A candidata a deputada estadual Carla Z Pereira (PODE, nº 20055) afirma que chegou ao 22º dia de campanha sem conseguir colocar no ar um único anúncio nas plataformas da Meta e que, mesmo depois de obter uma decisão judicial favorável, recebeu da empresa uma saída inesperada: mandar correspondência para o departamento jurídico da companhia, num endereço na Califórnia, nos Estados Unidos.
“ENCAMINHE TODAS AS COMUNICAÇÕES PARA META LEGAL”
A resposta está num e-mail de 1º de setembro, assinado pela equipe de suporte a anunciantes da Meta e exibido pela própria candidata em vídeo. O texto informa que aquele canal “não lida com nenhum tipo de solicitação referente a processos ou decisões judiciais” e orienta que, para falar com o departamento jurídico, a candidata encaminhe todas as comunicações para “Meta Legal” no endereço principal da empresa: Meta Platforms, Inc., Attn: Legal Department, 1 Meta Way, Menlo Park, CA 94025, Estados Unidos.
“Agora, no último e-mail, simplesmente informou que, como estamos processando a empresa, o suporte deverá ser feito por correspondências no endereço da Meta nos Estados Unidos”, disse a candidata em vídeo gravado em 7 de setembro e publicado no dia seguinte. “Isso ultrapassou todos os limites.”
Antes disso, segundo ela, a empresa já havia encerrado o atendimento por chat e exigido que tudo passasse a tramitar por e-mail. “A Meta opera no Brasil, fatura bilhões com os brasileiros, tem milhões de usuários brasileiros. Mas quando uma candidata brasileira exige que seus direitos sejam respeitados, a resposta é: escreva para os Estados Unidos”, afirmou.
22 DIAS, UMA DECISÃO JUDICIAL E NENHUM ANÚNCIO NO AR
A contagem começa em 16 de agosto, primeira data em que a propaganda eleitoral paga na internet é permitida. Carla conta que abriu o CNPJ de campanha, protocolou a documentação, submeteu tudo à conferência de dois advogados e configurou as contas com antecedência justamente para não perder a largada. “Nós configuramos devidamente, procuramos o suporte, fomos atrás de respostas, recorremos à Justiça, conseguimos uma decisão judicial favorável”, afirmou.
O conteúdo barrado, na versão da campanha, era um vídeo simples de apresentação. A decisão judicial fixou prazo para a empresa se manifestar, mas o bloqueio seguiu de pé e o canal de contato foi ficando mais distante a cada etapa: primeiro o chat, depois o e-mail, agora a correspondência internacional.
Nos comentários do próprio vídeo, o perfil verificado @narojunior escreveu que o suporte pedia “coisas randômicas e aleatórias”, que foram atendidas, e chegou a informar que não havia nada de errado com a conta. A orientação seguinte, segundo esse relato, foi apagar todos os anúncios e reiniciar a plataforma, o que piorou a situação, porque a conta deixou de conseguir vincular o rótulo que a Meta exige para publicidade de conteúdo político. “Em momento algum recusamos orientações do suporte”, escreveu.
“O BRASIL NÃO É UMA NAÇÃO DE SEGUNDA CLASSE”
A data do desabafo não foi escolhida por acaso. O vídeo foi gravado no 7 de Setembro, e a candidata amarrou o caso ao feriado da Independência. “Até onde uma empresa estrangeira pode ignorar as leis, as instituições e os direitos dos brasileiros dentro do nosso próprio país?”, perguntou. “Independência também é soberania. Liberdade também é fazer valer os nossos direitos. E empresa nenhuma, por maior que seja, está acima das leis brasileiras.”
Para ela, o que está em jogo ultrapassa o impulsionamento de um vídeo. “Estamos falando do meu direito de fazer campanha em igualdade de condições e, principalmente, do respeito à decisão da Justiça brasileira e à soberania do nosso país”, disse. E completou: “O Brasil não é uma nação de segunda classe”.
Na legenda da publicação, a candidata fez questão de separar a cobrança de um ataque à plataforma. Contou que usa os produtos da empresa desde o tempo em que o serviço ainda se chamava The Facebook e disse não querer “demonizar a Meta”, mas cobrar “profissionalismo, seriedade, respeito”. “A responsabilidade de uma empresa como a Meta é tão grande quanto o seu tamanho”, escreveu.
“NÃO É APENAS SOBRE A MINHA CAMPANHA”
Carla afirma que o problema não é isolado. “Tenho relatos de problemas envolvendo outros candidatos, empresários e inúmeros usuários da plataforma da Meta, e todos com a mesma queixa”, disse, listando “completo descaso, respostas evasivas, falta de transparência e desrespeito com os usuários e anunciantes”. Nos comentários da publicação, feita com marcação de Santa Catarina, a palavra que mais se repete entre eleitores, empresários e advogados é “absurdo”.
O caso já havia sido registrado pelo Jornal Razão em 28 de agosto, quando o impedimento somava 12 dias e ela resumia a situação em uma frase: “Eu estou sendo impedida, eu estou sendo silenciada”. De lá para cá, o bloqueio quase dobrou de tamanho, a eleição ficou mais perto e a resposta da empresa mudou de endereço, não de conteúdo.
SEM CARRO DE SOM, SEM OUTDOOR E SEM IMPULSIONAMENTO
O peso do bloqueio cresce num modelo de campanha que já nasceu restrito. Sem carro de som, sem placas e sem outdoor, a disputa migrou quase inteira para o digital, onde o impulsionamento virou a principal ferramenta para chegar ao eleitor que não segue o perfil. Faltam menos de um mês para o dia 4 de outubro, e a estreante nas urnas segue dependendo apenas do alcance orgânico e do compartilhamento espontâneo.
“Compartilhe esse vídeo, por favor”, pediu na legenda. “Preciso da sua ajuda para que esse vídeo seja visto e eu consiga realizar minha mensagem e campanha em igualdade de condições antes da eleição.” No fecho do vídeo, foi direta: “Nós não vamos nos calar. Queremos uma resposta, queremos respeito e queremos que a lei brasileira seja cumprida”.
Não há manifestação pública da Meta sobre o caso até a publicação desta reportagem. O Jornal Razão registra aqui a versão da candidata.























