O candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) transformou o ministro Alexandre de Moraes no alvo central do ato de 7 de Setembro na Avenida Paulista, em São Paulo, nesta segunda-feira (7), e disse do alto do trio elétrico que “quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes”. O senador encerrou a série de 11 discursos da manifestação e foi apresentado pela mulher, Fernanda Bolsonaro.
A frase veio dentro de uma sequência de ataques ao ministro. Flávio afirmou que não vai permitir que o presidente indique mais quatro nomes com o mesmo perfil ao tribunal, declarou que quer acabar com o que chamou de ditadura de Moraes e prometeu encerrar o que classificou como consórcio entre o petista e o ministro. Também puxou o coro de “Fora Lula, fora Moraes” na avenida e cravou uma promessa sobre a futura composição da Corte: “Eu vou indicar cinco ministros porque Alexandre de Moraes vai cair”.
Quem vota em Lula está votando em Alexandre de Moraes
O candidato detalhou o perfil que pretende levar ao Supremo. Segundo ele, as indicações priorizariam nomes contrários ao aborto, às drogas e à chamada ideologia de gênero nas escolas, com o argumento de resgatar a credibilidade da Corte. Ao se referir a Moraes, usou a expressão “laranja podre” para dizer que o ministro não pode contaminar a instituição.
A carga religiosa do dia começou antes da Paulista. Flávio participou de um culto na Igreja Mundial do Poder de Deus, no centro de São Paulo, ao lado do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), e pediu em oração que a espada da justiça chegue à Praça dos Três Poderes, em Brasília. No palanque, a abertura ficou com uma oração do Pai Nosso puxada pela bispa Sônia Hernandes, da Renascer em Cristo.
O relatório que virou combustível de palanque
O que colocou o Supremo no centro do feriado foi a divulgação das mensagens trocadas entre Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, reveladas pelo Estado de S. Paulo. Nos diálogos, Vorcaro questionou o avanço das investigações da Polícia Federal e perguntou se deveria deixar o país dois dias antes de ser preso, em novembro de 2025. Documentos analisados pela PF apontam ainda encontros pessoais entre os dois e a participação de Moraes na negociação de um contrato de R$ 131 milhões entre o Banco Master e o escritório de advocacia de sua mulher, Viviane Barci de Moraes.
O relatório que sustenta a ofensiva, porém, tem limites que os discursos da Paulista não mencionaram. O documento foi produzido pela Polícia Federal a pedido do ministro André Mendonça para identificar integrantes de uma possível rede de influência atribuída a Vorcaro, e foi entregue em 27 de agosto de 2026. Parte das mensagens analisadas foi enviada pelo recurso de visualização única do WhatsApp, o que impede reconstruir integralmente as respostas do interlocutor identificado como Moraes. A própria corporação registrou que a análise “não possui caráter exaustivo”, porque foi feita no prazo de 72 horas fixado para atender à requisição judicial.
A crise dentro da Corte escalou em uma semana. Mendonça tornou público o relatório na terça-feira. No mesmo dia, Moraes usou o inquérito das fake news para determinar que a PF enviasse ao Supremo relatórios de inteligência com referências a ministros, entre eles material sobre a atuação de Mendonça. No dia 3, recorreu a esse conteúdo para acusar o colega de abuso de autoridade e crime de responsabilidade e encaminhou o caso ao presidente do tribunal, Edson Fachin.
Fachin passou a centralizar tudo. Ele abriu um procedimento separado sob sua condução para analisar o relatório divulgado por Mendonça, retirou do inquérito das fake news o pedido de investigação contra o colega e determinou que o caso fosse reunido ao mesmo procedimento. Também deu cinco dias para a Procuradoria-Geral da República se manifestar sobre a admissibilidade e a regularidade do processo. Mendonça, Moraes, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, têm até sexta-feira (11) para responder, o que empurra a análise do caso para depois de 14 de setembro.
A PGR já apresentou ressalvas ao caminho seguido por Mendonça. O órgão sustentou que o ministro não deveria ter solicitado a identificação do destinatário de mensagens atribuídas a Vorcaro sem provocação do Ministério Público ou da própria Polícia Federal, e defendeu que qualquer apuração envolvendo Moraes seja submetida ao plenário do Supremo. No domingo (6), Mendonça formalizou justamente esse pedido e liberou o caso para julgamento pelo colegiado. Fachin ainda não marcou data.
A conta dos cinco ministros passa pelo Senado
A aritmética da promessa feita na Paulista não depende só de eleição. Para que Moraes deixe a Corte por impeachment, o processo precisa passar pelo Senado, e a condenação por crime de responsabilidade exige dois terços dos votos, ou 54 dos 81 senadores. Nenhum pedido desse tipo contra ministro do Supremo chegou a ser aprovado na história recente do país. Por isso o palanque de segunda-feira misturou pedido de voto presidencial com pedido de voto para o Senado: a deputada Bia Kicis, candidata pelo Distrito Federal, pediu explicitamente que o público eleja senadores de direita para viabilizar o impeachment de ministros, e o deputado André do Prado repetiu que ninguém está acima da lei. Em Santa Catarina, Carlos Bolsonaro e Carol De Toni disputam as duas vagas estaduais na mesma chave.
O tom mais duro contra o ministro veio do pastor Silas Malafaia. Ele afirmou que Moraes “transformou a liberdade de expressão em crime de opinião”, disse que o ministro conduz um inquérito ilegal e imoral para atingir Mendonça e apelou aos demais integrantes da Corte pelo afastamento e pelo impeachment. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), também no trio, atacou Moraes e aproveitou para se defender das citações às conversas com Vorcaro, afirmando que não trocou de celular.
Faltam menos de quatro semanas para 4 de outubro, e a campanha do PL passou a tratar a permanência de Moraes no Supremo como tema de eleição, e não apenas de Justiça. Os próximos marcos estão no calendário do próprio tribunal: o prazo de manifestação das autoridades envolvidas se encerra na sexta-feira (11), e cabe a Fachin decidir se, quando e em que formato o plenário analisará o relatório que virou combustível de palanque.




















