Um presídio de segurança máxima batizado de “Inferno Catarina”. Um programa de monitoramento de criminosos chamado “Quem Perdoa é Deus”. Uma transmissão ao vivo das atividades do governo sob o nome de “Grande Irmão Catarina”. São propostas do plano de governo que Marcelo Brigadeiro, candidato do Partido Missão, entregou à Justiça Eleitoral para disputar o Governo de Santa Catarina. Leia aqui o PDF original entregue ao TSE.
Registrado no TSE como Marcelo Marcel Franco José da Silva, o candidato tem 44 anos, declarou ocupação de empresário e ensino superior completo. Concorre com o número 14, tem o Coronel Rodrigues como candidato a vice e declarou R$ 1.831.261 em bens à Justiça Eleitoral. O Missão concorre sem coligação. O registro está na situação “aguardando julgamento” no TRE-SC. É a segunda vez que disputa uma eleição: em 2018, foi candidato a primeiro suplente de senador pelo PSL e não se elegeu.
O documento se chama “Plano de Governo B-14” e é o mais detalhado entre os oito entregues pelas candidaturas ao Governo do Estado: são 111 propostas numeradas, distribuídas em 18 áreas. Logo na abertura, o candidato se apresenta: “Não sou político profissional. Minha trajetória foi construída no esporte, no empreendedorismo e na vida real.”
Segurança em cinco frentes
O capítulo de segurança pública é o que concentra os nomes mais chamativos. O “Inferno Catarina” seria um presídio de segurança máxima construído no Meio-Oeste catarinense, destinado a lideranças de organizações criminosas e presos de alta periculosidade, que ficariam “isolados e monitorados 24h por dia”.
A “Operação Retomada” prevê integrar Polícia Militar, Polícia Civil, Polícia Penal, Polícia Científica e os setores de inteligência para “eliminar o controle das facções criminosas em território catarinense”.
“Criação do Programa ‘Quem Perdoa é Deus’, destinado ao monitoramento permanente de criminosos de alta periculosidade e reincidentes, observados os critérios legais e as garantias constitucionais.”
É assim, em uma única linha, que o plano descreve o programa. Não há detalhamento sobre a tecnologia ou a base legal específica que seriam usadas.
Completam o bloco o projeto “SC Protege sua Polícia”, que garantiria assistência jurídica da Procuradoria-Geral do Estado a policiais processados por atos praticados no exercício da função; a implantação de reconhecimento facial em todo o território catarinense; e parcerias público-privadas para construir e administrar presídios, com unidades produtivas em que os presos trabalhariam de forma remunerada para ajudar a custear a própria manutenção.
Privatizar Celesc e Casan
O eixo de desestatização é o mais direto do plano. Ele propõe privatizar estatais que classifica como “eficientes, superavitárias ou ainda úteis”, citando nominalmente Celesc e Casan. E propõe extinguir ou liquidar as que considera “deficitárias, ineficientes ou obsoletas”, citando Cohab, Santur e Codesc. O texto também prevê leiloar terrenos públicos e ampliar o programa de PPPs e concessões do estado.
Na gestão da máquina, o plano promete reduzir o número de secretarias estaduais, cortar 25% dos cargos comissionados, diminuir em 10% as despesas administrativas e extinguir os escritórios de atração de investimentos da Invest SC nos Estados Unidos e na China. Também propõe leiloar a área da Casa d’Agronômica, residência oficial do governador em Florianópolis, e usar o dinheiro da venda para concluir a PPP do Complexo Hospitalar de Santa Catarina.
Governo transmitido ao vivo
No capítulo de combate à corrupção está o “Grande Irmão Catarina”: as principais atividades da gestão seriam transmitidas ao vivo, em formato IRL, em plataforma gratuita, “para que toda a população possa acompanhar as ações do governo”.
O mesmo eixo prevê a criação da Diretoria de Inteligência de Combate à Corrupção Pública, órgão permanente para rastreamento e auditoria do uso de recursos em contratos, licitações e emendas parlamentares, e um portal de transparência em tempo real que incluiria os gastos com cartões corporativos.
Cirurgia em 60 dias
Na saúde, a proposta central é o programa “Tempo é Vida”: qualquer cirurgia indicada pelo sistema público teria de ser realizada em no máximo 60 dias, inclusive por meio da contratação da capacidade ociosa de unidades privadas em horários de menor demanda. O plano também prevê retomar e licitar a PPP do Complexo Hospitalar de Santa Catarina, em parceria com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, unificando as operações do Hospital Celso Ramos, do Nereu Ramos, da Maternidade Carmela Dutra e do Hospital Infantil. Segundo o documento, o projeto está pronto e “foi abandonado pelo governo atual”.
Rua com porta de saída
A assistência social recebe um dos capítulos mais estruturados. O plano propõe criar um “Hub Socioassistencial” nos principais polos de concentração de população em situação de rua, com permanência máxima de 72 horas, funcionando como porta de entrada obrigatória da rede. A partir da triagem, o documento define três destinos: o programa “De Volta ao Lar”, que reconduziria às cidades de origem as pessoas sem vínculo com Santa Catarina; o encaminhamento para tratamento de dependência química nas modalidades voluntária, involuntária e compulsória; e a inserção em comunidade terapêutica seguida de frente de trabalho remunerada.
O texto veda expressamente o uso do Fundo de Assistência Social em ações que, na avaliação do plano, “estimulem o assistencialismo, a mendicância e a permanência na rua”, e prevê criar um registro estadual de pessoas em situação de rua.
Do saneamento ao turismo
Na educação, o plano propõe tempo integral em todas as escolas estaduais até 2030, PPP para operação e manutenção dos prédios escolares, um Programa de Meritocracia Escolar com metas e premiação para as unidades de melhor desempenho e educação empreendedora no currículo.
No meio ambiente, promete elaborar e aprovar na Assembleia Legislativa a Lei de Regionalização do Saneamento e universalizar o saneamento básico em Santa Catarina até 2033, tema que a mensagem inicial classifica como “a vergonha nacional que são os índices de saneamento no estado”.
Em infraestrutura, aparecem o apoio à iniciativa privada para construção de ferrovias, a cobrança ao Governo Federal pela duplicação das BRs 153, 280, 282 e 470, a duplicação ou quadruplicação de trechos prioritários de rodovias estaduais e a criação de novos pontos de travessia entre Itajaí e Navegantes, com o objetivo declarado de “acabar com o monopólio e reduzir o preço das passagens”.
Na proteção contra desastres, o plano cria um Fundo Estadual Permanente de Resiliência, o programa “Barragens Seguras” para controle de cheias no Vale do Itajaí e o “SC Alerta”, descrito como a maior rede estadual de monitoramento climático do país, com uso de inteligência artificial. No turismo, o “Turismo 365” tem a meta de dobrar o número de turistas ao longo do ano, e há propostas específicas para São Carlos, no Oeste, a rodovia Caminhos do Mar entre Passos de Torres e Laguna, e a estrada Dona Francisca, em Joinville.
Críticas ao governo atual
O documento faz referências diretas à gestão que termina em dezembro. Além do Complexo Hospitalar “abandonado pelo governo atual”, cita o programa Geração TEC como “abandonado pelos governos anteriores” e afirma, nas palavras finais, que “a má gestão dos últimos governadores trouxe desafios para os próximos anos”.
São oito as candidaturas registradas ao Governo de Santa Catarina nestas eleições, e todas entregaram plano de governo ao TSE. O plano do Missão é o mais extenso da série até aqui: o documento de Jorginho Mello (PL), candidato à reeleição, reúne 36 compromissos, dos quais 34 são de continuidade, e o plano do PCO tem sete páginas e não cita Santa Catarina uma única vez. Em extensão, quem supera o Missão é o plano de Gelson Merísio (PSB), com 74 páginas e 14 missões estratégicas. Em compromisso financeiro, o plano de João Rodrigues (PSD) é o único a projetar receita ano a ano e a fixar R$ 40,5 bilhões de investimento no quadriênio. Todos os registros seguem aguardando julgamento no Tribunal Regional Eleitoral. A ficha completa da candidatura, com trajetória eleitoral e evolução patrimonial, está no especial Eleições 2026 do Jornal Razão, e o plano de governo na íntegra (PDF) está disponível no site do TSE.
Esta é a terceira reportagem de uma série do Jornal Razão sobre os planos de governo das oito candidaturas ao Governo de Santa Catarina. Leia também a primeira, a segunda a quarta e a quinta reportagens da série.
































