O café que sai da cozinha do Palácio da Alvorada chega frio no outro lado da casa. A cerveja pedida perto da piscina chega quente. A queixa não é de visitante, é do próprio morador: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em entrevista ao podcast Inteligência Ltda, Lula afirmou nesta quinta-feira (30) que a estrutura ampla da residência oficial dos chefes do Executivo federal é desagradável e até desumana para o dia a dia de quem vive nela. A declaração veio depois de o entrevistador Rogério Vilela perguntar sobre o espaço do palácio.
Café frio, cerveja quente
“A cozinha fica numa ponta, o quarto fica na outra. Se você tiver que pedir café, o café chega frio. Se você pedir uma cerveja, ela chega quente”, disse o presidente.
Segundo Lula, o imóvel tem oito quartos, e a distância entre eles atrapalha a rotina. A avaliação separa o valor visual da praticidade. “É muito belo para tirar fotografia. Agora, para morar, é muito desumano. Não é aconchegante”, afirmou.
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A entrevista foi gravada dentro da própria residência oficial, onde o presidente recebeu a equipe do programa.
Para Lula, a arquitetura do palácio também não conversa com a realidade da maioria dos presidentes que passaram por ali. O tamanho pensado para uma família grande, disse, não corresponde ao perfil de quem costuma chegar ao cargo. “Porque quase todos os presidentes que vêm aqui não têm uma penca de filhos. O cara vem para cá já com uma certa idade, com 50, 60 anos, já tem os filhos criados”, declarou.
O presidente também citou a piscina como exemplo do problema. Pelo relato, os pedidos feitos na área de convivência demoram a chegar por causa da distância até a cozinha, e a espera acaba pesando mais do que o descanso. “O cara já chega cansado”, disse.
A conta da reforma
A reclamação parte de um palácio que consumiu dinheiro público logo no começo do mandato. Números referentes a 2023 mostram que o governo federal gastou R$ 26,8 milhões em reformas, manutenções e na compra de móveis e utensílios para os palácios presidenciais, o Alvorada entre eles.
Entre os itens adquiridos estão um sofá reclinável com mecanismo elétrico e revestimento em couro italiano, de R$ 65,1 mil, uma cama king size de R$ 42,2 mil e cerca de R$ 89,4 mil em outros móveis e colchão destinados à residência oficial. A escolha de parte do mobiliário foi feita pela primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, mas os pagamentos saíram dos cofres públicos e os bens integraram o patrimônio da União.
Enquanto o casal aguardava a conclusão das vistorias e dos reparos iniciais no palácio, foram gastos R$ 216,8 mil com hospedagem temporária em hotel em Brasília.
A Secretaria de Comunicação da Presidência informou que os imóveis foram recebidos da gestão anterior com desgaste estrutural, infiltrações e peças do mobiliário histórico deterioradas ou ausentes. Segundo a pasta, os itens comprados não são de uso pessoal do casal, e sim bens duráveis incorporados ao acervo da residência oficial da Presidência da República.
O palácio de Niemeyer
O Palácio da Alvorada foi construído na década de 1950, a partir de projeto de Oscar Niemeyer, e integra o conjunto erguido junto com Brasília, a capital federal idealizada por Juscelino Kubitschek. É um dos símbolos da arquitetura modernista brasileira e aparece em cartões-postais da capital desde a inauguração.
A função do prédio é distinta da do Palácio do Planalto. O Alvorada é a residência oficial da Presidência da República, enquanto o Planalto abriga o local de trabalho do governo federal.
Durante a entrevista, o presidente não anunciou obra, reforma ou mudança de residência.










































