Armamento para trabalhadores do campo e para os índios, salário mínimo de R$ 7.500, fim do Supremo Tribunal Federal e dissolução da Polícia Militar. É o que defende o plano de governo que Bruno Pedreiro do PCO, candidato ao Governo de Santa Catarina nas Eleições 2026, protocolou na Justiça Eleitoral junto com o pedido de registro da candidatura. São sete páginas, quinze pontos e nenhuma linha sobre Santa Catarina: em nenhum momento o documento escreve as palavras “Santa Catarina” ou “catarinense”. Leia aqui o PDF original entregue ao TSE.
Registrado no TSE como Brunno Andrade Dias, o candidato do Partido da Causa Operária tem 40 anos, nasceu em São Paulo, declarou ocupação de trabalhador de construção civil e ensino médio incompleto. Declarou R$ 0 em bens à Justiça Eleitoral. Concorre com o número 29, tem Flávio Amaral (PCO) como candidato a vice e está com o registro na situação “aguardando julgamento” no TRE-SC. É a segunda eleição que disputa: em 2024, foi candidato a prefeito de Florianópolis e não se elegeu.
Armas para o campo e para os índios
No capítulo sobre reforma agrária, o programa pede a “demarcação e posse da terra para todos os índios das retomadas” e a “expulsão dos latifundiários que invadiram as terras dos índios”. O bloco se encerra com o item mais direto do documento sobre o tema: “direito de autodefesa e armamento para os trabalhadores do campo e índios”. O termo “índios” é o usado no próprio texto do partido.
A proposta reaparece no capítulo de segurança pública, que defende “dissolução da polícia militar e de todo o aparato repressivo” e a criação de “comitês de autodefesa dos trabalhadores da cidade, do campo e das comunidades de índios”.
Salário mínimo de R$ 7.500 e fim do STF
Os quinze pontos do programa são todos de alcance federal. No primeiro deles, o partido propõe reposição integral de 100% das perdas salariais, aumento emergencial de 50% em todos os salários e um salário mínimo que, pelo cálculo do próprio documento, “hoje não poderia ser menor que R$ 7.500”. O texto pede ainda redução da jornada para 35 horas semanais, cancelamento de todas as privatizações já realizadas, incluindo Eletrobrás e Vale, redução imediata de 50% no preço dos combustíveis e estatização do sistema financeiro.
No capítulo dedicado ao Judiciário, o programa defende o “fim do Supremo Tribunal Federal (STF)”, com eleição de todos os juízes e procuradores pelo voto popular e mandatos revogáveis, além do cancelamento das leis que chama de restritivas, entre elas a Lei da Ficha Limpa e a cláusula de barreira. Há também o cancelamento da concessão da Rede Globo e das demais grandes emissoras. No campo internacional, o texto defende Cuba, Nicarágua e Venezuela e declara apoio a Palestina, Irã e Rússia.
O mesmo PDF em seis estados
O documento entregue em Santa Catarina não é uma versão adaptada de um programa nacional. É o programa nacional. O Jornal Razão baixou os planos de governo dos candidatos do PCO ao governo de São Paulo, Rio Grande do Sul, Paraná, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Bahia no sistema DivulgaCandContas, do Tribunal Superior Eleitoral. Os sete arquivos são o mesmo arquivo, idênticos byte a byte, com a mesma assinatura digital de conteúdo. Nenhum dos estados recebeu uma linha própria.
A última página do documento fecha com a assinatura: “Partido da Causa Operária, São Paulo, agosto de 2026”.
Nenhum dos quinze pontos trata de BR-101, portos, enchentes no Vale do Itajaí, Celesc, Casan, Santur, Alesc, Polícia Militar catarinense, saúde estadual ou qualquer competência específica de um governo de Santa Catarina.
“Não participa para fazer promessas”
O próprio programa antecipa a crítica e responde a ela logo na abertura, num subtítulo em negrito: “O PCO não participa das eleições para fazer promessas”. O texto explica que, para o partido, “as eleições são uma tribuna (e apenas mais uma) de propaganda das reivindicações fundamentais da população explorada” e que “as conquistas do povo trabalhador não virão pelo voto”.
“Apresentamos nas eleições o mesmo programa de luta que defendemos nas lutas gerais dos explorados, um programa próprio da classe trabalhadora.”
Mais adiante, o documento define o que chama de lema central da campanha: “a defesa da Revolução, do Governo Operário e do Comunismo”.
Como estão os outros sete
São oito as candidaturas registradas ao Governo de SC nestas eleições, e todas as oito entregaram plano de governo ao TSE. Nos documentos de Laís Chaud (UP), João Rodrigues (PSD), Marcelo Brigadeiro (Missão), Jorginho Mello (PL), Marcus Sodré (PSTU) e Ralf Zimmer (PRD), as menções a “Santa Catarina” e “catarinense” variam de 34 a 84 ao longo do texto. O plano de Gelson Merísio (PSB) foi enviado como documento digitalizado, o que impede a contagem automática de palavras. O plano de governo de Jorginho Mello (PL), candidato à reeleição, dedica quase metade das 22 páginas a uma retrospectiva da gestão atual e cita o estado 42 vezes. Já o plano de Marcelo Brigadeiro (Missão) é o mais extenso do grupo, com 111 propostas em 18 áreas, e o plano de Gelson Merísio (PSB) é o mais longo, com 74 páginas e 14 missões. O plano de João Rodrigues (PSD) é o único que projeta receita ano a ano e chega a R$ 40,5 bilhões de investimento no quadriênio.
O que diz a lei
A entrega do plano de governo não é opcional. A Lei das Eleições (9.504/1997) determina, no artigo 11, que o pedido de registro de candidatura a prefeito, governador e presidente venha acompanhado das propostas defendidas pelo candidato. A norma exige o documento, mas não estabelece conteúdo mínimo, extensão nem obrigação de que trate de temas do estado disputado, o que torna o programa nacional do PCO formalmente regular perante a Justiça Eleitoral.
O registro de Bruno Pedreiro do PCO segue aguardando julgamento no Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina, assim como os das outras sete candidaturas ao Governo do Estado. A ficha completa da candidatura, com trajetória eleitoral e evolução patrimonial, está no especial Eleições 2026 do Jornal Razão. O plano de governo na íntegra (PDF) e a candidatura completa no DivulgaCandContas estão disponíveis no site do TSE.
Esta é a primeira reportagem de uma série do Jornal Razão sobre os planos de governo das oito candidaturas ao Governo de Santa Catarina. Leia também a segunda, a terceira a quarta e a quinta reportagens da série.
































