O candidato a deputado federal Darci de Matos (Republicanos) montou a maior folha de pagamento de campanha de Santa Catarina. Ele já declarou à Justiça Eleitoral 146 contratos com pessoas físicas, que somam R$ 1.047.500, e só na rubrica de “atividades de militância e mobilização de rua” são 86 contratados, a maioria por exatos R$ 5 mil cada. Os R$ 431 mil declarados nessa categoria equivalem a 87% de tudo o que os candidatos catarinenses registraram em militância paga até agora. O segundo colocado do estado, Mário Pinto da Motta Junior, declarou R$ 31.940, treze vezes menos.
A operação é bancada quase inteiramente por dinheiro público. A campanha arrecadou R$ 2.049.500, dos quais R$ 2 milhões vieram do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, o chamado fundão, repassados pela Direção Nacional do Republicanos em 27 de agosto, em duas remessas no mesmo dia, uma de R$ 1,3 milhão e outra de R$ 700 mil. Um dia antes de o dinheiro entrar, em 26 de agosto, a campanha havia assinado 114 dos 146 contratos. As doações de pessoas físicas somam R$ 49,5 mil, de dez doadores. Os dados constam da prestação de contas divulgada pelo TSE e foram levantados pelo Jornal Razão na base oficial do tribunal, atualizada nesta quinta-feira (3).
Um organograma com salário tabelado
Os contratos declarados desenham uma estrutura com cargos e valores definidos, semelhante à folha de uma empresa. No topo estão oito coordenadores regionais, com contratos de R$ 10 mil a R$ 20 mil. O teto da folha é o de Ederson Giovani Gava, contratado como coordenador regional de Joinville, reduto eleitoral do candidato, seguido por Lindomar Lindner, com R$ 17 mil.
Abaixo vêm 12 coordenadores locais, com contratos de R$ 7 mil a R$ 16 mil, num total de R$ 156 mil. A camada mais numerosa da chefia é a dos supervisores: são 25 contratos, de R$ 5 mil a R$ 12 mil, sendo que 19 deles estão em valores de R$ 10 mil redondos. A rubrica soma R$ 238 mil.
Completam a estrutura seis supervisores de panfletagem, de R$ 5 mil a R$ 9 mil, três panfleteiros e o pessoal de escritório: Antonio Carlos Schiavo como administrador financeiro, por R$ 14 mil, Vanessa Vanderlinde para atividades de marketing, por outros R$ 14 mil, além de dois auxiliares administrativos, uma secretária e serviços gerais. Somada, essa folha de “despesas com pessoal” custa R$ 616,5 mil em 60 contratos, mais de quatro vezes o que declarou o segundo colocado do estado na rubrica, o deputado Pedro Uczai, com R$ 145 mil.
Na base da operação estão os 86 militantes de rua. Desses, 83 têm contratos de exatos R$ 5 mil, dois de R$ 6 mil e um de R$ 4 mil. Todos os 146 contratos foram declarados como “contrato de prestação de serviço”, formato previsto na legislação para a contratação de pessoas físicas em campanha e que dispensa nota fiscal. A comprovação de que cada serviço existiu é exigida pela Justiça Eleitoral no julgamento das contas, que ocorre depois da eleição. O extrato completo com todos os contratos está disponível no portal do Jornal Razão.
R$ 82 mil repassados a candidato do próprio partido
Parte do dinheiro que entrou pelo fundo eleitoral saiu da campanha em forma de doação. Em 2 de setembro, Darci declarou o repasse de R$ 82 mil a Eduardo Cesconetto de Souza, candidato a deputado estadual pelo Republicanos, que concorre com o número 10220, o mesmo do federal com um zero a mais, combinação usada em campanhas casadas entre candidatos das duas disputas. É a maior despesa que a prestação de contas registra como efetivamente paga.
Fora a folha de pessoal, os maiores gastos declarados são R$ 70 mil em produção de vídeo e marketing digital, R$ 24 mil em impulsionamento de conteúdo em redes sociais, R$ 29,6 mil em material impresso e R$ 9 mil no aluguel do comitê. O total das despesas contratadas chega a R$ 1.278.961, o terceiro maior de Santa Catarina, atrás do governador Jorginho Mello, que disputa a reeleição, e da deputada Caroline de Toni.
Contratado não é o mesmo que pago
Há uma distância grande entre o que a campanha declara ter contratado e o que declara ter pago. Do R$ 1,27 milhão em despesas contratadas, R$ 285.961 aparecem na base do TSE como quitados. Na folha de pessoal, os pagamentos registrados somam R$ 58,5 mil. Na militância de rua, a maior rubrica de todas, apenas R$ 5 mil constam como pagos até o momento. O descompasso entre contratação e pagamento é comum nas campanhas catarinenses nesta fase, como mostra o painel de contas de campanha do Jornal Razão, mas em nenhuma outra envolve tanto dinheiro.
Os registros também trazem inconsistências pontuais. Um contrato de supervisão de panfletagem, de R$ 5 mil, aparece datado de 8 de setembro, cinco dias à frente da data em que a base foi consultada. Em 32 dos 146 contratos, o nome digitado pela campanha não coincide exatamente com o cadastro do CPF na Receita Federal, o que na maior parte dos casos indica erro de digitação.
Do PSD ao Republicanos
O investimento pesado do partido marca uma nova fase na carreira do político. Depois de cinco eleições seguidas pelo PSD, entre 2014 e 2022, Darci de Matos disputa 2026 pelo Republicanos, sigla que despejou os R$ 2 milhões do fundo na candidatura dele. Antes do PSD, passou pelo DEM, em 2008 e 2010, e pelo PFL, em 2004 e 2006, quando começou como vereador em Joinville. A ficha completa do candidato, com bens declarados e histórico eleitoral, está no especial de eleições do Jornal Razão.
Aos 64 anos, economista, natural de Cafelândia, no Paraná, ele construiu a carreira em Joinville, onde disputou três vezes a prefeitura e chegou duas vezes ao segundo turno, em 2008 e em 2020. Foi deputado estadual, elegeu-se deputado federal em 2018 e ficou na suplência em 2022. Agora tenta voltar à Câmara com o número 1022, candidatura deferida e patrimônio declarado de R$ 2,57 milhões.
Prestação de contas ainda está em curso
Todos os valores desta reportagem são os declarados pela própria campanha até esta quinta-feira (3). A prestação de contas segue aberta e é alimentada diariamente pelas campanhas até depois da eleição de outubro. Muitos candidatos ainda declararam pouco ou nada, e os números de Darci de Matos podem ser superados nas próximas semanas, conforme os adversários lançarem suas despesas. O retrato de agora mostra quem saiu na frente na contratação de militância, não o resultado final.
Contratar cabos eleitorais e pagar militância com recursos do fundo é permitido pela legislação eleitoral, desde que os serviços existam e sejam comprovados. A Justiça Eleitoral só julga as contas, com a comprovação de cada serviço, depois do pleito. Todos os números por candidato podem ser consultados no especial Eleições 2026 do Jornal Razão.























