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Eleições 2026

Delegado que teria denunciado Jorginho Mello desmente Folha de SP: “completamente falso”

Autor do despacho que pediu a remessa do inquérito de caixa 2 à Polícia Federal, o delegado Antônio Márcio Campos Neves afirmou ao Jornal Razão que o texto não atribui conduta ao governador. O caso virou material de campanha e já é publicado por candidatos ao Senado e à Câmara em Santa Catarina.

Delegado que teria denunciado Jorginho Mello desmente Folha de SP: “completamente falso”
Foto: Reprodução
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O documento tem três páginas, foi assinado numa delegacia do Sul catarinense que funciona com um escrivão e uma agente, e pedia uma coisa só: que a Polícia Federal assumisse um inquérito eleitoral parado. Transformado em manchete, virou acusação contra o governador de Santa Catarina. O delegado que escreveu o texto afirma que isso não está lá.

O delegado Antônio Márcio Campos Neves, autor do despacho, disse ao Jornal Razão que o trecho da reportagem segundo o qual o caso teria sido enviado à Polícia Federal “devido às suspeitas de envolvimento do governador catarinense” é “completamente falso”. Ele afirmou que em nenhum momento atribuiu qualquer conduta ao governador Jorginho Mello e classificou a repercussão como tendenciosa.

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O que diz o documento

A peça foi assinada em Lauro Müller em 18 de março de 2026 e endereçada ao juízo e à promotoria da comarca. Não é representação, notícia-crime nem relatório de investigação: é um pedido de encaminhamento, no qual o delegado sustenta que o inquérito deve ser conduzido pela Polícia Federal, nos termos da Resolução 23.640/24 do Tribunal Superior Eleitoral.

O inquérito em questão foi instaurado por requisição do Ministério Público Eleitoral para apurar crime eleitoral de caixa 2 e eventual compra de votos nas eleições municipais de 2024, por parte de integrantes da chapa “No Caminho Certo”. A apuração nasceu de notícia-crime formalizada pela coligação de oposição “Renova e Inova Lauro Müller” e do Ofício 008/2024 da Promotoria Eleitoral da 23ª Zona Eleitoral, de Orleans.

Boa parte do despacho é dedicada a explicar por que a investigação travou. O texto registra que a delegacia de Lauro Müller é a que se encontra em pior situação da 6ª Região em termos de efetivo, contando apenas com um escrivão e uma agente de polícia, e que o próprio subscritor atuava ali por 30 dias acumulando outras duas delegacias, uma em Criciúma e outra em Siderópolis. Diligências seguiam pendentes, inclusive a oitiva de testemunhas e suspeitos.

O trecho da polêmica

O ponto que gerou a controvérsia está no parágrafo seguinte.

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Por conta da notícia de que o delegado que vinha investigando o caso foi removido por interferência política de um suspeito, agora Prefeito da Cidade, junto ao governador, verifica-se que o caso pode e mais que isso, DEVE ser investigado pela Polícia Federal.

Na leitura literal do texto, quem aparece como autor da suposta interferência é o suspeito, hoje prefeito, e o governador figura como a instância à qual ele teria recorrido. O delegado também não afirma que apurou ou constatou a interferência: ele a qualifica como “notícia”, ou seja, informação que chegou até a delegacia e que serve de fundamento para deslocar o caso da estrutura estadual.

Foi exatamente esse o argumento que ele reforçou ao Jornal Razão. Segundo o delegado, o município é pequeno e a menção ao governador se deu na condição de instância política, por ser o chefe maior da instituição, e não como atribuição de ato. Para ele, a controvérsia é desnecessária.

O restante do despacho é técnico. O delegado lembra que, ao contrário dos crimes comuns, em que a autoridade policial pode instaurar inquérito de ofício, nos crimes eleitorais o procedimento só pode ser aberto mediante requisição do Ministério Público ou da Justiça Eleitoral, salvo flagrante. No caso, houve requisição, mas, por não se tratar de auto de prisão em flagrante, ele sustenta que a atuação da Polícia Civil é subsidiária e conclui que o caso precisa ser encaminhado à Polícia Federal.

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Munição em ano eleitoral

O documento voltou ao debate público depois de ser tratado na coluna de Mônica Bergamo, na Folha de S.Paulo. Em poucas horas, já circulava como material de campanha em Santa Catarina, a poucos meses da eleição de outubro, com as candidaturas majoritárias já definidas em convenção.

Décio Lima (PT) publicou um card com a palavra “URGENTE” e o texto de que o governador “é acusado de interferir” em investigação sobre compra de voto. Ele foi lançado candidato ao Senado em convenção do PT no plenário da Assembleia Legislativa, na chapa encabeçada por Gelson Merisio (PSB), candidato ao governo, e disputa uma das duas vagas catarinenses. Do outro lado, Jorginho Mello (PL) concorre à reeleição.

A deputada federal Ana Paula Lima (PT), candidata à reeleição pela federação formada por PT, PCdoB e PV, publicou peça semelhante, com a palavra “BOMBA” sobre o selo da Folha de S.Paulo e a mesma formulação de que o governador é acusado de interferir em investigação de caixa 2.

Em nenhuma das peças aparece o trecho literal do despacho. A frase que se espalhou nos cards é justamente a leitura que o autor do documento afirma não existir no texto que ele assinou.

Efetivo e operações contra a política

O ponto concreto levantado pelo delegado, o déficit de efetivo que travava as diligências, teve movimentação recente. O governo do estado nomeou 200 aprovados no concurso para agentes e escrivães da Polícia Civil, com publicação no Diário Oficial, reforço direcionado justamente às funções que faltavam na delegacia de Lauro Müller.

A estrutura policial catarinense também não tem se furtado a mirar a política nos últimos meses. A Polícia Civil vem deflagrando operações contra corrupção em municípios do estado, e o GAECO, força-tarefa coordenada pelo Ministério Público de Santa Catarina e integrada pela Polícia Civil, Polícia Militar, Polícia Penal, Receita Estadual e Corpo de Bombeiros, deflagrou nesta quarta-feira a Operação Catilina, em Itapoá, no Litoral Norte.

Naquele caso, foram cumpridos oito mandados de busca e apreensão contra três investigados, expedidos pela Vara Estadual de Organizações Criminosas. Conforme o MPSC, há indícios de que uma organização criminosa distribuía benefícios em comunidades sob sua influência para conquistar apoio eleitoral, e de que moradores teriam sido coagidos a declarar apoio a candidatos específicos, com relatos de intimidações e ameaças a opositores. A apuração corre sob sigilo judicial.

Os dois lados

Conforme divulgado, o governo do estado negou qualquer interferência e afirmou que o delegado deixou o município porque foi promovido por tempo de serviço. A prefeitura de Lauro Müller não havia se manifestado até a publicação da reportagem, e a Polícia Federal em Santa Catarina confirmou que apura o caso.

O inquérito sobre caixa 2 e compra de votos em Lauro Müller segue em andamento, e a natureza do ato que retirou o delegado titular da comarca, remoção ou promoção por tempo de serviço, é registro administrativo publicado e pode ser conferida documentalmente.

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