Uma discussão iniciada no plenário da Câmara de Vereadores de Joinville terminou com sessão suspensa, troca de ofensas e registro de boletim de ocorrência na Polícia Civil. O episódio envolve os vereadores Cleiton Profeta (PL) e Neto Petters (Novo) e teve como pano de fundo denúncias sobre o atendimento no Hospital Municipal São José durante a quarta-feira de Cinzas.
A tensão começou quando Neto Petters questionou, da tribuna, a autenticidade de prints divulgados por Profeta nas redes sociais. As imagens mostravam conversas de WhatsApp sobre supostas falhas no funcionamento do hospital. Petters afirmou que haveria inconsistências nos horários das mensagens e classificou a publicação como manipulada. Profeta negou qualquer adulteração e disse que apenas “resumiu o conteúdo”, sem alterar o contexto.
O debate rapidamente saiu do campo técnico. Em vídeo divulgado pelos próprios parlamentares, os dois aparecem discutindo cara a cara. Em determinado momento, Profeta reage a provocações com a frase “Me obriga! Me obriga… seu bunda mole!”. O presidente da Casa, Diego Machado, suspendeu a sessão para conter os ânimos.
O que parecia encerrado no plenário ganhou novo capítulo na reunião interna convocada após a suspensão. Segundo boletim de ocorrência registrado na 1ª Delegacia de Polícia de Joinville, o vereador Henrique Deckmann, de 65 anos, relatou ter sido alvo de avanço físico e ofensas por parte de Cleiton Profeta dentro da chamada “Sala VIP” da Câmara.
A reunião havia sido convocada pelo presidente com o objetivo de reforçar a necessidade de respeito, diálogo e urbanidade entre os parlamentares, após sucessivos embates em plenário. A intenção, conforme relatos, era alinhar condutas e evitar novas interrupções dos trabalhos legislativos. Foi nesse ambiente reservado, apenas com vereadores presentes, que a situação teria escalado novamente.
De acordo com o boletim de ocorrência, a situação teria se agravado quando Cleiton Profeta se levantou de forma abrupta, afirmando que não permaneceria na reunião caso o tema fosse a cobrança por postura e decoro. Ao ser instado por Henrique Deckmann a permanecer para ouvir os demais parlamentares, Profeta teria elevado o tom de voz, gesticulado de forma incisiva e avançado fisicamente em direção ao colega, aproximando-se de maneira intimidatória e reduzindo a distância entre ambos dentro da sala.
“Neste momento, enquanto todos estavam sentados em reunião, o vereador Profeta levantou-se bradando que não ficaria na reunião se o tema fosse este, ao que a vítima, vereador Henrique, levantou-se também e de forma firme disse ao Sr Profeta que ficasse sim para ouvir os seus pares e que o tema era muito importante e precisava de uma solução. Ao ouvir a fala do vereador Henrique, o vereador Profeta avançou fisicamente em direção o vereador Henrique, praticamente colando seu rosto contra a vítima, que só não foi encostado naquele momento pois recuou, andando para trás enquanto o ofensor prosseguia com o avanço, até encurralar a vítima contra a parede, enquanto berrava: “vai fazer o que, velho gaga?” “Não tenho medo de você seu velho, nem destes covardes aqui”, além de outras ofensas, sempre de forma rispida e intimidatória. A vítima acredita não ter sido fisicamente agredido em razão da intervenção do vereador Lucas Souza, que antevendo a agressão iminente, colocou seu braço entre o ofensor e a vítima, freando o avanço intimidatório do ofensor.”
Deckmann afirma que ficou abalado e precisou recorrer a medicação para continuar na sessão, na qual exercia a função de secretário da Mesa Diretora. Ele declarou que ainda decidirá se formalizará representação criminal, dentro do prazo legal de seis meses.
Em nota, a assessoria de Deckmann afirma que os direitos do parlamentar, inclusive como pessoa idosa, foram violados, citando o Estatuto da Pessoa Idosa. O texto também sustenta que a versão divulgada por Profeta, segundo a qual ele teria sido a parte agredida, “não corresponde à verdade”.
Cleiton Profeta, por sua vez, nega ter manipulado prints e afirma que sofre tentativa coordenada de descredibilização. Nas redes sociais, ele sustenta que apenas sintetizou conversas e que a denúncia sobre o hospital permanece válida.
O episódio expõe um desgaste já perceptível no Legislativo joinvilense. Nos bastidores, vereadores relatam incômodo com a escalada do tom em plenário e com a exposição constante de conflitos nas redes sociais. Para parte dos parlamentares, o embate ultrapassou o debate político e passou a afetar diretamente a imagem institucional da Câmara.
A Polícia Civil deve apurar os fatos narrados no boletim de ocorrência. Enquanto isso, a Câmara de Joinville tenta retomar a normalidade dos trabalhos sob o impacto de um episódio que reacendeu o debate sobre limites, postura e responsabilidade no exercício do mandato.