A mãe que chamou a Polícia Militar em Jaraguá do Sul na noite de sábado (12), na ocorrência que terminou com a suplente de Décio Lima (PT) ao Senado presa, respondeu neste domingo (13) a quem passou o dia dizendo que ela não existe. Em vídeo enviado ao Jornal Razão, ela aparece ao lado do filho segurando o laudo médico da criança. “Pra quem disse que eu não tenho filho, meu filho tá aqui, ó. E o laudo tá aqui. Ok?”.
O documento, ao qual a reportagem teve acesso, é um laudo emitido pelo sistema do Conselho Regional de Medicina de Santa Catarina, assinado digitalmente por um pediatra com registro ativo no CRM-SC e com QR code de validação. O laudo atesta que a criança foi diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (CID 10 F84.0 e CID 11 6A02.4), nível 1 de suporte, após avaliação com neuropediatra e psicóloga, aplicação de testes específicos e acompanhamento pelo mesmo médico desde os 10 meses de idade.
Segundo o laudo, o menino apresenta atraso no desenvolvimento da fala, dificuldade de interação social, foco exagerado e atípico em algumas brincadeiras e movimentos repetitivos percebidos desde o segundo ano de vida. O documento aponta que ele necessita de terapias complementares e de “algum grau de suporte para realizar as atividades da vida diária, em casa, na escola e terapias em clínicas de profissionais especializados”. O Jornal Razão não divulga o rosto da criança nem o documento na íntegra para preservar o menor.
A prova chega depois de um domingo em que a existência da mãe virou tese de campanha. A página Floripa Discover, do estrategista político Vitor Roque, publicou que “não foi o relato de uma mãe com um filho autista que motivou a presença da Polícia Militar”, que “essa situação não consta em nenhum dos boletins de ocorrência” e que “o próprio batalhão confirmou que nenhuma ocorrência envolvendo essa suposta mãe foi registrada naquela noite”.
Horas depois, Décio Lima repetiu o argumento num carrossel chamado “A verdade”. No card “Narrativa falsa”, o candidato ao Senado afirma que “uma notícia falsa que circula na internet” diz que a ocorrência começou com uma mãe de filho autista e que a informação “não consta em nenhum boletim de ocorrência, não foi citada em nenhum momento pelos policiais na abordagem e foi desmentida pelo próprio batalhão em relato para a Fernanda”. No card seguinte, acusa veículos catarinenses, entre eles o Jornal Razão, de serem “financiados pelo governo de Santa Catarina” para “vender narrativas falsas sobre o caso”.
Os fatos apontam o contrário. O registro da ocorrência, ao qual a reportagem teve acesso, diz no terceiro parágrafo que a solicitante informou à guarnição ter um filho com transtorno do espectro autista e que um carro havia parado em frente à casa dela com o som em volume excessivamente alto, deixando a criança extremamente agitada. O áudio da ligação dela ao 190, feito antes de qualquer viatura sair, registra: “Eu pedi pra ele baixar o som. Meu filho é autista”. Ela diz ainda estar “com meu filho de 5 anos em casa” e que “o rapaz me fez ameaça verbal”.
A moradora mora em Jaraguá do Sul há seis meses, nunca tinha chamado a polícia e não tem filiação partidária. Segundo ela, o carro parou do outro lado da rua com música eletrônica alta, de vidro fechado, e o filho começou a ficar agitado porque não conseguia mais ouvir a TV. Ela bateu no vidro e pediu para abaixar o som. O homem saiu do carro xingando, “o menos ofensivo que ele me chamou foi de conservadora radical”, fez menção de agredi-la e, quando ela voltou para anotar a placa, correu na direção dela dizendo “que agora eu ia ver”.
A partir do chamado, a guarnição foi até a festa na mesma rua, prendeu o homem por desacato e a ocorrência escalou até a prisão de Fernanda Klitzke, segunda suplente na chapa de Décio, e de uma terceira pessoa. A versão da chapa petista e a ligação da deputada Ana Paula Lima (PT) ao presidente Lula já foram publicadas pelo Jornal Razão.
A mãe conta que durante a confusão foi chamada de “mentirosa” e “safada” pelo grupo, que uma das mulheres citou o número da casa dela e disse “você vai ver só”, e que uma live gravada por integrantes da festa mostrou o portão e a residência. “Quem é que gosta de ter a sua casa exposta e você tem uma criança pequena? Ela quer incitar que alguém venha na minha casa fazer alguma maldade para mim ou para o meu filho?”.
Agora, além de ameaçada na porta de casa, ela precisou provar publicamente que o filho existe e que o diagnóstico é real. O relato do batalhão que Décio Lima diz ter recebido desmentindo a mãe segue sem ser apresentado. Nem o candidato nem a Floripa Discover corrigiram os posts até a publicação desta reportagem.























