O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu em discurso nesta sexta-feira (11) que a carne e o café estão caros e, no lugar de repetir a promessa da picanha, fez um elogio à produção de ovos do país. “Muitas vezes ele vai no açougue, eu digo todo dia, nós vamos voltar a comer picanha. É tudo que o povo quer. O mercado e as coisas estão caras. Eu sei, a carne está cara, o café está caro. O ano passado o ovo estava nas nuvens”, disse.
Na sequência, o presidente parou o discurso para fazer uma pergunta à plateia. “Sabe quantos ovos as galinhas brasileiras botam por ano? Você tem noção de quantos ovos as nossas galinhas botam por ano? 60 bilhões de ovos. A nossa galinha bota 60 bilhões e 99% é consumido aqui no Brasil. Significa que nós gostamos de ovo pra caramba.”
Foi então que Lula apresentou a receita para quem chega ao mercado e não consegue levar nenhum dos dois. “Se não tem carne, a gente come ovo. Se não tem ovo, a gente come carne. Mas como não tem os dois, a gente come o que eu comia quando eu levava marmita: feijão e arroz puro, porque eu não tinha mistura”, afirmou.
Da picanha ao ovo em quatro anos
A picanha virou símbolo da campanha de 2022, quando Lula prometeu que o brasileiro voltaria a comer carne e a tomar cerveja. A promessa foi repetida ao longo do terceiro mandato, inclusive em março de 2025, quando o presidente afirmou em Sorocaba, no interior paulista, que o preço da carne iria baixar e que a população “vai voltar a comer picanha”.
As galinhas já tinham aparecido nos discursos dele antes, mas em outro papel. Em cerimônia em Campo do Meio, em Minas Gerais, no mesmo período, Lula cobrou uma explicação para a disparada do ovo e disse que o produtor não era o culpado. “Galinha não está cobrando caro. Eu ainda não encontrei uma galinha para pedir aumento do ovo, a coitadinha sofre, ainda canta quando põe ovo, mas o ovo está saindo do controle”, declarou na ocasião.
A “sensação” de agosto
O reconhecimento desta sexta-feira contrasta com o que o próprio presidente disse três semanas antes. Em 23 de agosto, em entrevista à TV Record conduzida pela jornalista Mariana Godoy, Lula tratou a alta percebida nos supermercados como uma questão de comportamento do consumidor.
“Por que a sensação está cara? Está caro porque mudou o nosso hábito, porque os juros estão caros e porque estamos comprando mais coisa, utilizando mais coisa”, afirmou naquela entrevista. Ele reconheceu que a taxa Selic segue alta, mas emendou que “a gente não pode aceitar mentira” quando o assunto é o desempenho da economia, e defendeu a criação de um programa de educação financeira nas escolas.
A palavra “sensação” voltou a circular nas redes assim que o vídeo do discurso desta sexta foi publicado, com as duas falas colocadas lado a lado. Apoiadores do governo argumentam que o presidente distinguia inflação medida por índice de percepção individual, e lembram as medidas enviadas para zerar impostos sobre itens da cesta básica.
Cesta básica e o poder de compra
No mesmo discurso, Lula usou a cesta básica como régua de comparação entre governos. “No meu governo passado, o salário mínimo dava para comprar duas cestas básicas e meia. Quando eu voltei, estava comprando apenas uma cesta básica e meia. Agora já está duas, zero um. E eu quero chegar ao salário mínimo comprando muito mais cesta básica”, disse.
O presidente fechou o trecho com uma justificativa pessoal e uma lembrança do educador Paulo Freire. “Porque se tem uma coisa que eu prezo na vida é uma menina e um menino de bucho cheio”, afirmou. “Paulo Freire dizia pra mim: ô Lula, a comida é uma coisa fantástica. Não tem ninguém feio se tiver com a barriga cheia. Não tem ninguém não inteligente se tiver com a barriga cheia.”
Entre as medidas adotadas pelo governo para tentar segurar os preços, está a redução temporária a zero do imposto de importação de produtos como café, azeite, óleo, milho, sardinha, biscoitos, macarrão e carnes. A lógica é ampliar a oferta interna e forçar concorrência, mas o repasse ao consumidor depende do câmbio, do frete, das margens do varejo e da oferta internacional.
Na reforma tributária, a cesta básica nacional foi desenhada com alíquota zero sobre o consumo, com aplicação prevista para 2027. O desconto só chega ao caixa do supermercado se for absorvido pela cadeia de produção e distribuição, em vez de ser compensado por custos ou margens.
A distância entre o índice oficial e o carrinho de compras é o que sustenta a disputa. O IPCA, calculado pelo IBGE, mede a variação média de uma cesta de produtos e serviços e pode desacelerar sem que os preços voltem ao patamar anterior. Uma família que concentra o gasto nos itens que mais subiram sente uma inflação maior do que a divulgada. Lula concorre à reeleição em outubro, e o preço da comida é o indicador que o eleitor confere sozinho, todo mês, sem precisar de relatório.
























