em relação aos adversários é de ordem de grandeza. Os dois candidatos ao Senado apoiados pelo governo Lula em Santa Catarina, Décio Lima e Afrânio Boppré, somam R$ 4,7 milhões em bens. Os dois nomes do PL, Caroline de Toni e Carlos Bolsonaro, declararam R$ 4,2 milhões.
Os registros da Justiça Eleitoral também permitem acompanhar a curva do patrimônio a cada disputa: R$ 280.449.036 em 2016, quando concorreu à prefeitura de Jaraguá do Sul; R$ 351.032.532 na reeleição, em 2020; R$ 390.033.569 em 2022, ao disputar a Assembleia Legislativa; e R$ 613.221.298 agora, na campanha ao Senado. É uma variação nominal de 119% em dez anos. Entre os bens está um helicóptero avaliado em cerca de R$ 32 milhões.
Os valores apresentados à Justiça Eleitoral seguem critérios fiscais declaratórios informados pelo próprio candidato e não passam por perícia prévia, o que significa que não correspondem necessariamente à riqueza líquida atualizada nem a dinheiro disponível em caixa.
O que diz o candidato
Lunelli afirma que os bens são anteriores à sua entrada na política, em 2016, e que vêm principalmente do Grupo Lunelli, conglomerado têxtil que reúne marcas como Lunender, Lez a Lez e Hangar 33, mantém unidades no Brasil e no Paraguai e emprega mais de 5,2 mil pessoas. O candidato também tem propriedades rurais, criação de bovinos e suínos e participação no setor frigorífico.
“Tenho orgulho de ter construído minha trajetória com muito trabalho.”
Em entrevista ao Jornal Razão, o empresário disse que pretende levar ao Senado a bandeira da redução da carga de impostos e encargos sobre quem trabalha. Segundo ele, um funcionário registrado com salário de R$ 5.000 custa R$ 10.200 à empresa e leva para casa, no máximo, R$ 4.000.
Da lavoura à indústria
Antídio Aleixo Lunelli tem 63 anos, nasceu em Corupá, no Norte catarinense, e é filho de agricultores. Trabalhou na roça até a juventude e, em 1981, abriu uma pequena confecção na garagem de casa, em Jaraguá do Sul. Quarenta e cinco anos depois, o negócio se tornou um dos maiores grupos têxteis do país.
Na vida pública, foi prefeito de Jaraguá do Sul por dois mandatos, entre 2017 e 2022, quando deixou o cargo para disputar uma vaga na Assembleia Legislativa. Eleito, exerce atualmente o mandato de deputado estadual. É a primeira vez que concorre ao Senado, com o número 155.
O que o vídeo não diz
A peça não apresenta propostas legislativas concretas. Não há menção a projetos de lei, prazos, áreas do Orçamento que seriam revisadas ou instrumentos de fiscalização que o candidato pretende usar caso assuma o mandato. O conteúdo se sustenta na trajetória pessoal e na metáfora do trabalho no campo.
Duas vagas em disputa
Lunelli disputa o Senado em dobradinha com o senador Esperidião Amin (PP), que busca a reeleição, dentro da aliança formada por PSD, MDB e Federação União Progressista em torno da candidatura de João Rodrigues (PSD) ao governo do Estado, que tem Carlos Chiodini (MDB) como candidato a vice. O primeiro suplente da chapa ao Senado é o ex-prefeito de Araquari Clenilton Pereira (União).
Cada estado elege dois senadores nesta eleição, com mandato de oito anos. Em Santa Catarina, ao menos 13 candidatos disputam as duas vagas, no mesmo pleito em que o eleitorado define governador, deputados estaduais e federais e presidente da República. A votação está marcada para outubro.














































