Pressionado no plenário a pautar o impeachment do ministro Alexandre de Moraes, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), respondeu nesta quarta-feira (2) com uma alfinetada direta em Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato do PL à Presidência da República. Sem citar o nome do colega, Alcolumbre lembrou que os mesmos que hoje cobram a cabeça de Moraes pela relação com o ex-dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, pediram R$ 130 milhões ao mesmo banqueiro para bancar um filme sobre Jair Bolsonaro.
A fala saiu no meio da sessão de votações do Senado, quando o presidente da Casa pediu licença ao senador Randolfe Rodrigues, também do Amapá, para retomar a pauta. “Senador Randolfe Rodrigues, me permita, eu vou voltar para a pauta aqui, porque senão eu vou ter que responder muitas agressões que, como presidente do Senado Federal, eu estou recebendo nos últimos dias”, disse Alcolumbre. E completou: “Apenas um comentário, no momento adequado eu vou falar. Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para a mesma pessoa para fazer um filme. E agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes. Mas eu vou fazer um relato de tudo que eu quero falar”.
O filme é “Dark Horse”, cinebiografia de Jair Bolsonaro que virou dor de cabeça para a família em maio deste ano. Segundo o Intercept Brasil, Vorcaro pagou cerca de R$ 61 milhões para financiar a produção, dinheiro solicitado pelo senador Flávio Bolsonaro. Os repasses teriam ocorrido entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, e o valor total negociado chegaria a R$ 134 milhões, sem evidência de que tudo tenha sido pago. Parte do dinheiro saiu da Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, no Texas, controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro. Eduardo e o deputado Mário Frias (PL-SP) teriam atuado como intermediários.
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Em um áudio divulgado pelo site, que seria de setembro de 2025, Flávio teria dito a Vorcaro que ficava “sem graça de ficar te cobrando” e demonstrado preocupação com o atraso nas parcelas da produção. Uma das conversas entre os dois aconteceu em 16 de novembro de 2025, um dia antes da primeira prisão do banqueiro na Operação Compliance Zero e dois dias antes da liquidação do Banco Master. É essa relação que Alcolumbre jogou de volta na mesa quando a oposição cobrou providências contra Moraes.
Minutos antes da alfinetada, o senador Cleitinho (Republicanos-MG) havia perguntado a Alcolumbre se existia previsão de pautar algum pedido de impeachment contra Moraes, e a resposta foi curta: “Não tenho”. Na sequência, o senador Carlos Portinho (PL-RJ) voltou a cobrar o avanço dos pedidos, e foi aí que o presidente do Senado disse estar recebendo “muitas agressões” e prometeu se pronunciar em detalhe em outro momento.
A pressão sobre Alcolumbre cresceu depois que o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal com mensagens encontradas no celular de Vorcaro. Segundo a investigação, o banqueiro teria perguntado a Moraes se deveria fugir do país dois dias antes da operação em que acabou preso, em novembro do ano passado. O relatório também aponta que Moraes editou o contrato de R$ 131 milhões firmado pelo Banco Master com o escritório da mulher dele, a advogada Viviane Barci de Moraes. Metadados da última versão do documento indicam edição no perfil do ministro no pacote Office 365 da Microsoft, conforme registrou o Estadão. Em outra mensagem, Vorcaro indica que precisava da proteção de “Paulo” e “Andrei”, nomes que os investigadores associam ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.
O escritório Barci de Moraes afirmou que o setor de compliance consultou o ministro, na condição de marido da sócia diretora, sobre eventuais impedimentos legais para a contratação, e sustenta que Moraes jamais julgou causa de interesse do banco. A PGR defendeu a nulidade do material. Do outro lado, a reação foi em cadeia: a Abracrim pediu o afastamento cautelar de Moraes, o senador Carlos Viana (PSD-MG) anunciou que vai levar a Alcolumbre uma representação sobre o contrato de R$ 131 milhões, cobrando saber quem editou o documento, o que foi alterado e por quê, e só na terça-feira foram protocolados mais três pedidos de impeachment contra o ministro.
Na terça-feira (1º), questionado sobre o teor das mensagens, Alcolumbre já tinha sinalizado que não pretendia mexer no assunto. “Eu não achei nada. Eu não tenho que achar nada”, respondeu, acrescentando que existem 109 pedidos de impeachment contra ministros do STF parados no Congresso e que esse volume “não é normal”. Só Moraes acumula 55 pedidos desde 2021. Nos bastidores de Brasília, Alcolumbre é apontado como um dos políticos mais próximos do ministro, e é dele a decisão de dar ou não andamento a qualquer pedido apresentado à Casa.
A oposição sabe que a cobrança tem pouco efeito prático. Senadores admitem, reservadamente, que faltam votos e falta apoio do presidente da Casa, e dois aliados de Alcolumbre afirmam que a chance de ele abrir um processo continua igual a zero, com qualquer desdobramento no Senado ficando para depois das eleições. Para afastar um ministro do Supremo, são necessários 54 dos 81 votos do plenário.
O clima já estava carregado desde a manhã. A Comissão de Constituição e Justiça aprovou nesta quarta-feira a PEC 221/2019, que acaba com a escala 6×1, acolhendo o relatório do senador Omar Aziz (PSD-AM), que rejeitou todas as 36 emendas apresentadas. Aziz argumentou que qualquer alteração faria a proposta voltar para a Câmara dos Deputados e travaria a promulgação. A oposição pediu vista e suspendeu a reunião por uma hora, mas o presidente da comissão, Otto Alencar (PSD-BA), retomou a sessão e colocou o texto em votação. Foram quatro votos contrários: Rogério Marinho (PL-RN), Hamilton Mourão (Republicanos-RS), Tereza Cristina (PP-MS) e Jaime Bagattoli (PL-RO). Um destaque de Marinho para retirar a garantia constitucional de dois dias de descanso remunerado também foi derrubado, em reunião marcada por interrupções, bate-boca e campainha acionada para conter os ânimos.
O texto reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem corte de salário, e garante dois dias de folga remunerada por semana. A proposta agora vai ao plenário, mas a inclusão na pauta é decisão de Alcolumbre, que não se comprometeu publicamente a votá-la nesta semana. Aliados dizem, sob reserva, que o presidente do Senado não quer tensionar uma semana já conturbada, apesar dos apelos do governo e da aproximação com o presidente Lula, que trata o fim da 6×1 como bandeira de reeleição. Para ser aprovada em definitivo, a PEC precisa de pelo menos 49 votos em dois turnos.
Ao devolver o caso Vorcaro para o colo de Flávio Bolsonaro, Alcolumbre fez mais do que defender Moraes: recolocou o adversário de Lula no centro do escândalo do Master em pleno ano eleitoral. O presidente do Senado prometeu falar “no momento adequado” e fazer “um relato de tudo” que quer dizer, sem data marcada. Até lá, os pedidos de impeachment seguem na gaveta e o fim da escala 6×1 continua dependendo da caneta dele para chegar ao plenário.





















